A 'e-conomia' existe mesmo?

A economia das ocupações independentes está mudando o mundo do trabalho ou é só tempestade em copo d'água?

The Economist

29 de outubro de 2015 | 02h07

É comum ouvir que as formas tradicionais de emprego estão com os dias contados. O assunto pegou nos Estados Unidos e também é motivo de debates acalorados na Grã-Bretanha. Há cada vez mais pessoas que vivem - ou complementam sua renda - com o que ganham vendendo mercadorias no Etsy ou no Ebay, oferecendo serviços de táxi pelo Uber (eventualmente deixando o carro para alugar no easyCar Club quando não estão transportando passageiros) ou acomodando, via Airbnb, turistas no quarto desocupado que têm em casa (e talvez aproveitando para oferecer também, via JustPark, vagas de estacionamento em suas garagens). Em suma, o mundo do trabalho parece estar mudando. É a chamada e-conomia (em que o "e-" serve para indicar seu caráter eletrônico, empreendedor e, possivelmente, eclético), por meio da qual são comercializados, de forma independente e online, bens e serviços individuais.

A questão é que, consultando-se os dados oficiais, não se encontram muitos sinais dessa revolução. Nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, a porcentagem de trabalhadores com empregos fixos não sofreu grandes alterações nas últimas décadas; e a fatia dos indivíduos que acumulam mais de um emprego também permaneceu estável. Nos EUA, o porcentual de trabalhadores autônomos está inclusive caindo, e embora viesse crescendo em ritmo acelerado na Grã-Bretanha, parece ter se estabilizado no ano passado.

Um exame mais detido e aprofundado dos dados tampouco permite comprovar a existência real da e-conomia. Os freelancers - representantes mais prováveis desse admirável mundo novo do trabalho - mal chegam a 2% da força de trabalho; número que não mudou muito nos últimos 15 anos. Observa-se crescimento bem mais acentuado entre as pessoas que trabalham por conta própria, mas não há como dizer com segurança se o que está por trás disso é a e-conomia ou formas tradicionais de autoemprego.

E se as ocupações independentes e ocasionais que caracterizam a e-conomia são algo a que as pessoas se dedicam em paralelo a empregos tradicionais, em vez de constituir sua principal fonte renda? Os dados oficiais tampouco confirmam essa hipótese. Só uma pequena minoria de trabalhadores, sugerem os dados, extraem rendas complementares de ocupações autônomas.

Porventura há vestígios da e-conomia no tipo de serviço executado pelos trabalhadores autônomos? O quadro é ambíguo. De 2009 para cá, as ocupações autônomas que mais cresceram foram as dos cabeleireiros, faxineiros e consultores empresariais. É bem verdade que essas atividades podem ser oferecidas através dos canais típicos da e-conomia, mas tampouco se pode negar que são atividades cujo histórico de autoemprego crescente é anterior ao surgimento da e-conomia. A quarta ocupação autônoma que mais se expandiu nos últimos anos é a de "locação e administração de imóveis", o que poderia ser um reflexo do aumento no número de pessoas que alugam suas casas e garagens online. Por outro lado, a prestação de serviços de táxi foi a atividade que mais recuou entre as ocupações autônomas, o que talvez permita refutar a ideia de que o Uber está tomando conta do mercado.

Vê-se, assim, que os dados oficiais não oferecem respaldo à noção de que a e-conomia já é uma realidade. Mas isso não é o mesmo que dar razão aos céticos. Há no mínimo dois fatores que permitem contradizê-los.

O primeiro é que a revolução talvez ainda esteja no começo. Exemplo: analistas dizem que a elevação significativa do patamar básico de remuneração que os empregadores britânicos serão obrigados a oferecer, em razão da nova política de salário mínimo adotada pelo governo de David Cameron, talvez empurre mais pessoas para as atividades autônomas. As perdas significativas com restituições do imposto de renda no próximo ano também poderão levar muitos britânicos a pensar em adotar fontes de renda alternativas, a fim de complementar o salário que recebem em seus empregos.

O segundo fator é que talvez não estejamos formulando as perguntas corretas. Os levantamentos conduzidos pelos órgãos oficiais de estatística nunca foram muito bons para aferir transformações no mercado de trabalho. A polêmica sobre a real extensão dos contratos de "zero horas" (tipo de contrato de trabalho que se popularizou na Grã-Bretanha depois da crise financeira de 2007-2008, em que o trabalhador é remunerado apenas pelo número de horas que trabalha, de "zero horas" a um período integral, podendo não receber nada quando o empregador não tem trabalho para lhe oferecer) ilustra bastante bem a questão: os números oficiais talvez estejam subestimados, pois as pessoas confundem esse tipo de relação empregatícia com um trabalho temporário como outro qualquer.

É um tipo de confusão a que as atividades da e-conomia estão particularmente sujeitas. Exemplo: as pessoas tendem a não perceber que a locação de sua residência ou de seu veículo conta como trabalho, e, em vista disso, omitem a informação dos estatísticos governamentais. Nos Estados Unidos, evidências preliminares indicam que isso talvez esteja realmente acontecendo. Na Grã-Bretanha, levantamento recente conduzido pela desenvolvedora de softwares Intuit, focado em atividades da e-conomia, indica que atualmente 6% dos britânicos geram renda com mecanismos de economia compartilhada - proporção um pouco mais elevada do que a apontada pelas estatísticas oficiais.

Medir a e-conomia é importante. Informações confiáveis sobre como as pessoas combinam empregos, trabalho e outras atividades para gerar renda permitem conhecer melhor seu padrão de vida e, assim, avaliar o que realmente importa: se, para os trabalhadores, os efeitos da e-conomia são positivos ou negativos. Por isso é fundamental que os órgãos oficiais de estatística desenvolvam mecanismos que possibilitem mensurar os novos tipos de atividade econômica.

Na vida, a possibilidade de fazer escolhas é, de modo geral, uma coisa boa. E o rebaixamento das barreiras de acesso, promovido pela tecnologia atual, tende a democratizar as oportunidades que as pessoas têm de se dedicar ao empreendedorismo. Mas a fragmentação associada à e-conomia também pode trazer consigo novas formas de vulnerabilidade, devendo exigir, no mínimo, que sejam reformulados os métodos de avaliação do impacto de políticas públicas no tocante a direitos do trabalhador (e do consumidor), estabilização da renda e aposentadorias. Para que tenhamos uma visão adequada de como se equilibram a liberdade, a segurança e a margem para intervenções políticas, o primeiro passo é a criação de ferramentas estatísticas que mostrem com mais clareza e precisão quem efetivamente são os atores da e-conomia.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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