Aly Song/Reuters
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A economia da China está em recuperação, assim como a sua moeda

O reinminbi chegou ao seu patamar mais elevado em mais de dois anos e não dá sinais de parar, assinalando o predomínio chinês na indústria, o que dará a Biden espaço de manobra

Alexandra Stevenson, The New York Times

14 de janeiro de 2021 | 10h00

HONG KONG – A economia da China saiu com toda a força do abismo da pandemia do coronavírus, e sua moeda acompanhou a subida.

Nos últimos meses, a moeda, conhecida como yuan ou renminbi, cresceu em vigor contra o dólar americano e as outras principais moedas. Até segunda-feira, 11, o dólar valia 6,47 renminbi, em comparação com 7,16 no final de maio, e perto de seu patamar mais elevado em dois anos e meio.

Muitas moedas tendem a se valorizar ainda mais, mas Pequim manteve por muito tempo um rigoroso controle na moeda chinesa, de maneira que o salto do renminbi parece acentuar o seu poder.

A valorização da moeda chinesa tem implicações para as companhias que fabricam na China, aliás um grupo considerável. Isto poderá tornar os bens produzidos no país mais caros para os consumidores do mundo todo, embora o efeito pareça tranquilo até agora.

O impacto mais imediato talvez seja sentido em Washington, onde o presidente eleito Joe Biden está prestes a se mudar para a Casa Branca na próxima semana. Durante as administrações passadas, a moeda chinesa enfraquecida provocou a ira de Washington. A sua valorização talvez não chegue a aliviar o tenso relacionamento entre os dois países, mas poderá eliminar um problema em potencial para a administração de Biden.

Por que o renminbi está se valorizando?

A razão é simples: a China é um raro país com perspectivas otimistas na economia global, em grande parte devastada.

O coronavírus foi controlado em suas fronteiras, pelo menos por enquanto. Suas fábricas estão funcionando a todo vapor. E os consumidores globais – muitos deles fechados em suas casas ou impossibilitados de comprar passagens para viagens de aviões ou cruzeiro -  estão comprando todos os computadores fabricados pela China, os televisores, anéis de luz para selfies, cadeiras giratórias, implementos para jardinagem e todos os outros acessórios possíveis para os que estão trancados em casa. A parcela da China nas exportações mundiais cresceu para um recorde de 14,3% em setembro, segundo dados compilados pela Jefferies & Co.

Os investidores também estão ansiosos por acumular o seu dinheiro na China, ou pelo menos em investimentos vinculados ao renminbi. Com a economia mais forte, o banco central chinês dispõe de espaço para deixar os juros mais elevados do que na Europa e nos Estados Unidos, onde os bancos centrais estão mantendo os juros a taxas historicamente baixas a fim de respaldar o crescimento.

Neste momento, o renminbi parece particularmente forte em relação ao dólar, porque a moeda americana se enfraqueceu. Os investidores apostam que este ano a economia mundial se recuperará, por isso muitos começam a transferir o seu dinheiro de portos seguros denominados em dólares, como os títulos do Tesouro americano e em apostas mais arriscadas

Tudo isto fez com que o dinheiro inundasse a China, o que tende a fortalecer a moeda de um país.

O que faz Pequim diante disso?

Não muito, pelo menos por enquanto. O governo chinês há muito freia com mão firme o valor da sua moeda, em parte limitando a quantia que pode ser transferida através das fronteiras do país. Com estes instrumentos, os líderes chineses há anos mantêm o renminbi fraco em relação ao dólar, mesmo quando a moeda chinesa deveria ter se fortalecido. O renminbi fraco ajuda as fábricas da China a manterem seus preços baixos para vender os seus produtos no exterior.

Neste momento, parece que as fábricas chinesas não precisam deste tipo de ajuda. As exportações do país continuaram crescendo enquanto o renminbi se valorizava.

Muitas já estabelecem os preços de suas transações em dólares e não mais em renminbi, porque os Estados Unidos constituem uma parcela muito grande de sua base de consumidores, disse Shaun Roache, economista chefe para a Ásia-Pacífico da S&P Global, a empresa de ratings. O que significa que enquanto as margens de lucro das fábricas chinesas poderão sofrer um golpe, os clientes americanos não notarão grande diferença nos preços e continuarão comprando.

Uma moeda forte traz benefícios para a China, também. Os consumidores chineses podem comprar com maior facilidade produtos importados, ajudando Pequim a alimentar uma nova geração de clientes. Isto parece bom para os economistas e para os estrategistas que há muito pressionam a China para que abrande o controle férreo sobre o seu sistema financeiro.

O renminbi mais forte também poderia ajudar a China a tornar a sua moeda mais atraente para companhias e investidores que gostam de fazer negócios em dólares. A China há muito busca tornar a sua moeda mais global a fim de aumentar a sua influência global, embora o seu desejo de controlar rigorosamente o seu uso muitas vezes tenha ofuscado estas ambições.

“Esta é definitivamente uma janela de oportunidade para a China prosseguir a internacionalização do seu renminbi”, afirmou Becky Liu, diretora de macroestratégia da China no Standard Chartered Bank.

No entanto, se a moeda se fortalecer de maneira demasiado acelerada, a liderança chinesa  poderá facilmente intervir e acabar com a tendência.

Por que isto é favorável a Biden?

Os críticos de Pequim no Congresso e no governo há muito acusam o governo chinês de manipular injustamente como forma de prejudicar os fabricantes americanos.

Agora, enquanto um novo governo se prepara para entrar na Casa Branca, os especialistas buscam sinais de que Pequim possa abrandar a sua política. Pelo menos, um renminbi forte poderia facilitar as coisas para Biden, por enquanto.

Nem todo mundo é otimista, acreditando que um renminbi fortalecido baste para consertar as relações entre as duas maiores economias mundiais

“Será preciso muito mais do que a valorização da moeda para que as relações entre China e EUA voltem a se dar em um plano mais equilibrado, embora com certeza isto pudesse eliminar um dos potenciais pontos de atrito”, afirmou Eswar Prasad, um ex-diretor da Divisão da China no Fundo Monetário Internacional./ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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