André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

‘A economia do Brasil está indo ladeira abaixo’

Para senador e um dos maiores produtores de soja do mundo, o governo parece que não percebeu o tamanho da recessão

Entrevista com

Blairo Maggi, senador (PR-MT)

Marcelo de Moraes / BRASÍLIA, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2015 | 03h00

Um dos maiores produtores de soja do mundo, o senador Blairo Maggi (PR-MT) não esconde mais sua preocupação com o cenário econômico que o País enfrenta. Na sua visão, “o Brasil está indo ladeira abaixo” e 2015 é “um ano perdido”. Integrante da base de apoio do governo no Congresso, o senador acha que a situação seria mais favorável se a presidente Dilma Rousseff tivesse adotado uma postura diferente, descentralizando suas decisões e promovendo, por exemplo, um amplo enxugamento da máquina administrativa. 

Ele cobra, também, a redução da burocracia federal, o que, na sua opinião, atrapalha o crescimento do Brasil. “O governo é um paquiderme, um elefante que não se mexe”, critica. E, apesar de ter apoiado a campanha pela reeleição de Dilma e de ter visitado recentemente Cuba com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senador diz achar que hoje não se aliaria novamente a um candidato do PT à Presidência. “Acho que prefiro uma alternativa diferente, nova.” A seguir, os principais trechos da entrevista:


O sr. integra a base de apoio do governo e apoiou a reeleição da presidente Dilma Rousseff. Mas, nas últimas semanas, tem criticado publicamente o governo e previsto um cenário de grandes dificuldades na economia. Qual é a sua avaliação do quadro do País nesse momento?

Vivemos duas crises. Uma política e outra econômica. E elas são intimamente ligadas. Não existe possibilidade de você debelar uma sem resolver a outra. Vão ter de resolver as duas partes juntas. Na parte econômica, todo mundo sabe como é que está. O Brasil está indo ladeira abaixo. Parece que Brasília ainda não percebeu o tamanho da recessão que vem por aí. É muito grande o número de pessoas que ficarão sem emprego até o fim do ano.

O sr. prevê esse cenário?

Esse cenário já está acontecendo. A gente conversa com o empresário A, B, C ou D e todo mundo está com o pé no freio e se preparando para se desmobilizar. Deixaram de investir e estão cortando. Eu cito o meu exemplo. Na minha empresa, nos últimos anos, sempre tinha muitos projetos andando, construção de silos, pequenas centrais elétricas, um porto, um negócio ou outro, e, neste ano, eu não tenho nada. As coisas vão acontecendo, o crédito vai sumindo. O sujeito fala: bom, eu preciso também me resguardar para o futuro. Preciso fazer como os ursos fazem: guardar gordura para o inverno. Eu vejo por mim. Então, vamos ter aí pela frente um processo bem complicado.

Que atitude o sr. espera da presidente Dilma em relação a esse quadro?

Penso que a presidente precisa dar demonstrações. Precisa de mudança de postura. Em consonância com o que os movimentos de rua falam, e o que a gente ouve também, é que um dos sinais que se espera por parte do Executivo é que ele faça o corte na própria carne. E as medidas que o governo tomou até agora são de enxugamento de despesa. Mas essas despesas são, na verdade, despesas entre aspas, porque são enxugamento de investimentos. Então, você corta investimento e retrai mais ainda o processo de crescimento. 

O que o sr. propõe?

Temos 39 ministérios. É muito. Tem 14 deles que são secretarias. As pessoas só têm o status de ministro. Aí falam: ah, mas aí você vai economizar pouca coisa. Não é questão de quanto você economiza. É questão da mudança de postura. É o gesto. Temos aí milhares e milhares de cargos comissionados no País. Corta 20 mil, corta 30 mil. Tenho certeza que o País vai andar melhor.

Cortar esses funcionários não poderia pôr em risco a eficiência da máquina administrativa?

Nada. Vai é melhorar a eficiência. Essa burocracia toda vive exatamente para atrapalhar o processo. A gente não consegue andar direito nesse País. É tanta agência, tanto ministério, tanto departamento que o empresariado fica doido. Não sabe mais para que lado correr para fazer os investimentos dele. Não sabe nem a quem pedir mais. Quando você vai fazer, por exemplo, um pedido de porto, você não sabe mais a quem recorrer. Por último, agora, a Secretaria de Patrimônio da União acabou se envolvendo em tudo que é questão de rios, mares. Eles mesmo não sabem quem é que fala depois do outro. 

O sr. é senador pelo PR, integra a base de apoio do governo, tem boa relação com a presidente Dilma. Chegou a conversar com ela sobre esses problemas?

