A dúvida, agora, é sobre a qualidade dos testes

Crises de ficção, resultados verídicos? O objetivo dos testes de estresse planejados pela União Europeia e realizados pelo Comitê Europeu dos Controladores Bancários (CEBS) era provar aos investidores que o setor enfrentaria sólido uma crise sistêmica, como a ocorrida entre 2008 e 2009. O recurso às provas de resistência já havia sido usado nos EUA, e, assegura a direção do comitê, com critérios similares. Mas é precisamente essa metodologia que está sub judice por parte de analistas mais rigorosos.

Cenário: Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2010 | 00h00

Três cenários de crise foram usados pelo CEBS para medir a resiliência dos bancos. O mais brando de todos pressupunha a ocorrência de uma crise moderada na zona euro. O segundo, mais profundo, previa uma depressão mais intensa, seguida de recuperação lenta, com recuo do PIB de 0,2% em 2010 e de 0,6% em 2011. O terceiro cenário previa um choque sobre os títulos de dívida soberana (dos países) que fazem parte das carteiras dos bancos.

Falemos primeiro das críticas: segundo alguns analistas, os cenários não eram duros o suficiente, nem respeitavam as especificidades do setor na Europa. A hipótese de um calote da dívida soberana não foi incluída. Nas hipóteses abordadas pela prova, só uma parte da dívida soberana em poder dos bancos acabou envolvida. E o calcanhar de Aquiles da Europa são as dívidas soberanas.

Por outro lado, o resultado obtido pelos bancos em simulações mais rigorosas, como a realizada por Goldman Sachs e pelo JP Morgan ao longo da semana, indicaram resultados semelhantes. No caso do Goldman Sachs, a taxa de aprovação seria de 89%, contra 92,4% verificada pelo CEBS, e 10 das 91 instituições analisadas enfrentariam problemas, e não apenas sete, como na análise do comitê.

A julgar por esses parâmetros, frente a crises de ficção, a solidez diagnosticada por Bruxelas seria real. Resta saber frente a crises de verdade.

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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