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José Roberto Mendonça de Barros
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A economia brasileira ao final do primeiro trimestre

Quando a melhor defesa da política econômica é expressa em frases do tipo "Não estamos à beira do abismo", "A inflação não vai sair do controle" ou "Tem gente crescendo menos", é que as coisas não vão bem.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2014 | 02h04

É o que parece estar acontecendo agora. Ao final do primeiro trimestre do ano, a conjuntura esta marcada pelos seguintes fatores:

1 - A inflação está em alta, puxada por alimentos e serviços. A seca do início do ano reduziu a produção de muitos itens, com efeitos evidentes nos índices de custo de vida. Café, cana, hortigranjeiros, carnes e frutas foram afetados. O leite sobe em plena safra e assim deverá continuar a ocorrer até o segundo semestre. Neste período, as quebras na produção irão também afetar o feijão e o etanol (a redução na produção de cana é hoje estimada em mais de 40 milhões de toneladas, resultando numa perda de 1 bilhão de litros de álcool e 2 milhões de toneladas de açúcar). A firmeza dos preços internacionais reforça o quadro: os estoques de soja nos EUA estão muito baixos, a demanda chinesa continua surpreendendo a muitos pela sua firmeza e o preço da carne suína explodiu, como resultado de um vírus que está afetando bastante a produção no hemisfério norte, entre outras coisas. Tudo isso está demonstrado no IPCA de março, que subiu 0.92%, com mais de 70% das categorias de preços, mostrando reajustes. Em 12 meses a inflação cheia cresceu 6.2%, com os núcleos se expandindo 6.3%. O IPCA de abril não deverá ser muito diferente do de março, uma vez que apenas nos hortícolas pode-se esperar alívio nos preços, dado o ciclo curto de produção. Entretanto, mesmo aí o ano tem se mostrado peculiar, pois em muito locais a escassez de água para irrigação está limitando a retomada da produção.

Além da alimentação, chama a atenção no IPCA de março a retomada do crescimento dos preços de serviços, que se expandiram notáveis 9.1% em 12 meses, o que fará que a inflação anual supere o teto da meta ainda no primeiro semestre, lá ficando até o final do ano, quando projetamos 6.6% para 2014. Tudo isso ainda com o represamento de preços de combustíveis, energia elétrica e transportes urbanos. A "verdadeira" inflação já está bem acima do teto, e é isso o que a população percebe, como mostrou de forma clara a última pesquisa do Datafolha. O Banco Central continuará a ter muito trabalho.

2 - O final do período chuvoso, que está sendo muito fraco, consolidou uma situação lamentável no setor elétrico, que vai afetar, e muito, a economia brasileira. Os níveis de água nos reservatórios estão muito baixos, no início de abril, o que só piorará no período de seca. Em consequência, todas as térmicas disponíveis estão ligadas e o custo da energia elétrica no mercado livre explodiu. Com isso, existem quatro problemas a serem enfrentados e nenhum deles é trivial. A questão do suprimento de energia - é quase certo que teremos que ter algum programa emergencial de redução da demanda ainda neste ano. A situação de destruição das finanças de boa parte das companhias do setor (geradoras e distribuidoras), como consequência da antecipação da renovação das concessões e pelos custos incorridos pelas distribuidoras obrigadas a comprar parte de sua energia no mercado livre, a preços elevadíssimos. O desequilíbrio financeiro detonado a partir da MP 579 do final de 2012 resultou na necessidade de um aporte grande de recursos do Tesouro para manter o setor em funcionamento, uma vez que a decisão populista de redução arbitrária das tarifas tem que ser financiada. Os custos dessa decisão, segundo estimativas da PSR de Mário Veiga, podem atingir mais de R$ 50 bilhões, dos quais R$ 18 bilhões foram aportados em 2013, afetando as contas do governo.

Para tentar reduzir o impacto remanescente, e este é o terceiro ponto mencionado, é que está sendo montado um consórcio de bancos para realizar um empréstimo de R$ 11 bilhões, a ser concedido para a CCEE - Câmara de Compensação de Energia Elétrica. Estou seguro que essa operação só sairá se de alguma forma existir garantia do Tesouro. Finalmente, o quarto problema é repassar para as tarifas todo esse rombo acumulado, uma vez que não é razoável imaginar que o Tesouro vá continuar financiando esse subsídio indefinidamente.

3 - A atividade econômica está, claramente, enfraquecendo. A maior dificuldade está localizada no setor automotivo, uma vez que a produção de veículos e comerciais leves caiu 8,4% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2013. Os estoques no sistema se elevaram bastante e hoje são de 48 dias de vendas, quase o dobro do usual. Os emplacamentos de veículos no início de abril despencaram, apresentando uma queda de mais de 14% em relação ao mesmo período de 2013, segundo a Automotive Business. Com isso, todas as montadoras reprogramaram a produção. Algumas diminuíram turnos, outras deram longas férias coletivas e no mercado comenta-se que a força de trabalho será reduzida. No setor de caminhões, a parada foi ainda mais brusca, uma vez que o BNDES diminuiu fortemente a liberação de financiamentos do PSI. Como consequência dessa redução, a demanda de aço já está sendo afetada (assim como o restante da cadeia), o que se reforça com a lentidão dos investimentos e a consequente redução da demanda de máquinas.

Nesse sentido, pesquisa da FGV já mostra uma preocupante acumulação de estoques não planejados nos setores de bens de consumo duráveis e de capital. Ainda no setor intermediário, elevam-se as notícias de empresas que desligam seus equipamentos para vender energia no mercado livre. Não existem avaliações consolidadas, mas o movimento já tem certo significado em setores como alumínio, ferro-ligas e outros. Nesse caso, melhora o balanço da companhia, mas cai a produção. Outros segmentos, como a construção civil residencial, também reportam maior lentidão nas atividades.

Reafirmamos nossa projeção de 1.6% para o crescimento do PIB de 2014.

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