A economia brasileira: depois das eleições, o ajuste de contas

A economia brasileira: depois das eleições, o ajuste de contas

Brasil não é a única economia emergente a enfrentar ventos contrários, mas a situação é particularmente desfavorável

J. P., Economist.com

10 de novembro de 2014 | 16h28


O Brasil não é a única economia emergente a enfrentar ventos contrários. Mas a situação do país parece particularmente instável. Depois de vencer por pequena margem o disputado segundo turno da eleição presidencial no dia 26 de outubro, nessa semana Dilma Rousseff voltou de uma breve folga pós-campanha para receber uma série de más notícias. O déficit comercial aumentou para US$ 1,1 bilhão em outubro, o maior já registrado no mês. O total acumulado no ano é de US$ 1,8 bilhão. Houve queda nas importações e exportações, indicando atividade enfraquecida. Uma alta inesperada na produção industrial em setembro se mostrou na verdade outra queda; já são cinco trimestres seguidos de encolhimento.

Então, no dia 5 de novembro, veio a tona o dado segundo o qual o número de brasileiros miseráveis, sem recursos para evitar a desnutrição, teve aumento de 371 mil entre 2012 e 2013, chegando a um total de 10,4 milhões de pessoas. É a primeira vez que o número de miseráveis aumenta desde que o partido dela, PT (Partido dos Trabalhadores), chegou ao poder em 2003. O golpe é especialmente duro para a presidente, que passou boa parte de sua campanha se gabando do quanto ela tinha feito para melhorar a situação dos mais pobres. Agora parece que, como apontado repetidas vezes pela oposição, o progresso social conquistado durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, que governou o país de 2003 a 2010, perdeu fôlego durante o mandato de sua sucessora.

Os especialistas atribuem o aumento no número de miseráveis à deficiência na produção, que afeta a renda, e a inflação, que a consome. E as coisas podem piorar. Em 2013 a economia cresceu 2,3%; previsões indicam que pode não haver crescimento econômico este ano e, em 2015, esse pode chegar a cerca de 1%. O PIB per capita vai cair. É verdade que a inflação teve pequena queda em outubro, chegando a 6,6%, mas o número continua acima da meta do Banco Central.

Para dar novo ânimo ao crescimento Dilma precisa restaurar a credibilidade perdida após quatro anos de intervenções erráticas no setor privado somados à incontinência monetária e fiscal. Em parte como resultado de uma orgia de gastos pré-eleitorais, as despesas cresceram duas vezes mais do que a receita neste ano. Números divulgados na semana passada mostraram um rombo orçamentário equivalente a 4,9% do PIB nos 12 meses mais recentes até setembro, o maior em 12 anos. Nos primeiros nove meses do ano o saldo primário (antes do pagamento de juros) teve o primeiro déficit desde que o Banco Central começou a acompanhar este dado em 2001 (ver gráfico). O governo finalmente reconheceu que vai ficar aquém de uma meta autoimposta de excedente primário de 1,9% para 2014.

Os otimistas esperam que a inesperada decisão do comitê de política monetária de aumentar os juros seja indício de uma nova disposição de Dilma em fazer as pazes com a ortodoxia econômica - em especial, concedendo ao Banco Central mais independência para combater a alta nos preços. O mesmo valeria para a promessa feita no dia 7 de novembro pelo atual ministro das finanças, Guido Mantega (de saída), de cortar os gastos e restaurar um excedente primário em 2015 - algo fundamental se o Brasil não quiser perder sua prezada classificação de crédito, conquistada durante o governo Lula em 2008.

Os cínicos destacam a alta nos juros, há muito necessária, só foi anunciada depois da derrota do rival de Dilma nas eleições, preferido pelo mercado. Embora Mantega mereça crédito por apontar para áreas como pensões herdadas e empréstimos subsidiados concedidos pelo imenso banco brasileiro de auxílio ao desenvolvimento como alvos para cortes, ele não disse exatamente onde os gastos seriam reduzidos nem o quanto seria poupado. Para desespero do mercado, Dilma ainda não nomeou o sucessor de Mantega, que será responsável pela implementação dos cortes.

Mesmo que seja sincera, a nova disciplina monetária e fiscal do governo deve ser recebida com cautela, por dois motivos. Primeiro, o corte de gastos já apropriados no orçamento, incluindo as pensões, requer a aprovação de um congresso cada vez mais hostil. Assim sendo, é provável que a lâmina recaia sobre os investimentos, que já são fracos para os padrões de uma economia emergente, mas sobre os quais o governo tem maior controle, alerta Alberto Ramos, do Goldman Sachs. Isso pode afastar um rebaixamento na classificação de crédito no curto prazo. Mas os danos incidiriam sobre as perspectivas brasileiras para o longo prazo.

Segundo, e mais importante, muitos duvidam da determinação de Dilma. A maioria dos economistas concorda que um ajuste fiscal e monetário grande o bastante para garantir o crescimento futuro sustentável acabaria aumentando inevitavelmente o desemprego, que continua próximo do ponto mais baixo de sua história, em aproximadamente 5%, durante o segundo mandato. Na verdade, levando-se em consideração a fragilidade atual da economia, a perda de empregos é provável mesmo na ausência de reformas. Em entrevista concedida a um conjunto de jornais no dia 6 de novembro a presidente insistiu que um ajuste indolor é possível. Isso indica que ela pode desistir dos ajustes ao primeiro sinal de desconforto. Mas qualquer alívio temporário chegaria ao custo de uma fraqueza econômica crônica. Ou, se isso levar as agências de classificação de crédito a rebaixarem a nota brasileira, o resultado pode até ser uma crise aguda.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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