A dura tarefa de prever o preço do petróleo

Há 33 anos, economista tenta acertar o destino da cotação do produto e, observando diferentes mercados, acredita que a queda vai perder força

Jim O'Neill, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2014 | 03h41

No fim de 1979, comecei a trabalhar na minha tese de doutorado, uma investigação empírica sobre os excedentes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e dos seus destinos. Era o fim de uma década na qual os preços do produto haviam sofrido dois aumentos drásticos, e a maioria dos vários gênios da época previa, confiante, que os aumentos vertiginosos continuariam, de menos de US$ 40 o barril - uma alta histórica naquele tempo - para mais de US$ 100.

Quando terminei minha pesquisa em 1982, o preço do petróleo iniciava o que seria a maior queda dos últimos 20 anos. E só chegaria a US$ 100 em janeiro de 2008.

Eu brincava que a coisa mais importante que aprendi com a minha pesquisa foi jamais tentar prever o preço do petróleo. Enquanto 2014 chega ao fim, o seu preço volta a cruzar o limiar dos US$ 100 - desta vez para baixo. Uma das grandes incógnitas para 2015 é se o declínio continuará. Apesar do meu ceticismo inicial, acho que sei a resposta.

Nos últimos 33 anos, tive diversas oportunidades para estudar os preços do petróleo e o câmbio, inclusive supervisionando um departamento de pesquisa composto de pessoas talentosas que tentavam prever os seus movimentos. A experiência me deixou com uma boa dose de ceticismo. Mas acredito que é possível prever para onde estão indo os preços do produto.

Ao longo de minha carreira, tentei determinar se existirá um equilíbrio do preço do petróleo. Passei muitas horas tentando orientar, persuadir e pedir aos meus analistas da área de energia que criassem um modelo que o identificasse, como acontece com as moedas, os rendimentos dos títulos e as ações. Também discuti a ideia com especialistas do setor; a maioria deles acredita que existe, mas que se movimenta um bocado, porque é consideravelmente influenciado pelo custo marginal da produção petrolífera - esta também uma variável instável.

Minha conclusão é que uma boa indicação deste equilíbrio móvel existe: o preço do petróleo dentro de cinco anos, ou a quantia paga para a entrega garantida do produto por cinco anos, a partir de agora.

Na minha busca atual para conseguir prever melhor, comecei, há alguns anos, a prestar atenção no preço do petróleo em cinco anos, comparado ao preço spot (termo em inglês para preço à vista) do petróleo brent, o preço de um barril de petróleo hoje.

Desconfio que o preço em cinco anos é muito menos influenciado pela especulação no mercado do petróleo do que o preço spot, e que é mais representativo das verdadeiras necessidades comerciais.

Portanto, quando o preço em cinco anos começa a se movimentare numa direção diferente em relação ao do spot, tomo nota. Em 2011, depois que ambos os preços se recuperaram do colapso provocado pela crise do crédito em 2008, o preço em cinco anos começou a baixar gradativamente, enquanto o preço spot continuou subindo por algum tempo.

Xisto e China. Essa situação se coadunava com o que eu identificara como dois importantes fatores que influíam fundamentalmente no preço do petróleo: o início da exploração do óleo de xisto e do gás nos Estados Unidos, e a mudança do foco econômico da China da quantidade para a qualidade, o que implicava que a economia chinesa deixaria de consumir energia à taxa frenética anterior.

Concluí que havia uma chance de que os preços atingissem o pico e que, dentro em breve, os preços spot inverteriam sua direção e começariam a declinar. Pensei que seria provavelmente o começo de uma volta aos US$ 80 o barril - precisamente o preço chegou ao fim de 2014. Recentemente, o preço spot inclusive caiu abaixo deste patamar. Esta foi uma das minhas melhores previsões.

Não faço mais previsões para ganhar o meu sustento, mas uma coisa eu sei: os preços do petróleo subirão ou cairão. Há pouco tempo, li um artigo que sugeria que, se o preço do petróleo permanecer nos recentes patamares, no próximo ano a produção americana de óleo de xisto e de gás ficará 10% abaixo das últimas projeções.

Parece plausível. Considerando quão importantes se tornaram o óleo de xisto e o gás para a recuperação econômica dos Estados Unidos, também parece algo que as autoridades americanas preferirão evitar.

Talvez consigam ambas as coisas. É possível que os preços do petróleo não comecem a subir nos próximos meses, mas, enquanto o ano se aproxima do fim, já despontam forças que poderão deter seu declínio.

A queda do preço spot provocou a queda significativa do petróleo abaixo do preço em cinco anos, que continua próximo dos US$ 80 o barril. Meu palpite para 2015 é que o preço talvez continue caindo a curto prazo: entretanto, ao contrário dos últimos quatro anos, provavelmente acabará o ano acima de onde estava quando o ano começou.

* Ex-presidente do Conselho do Goldman Sachs Asset Management, pesquisador visitante do grupo Bruegel de Economia, com sede em Bruxelas

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