Amanda Perobelli|Estadão
Amanda Perobelli|Estadão

A dura busca pelo emprego na crise

No centro de São Paulo, trabalhadores deixam currículos em caixas colocadas no meio da rua

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2016 | 05h00

No dia em que o IBGE divulgou índice de desemprego acima de 10%, com mais de 10 milhões de desocupados, o ex-metalúrgico Jonatan Soares da Silva, de 31 anos, fora do mercado há seis meses, acordou cedo para ir a uma entrevista numa agência de empregos no centro de São Paulo. Ele aproveitou para distribuir currículos em outras agências da rua Barão de Itapetininga. No começo da tarde, tinha entregue 120 currículos. Desde que perdeu o emprego, foram quase 2 mil currículos deixados em empresas e agências.

“O desemprego está muito grande e eles estão querendo quem tem mais qualificação”, observou o ex-operador de máquina que cursa o 1.º semestre de engenharia. Na metalúrgica, ele ganhava R$ 3 mil, mas está disposto a receber menos. “Pela situação que o País está, a gente tem de pegar qualquer coisa”, disse ele, que se prepara para ser pai pela 2.ª vez.

O ex-porteiro Anderson dos Santos, de 22 anos, também pensa como Jonatan. “Na situação que está, não dá para escolher valores”, disse ele, desempregado desde janeiro e com um filho recém-nascido. Ontem, ele saiu de casa às 6 horas e pegou o trem de Mogi para São Paulo em busca de uma oportunidade. “Ouço falar muito das agências de emprego daqui. Quem sabe tenho uma chance.”

O clima na rua Barão de Itapetininga, reduto de agências de emprego, é bem diferente de seis meses atrás. Um grande número de pessoas anda de um lado para o outro com currículos debaixo do braço, num sobe e desce dos elevadores dos edifícios onde ficam as agências. Há até fila de espera na rua para entrar nos prédios e entregar os currículos. Para facilitar o serviço, algumas agências espalharam pela calçada caixas de papelão onde o candidato pode deixar o documento, sem precisar perder tempo com a espera.

Fernando Medina, diretor de Operações da Luandre, agência que tem uma das 11 unidades instalada na rua Barão de Itapetininga, conta que a procura dos candidatos por emprego em todas as unidades da empresa e também no site está neste ano 30% maior do que no ano passado. Mas existe um descompasso, porque o número de vagas preenchidas no mesmo período cresceu num ritmo menor, quase 15%. “Não estamos dando conta da demanda.”

Medo. O temor de ficar na fila de desempregados por um longo tempo fez Maria Goretti Ferreira, de 54 anos, sair de casa com um maço de currículos, um dia após ter perdido o emprego de faxineira. Ela aproveitou a companhia da amiga Maria Ermelinda dos Santos, de 44 anos, há um ano sem emprego, para vir ao centro. “Não dá para esperar. As dívidas não esperam.”

Mas a espera está sendo longa para o pedreiro Mario Zan, de 39 anos, há um ano desempregado. Sem computador em casa, ontem ele gastou R$ 1 para atualizar o seu currículo e incluir o curso que acaba de concluir no Senai, na expectativa de ter uma chance.

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