A dura missão de recuperar a Eletrobrás

Acostumado à agilidade da iniciativa privada, Ferreira Júnior lida com a burocracia para implementar plano de reestruturação da estatal

Renée Pereira ENVIADA ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2017 | 05h00

A ideia era cumprir os últimos dias na presidência da CPFL Energia e seguir carreira de conselheiro de empresas. Mas uma proposta desafiadora mudou os planos do então presidente da empresa paulista, Wilson Ferreira Júnior. Pouco antes de completar o processo de sucessão na companhia, ele foi convidado para comandar a estatal Eletrobrás, uma das maiores empresas de energia elétrica da América Latina e que estava praticamente quebrada.

Com experiência de mais de 18 anos à frente da CPFL, a primeira reação foi olhar o balanço da estatal. Os números eram péssimos e o cenário, caótico. Envolvida na Lava Jato, a empresa, com uma dívida gigantesca, estava com as ações suspensas na Bolsa de Nova York. Mas, mesmo com esse amontoado de problemas, o executivo resolveu enfrentar o desafio.

Menos de um mês depois, ele já ocupava a ampla sala do 13.º andar do edifício Herm Stoltz, no centro do Rio, com a missão de colocar a casa em ordem. Ali, de frente para a igreja da Candelária, se deparou com a real situação da empresa – aquela que não aparece nos números do balanço, como o excesso de burocracia, a exagerada ineficiência e a estrutura inchada.

“Era difícil saber por onde começar”, lembra Ferreira Júnior, que completa, nesta semana, seis meses à frente da estatal. Nesse período, as ações da empresa voltaram a ser negociadas na bolsa americana e o valor de mercado da estatal começou a reagir. Quando foi anunciado presidente da holding, a Eletrobrás valia cerca de R$ 12 bilhões. Hoje esse valor está na casa de R$ 30 bilhões – uma valorização de 150%, mas ainda distante dos R$ 44 bilhões de 2010.

Apesar da trégua do mercado financeiro com a empresa, os indicadores ainda são muito ruins – resultado de décadas de desmandos políticos. O grau de alavancagem, medido pela relação entre dívida líquida e Ebtida (geração de caixa), é de 8,9 vezes e a dívida, de R$ 45 bilhões. “Na CPFL, esses indicadores eram de 3 vezes e R$ 15 bilhões (respectivamente). A CPFL tinha os maiores índices de produtividade. A Eletrobrás, um dos menores”, compara o executivo, que nos últimos meses tem trabalhado em ritmo chinês. Começa às 8h, almoça no prédio da estatal e sai às 21h. Isso quando não está viajando entre as sedes das subsidiárias da Eletrobrás, como Pernambuco e Rio Grande do Sul.

A carga horária insana se justifica. A situação exige celeridade – e medidas impopulares. Cercado por especialistas renomados no setor, ele costurou amplo plano de reestruturação que tem incomodado muita gente, em especial nas controladas. Até hoje, as subsidiárias (Furnas, Chesf, Eletronorte e Eletronuclear) tinham vida independente e pouco reportavam à holding.

Cortes. Com a reestruturação, as empresas do grupo terão de seguir um rito de corte de custos e enxugamento da estrutura ditados pela controladora. Para começar, haverá a redução das chamadas funções gratificadas – funcionários que são designados em caráter transitório para desempenhar atividades de assessoria e de gerência. Por causa disso, recebem uma gratificação que pode variar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil por mês. Depois de um período, essa gratificação começa a ser incorporada ao salário.

Só na holding havia 228 posições gratificadas na área de gerência. De novembro pra cá, esse número foi reduzido para 99. “Tínhamos quatro níveis hierárquicos. Decidimos ficar com três.” No grupo todo, são 2.220 pessoas que agora estão sob a mira do executivo. Ainda neste primeiro trimestre, 30% dessas funções devem ser cortadas.

Junto a isso, haverá um Programa de Demissão Voluntária (PDV), que pode resultar no corte de 2,4 mil pessoas, e um plano de aposentadoria incentivada. Pelos estudos feitos até agora, cerca de 35% do pessoal da estatal teria idade para se aposentar. No total, espera-se reduzir de 23 mil para 12 mil o número de funcionários – isso inclui a privatização das distribuidoras da empresa, que têm 6 mil funcionários. Se conseguir implementar o plano, em 2018 a empresa teria uma economia de R$ 1,7 bilhão.

A reestruturação também alcançou os desperdícios das subsidiárias na capital federal. Eletronuclear, Eletrosul, Furnas, Chesf e Eletronorte tinham escritórios em locais diferentes. “Reunimos todas num único prédio e vamos pagar um terço do que gastávamos”, diz Ferreira Júnior. Segundo fontes em Brasília, as medidas têm provocado uma enorme choradeira pelos corredores do Congresso Nacional e do Planalto. Por ora, as medidas têm o aval do presidente da República, afirmam fontes do governo. “Hoje, somos o maior grupo de energia elétrica da América Latina. Agora, temos de ser o melhor”, afirma Ferreira Júnior.

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