Já fiz isso pessoalmente. Outros líderes também o fazem. E não acontece nada. O governo é um paquiderme. Um elefante que não se mexe. É um negócio complicado demais.

O ministro Joaquim Levy chegou a falar numa palestra, e depois disse que foi mal interpretado, que a presidente tenta acertar, mas nem sempre da maneira mais fácil. O sr. acha que é isso o que acontece?

Acho que a máquina do governo é muito grande. Mas acho que a presidente tem boa intenção. Quando ela foca num assunto e você conversa sobre aquilo, ela entende do assunto. Mas tem aquela história que fala assim: está na mesa da presidente para decidir. Só que a mesa é muito grande. Da ponta da mesa até chegar nela é muito grande a distância. E aí o País vai se enrolando cada vez mais. Mas ela é uma pessoa bem intencionada. Só que, na centralização que está o governo e com uma falta de poder de decisão da parte dos ministros, de autonomia para que eles possam decidir dentro dos parâmetros que foram acertados, isso tem deixado a máquina pública mais lenta. Não se decide de medo.

O PIB de 2014 mostrou um crescimento de apenas 0,1%. Qual previsão o sr. faz para o crescimento deste ano?

O cenário será bem complicado. Mesmo com esse ajuste fiscal. Porque o governo terá de fazer o ajuste para depois começar a acelerar. O efeito que aconteceu até agora ocorreu por conta da macroeconomia. Tem uma outra parte que ainda vai ser prejudicial que é em função do próprio ajuste. Penso que 2015 é um ano perdido. E 2016 vão ter de trabalhar muito para fazer com que ele seja melhor do que esse.

A que o sr. atribui a queda de popularidade da presidente, logo depois de ser reeleita, e a intensidade das manifestações de rua contra o governo?

Acho que esse processo foi acelerado pela Operação Lava Jato. Porque coincidiu a questão da Lava Jato com, entre aspas, a quebra da Petrobrás, e com o aumento do combustível. O senso comum na rua diz: quebraram a Petrobrás e agora querem que a gente pague a conta. Nem se lembram que, nos últimos anos, o governo fez uma política beneficiando a sociedade e prejudicando a própria Petrobrás. Porque parte do buraco que a Petrobrás tem é pela falta de reajuste do combustível nos momentos em que o preço do petróleo foi muito para cima. Esse processo para mim foi acelerado e capitalizado pela Lava Jato. As pessoas pensam que o aumento do combustível se deu para cobrir o buraco da Petrobrás, a roubalheira que aconteceu lá.

Além de empresário, o sr. é político. O sr. vê nas suas bases insatisfação a ponto de ameaçar os partidos da base governista já nas eleições municipais de 2016?

Não tenho dúvida. Vai ser na veia. Acho que todos os candidatos que usarem o número 13 para disputarem as eleições municipais serão derrotados. A insatisfação é muito grande.

O sr. citou o número 13, que é o do PT. O sr. acha que está se esgotando um ciclo de poder do partido?

Acho que é o fim do ciclo sim, ou uma alternância. Sempre defendi muito na política que haja uma alternância no poder. Porque isso faz bem e é salutar para a democracia. Já estamos entrando no quarto mandato petista, já vamos para 16 anos de duração. E isso não é bom.

O sr. e seu partido fazem parte da base de apoio do governo e fizeram campanha pela reeleição da presidente. Hoje, manteria seu voto nela e apoiaria um candidato indicado pela presidente?

Acho que não. Acho que prefiro uma alternativa diferente, nova.

O sr. sempre foi próximo do ex-presidente Lula. Recentemente, acompanhou-o a Cuba numa visita. Tem conversado com ele sobre esses problemas?

Tenho conversado sim. A última vez foi numa reunião com a presença de vários senadores, na casa do senador Renan Calheiros, onde ele fazia um apelo pela governabilidade, para que não se criasse tanto stress como está acontecendo agora. Mas ele também reclama da postura do governo. Da forma como muitas coisas são colocadas e não são discutidas com a base de apoio. O PMDB reclama muito. E reclama por quê? Nessa reunião, foi feita seguinte comparação. O governo é um avião. Tem o comandante e o copiloto. Nós (PMDB) não somos nem o comandante, nem o copiloto. Somos o comissário de bordo. Olha, está aqui o saquinho de vomitar, está aqui a garrafa de água. Fecha a cortina. Aperte o cinto. Mas na hora em que dá uma carga lá na frente, quem tem de socorrer? É o comissário de bordo. O que o PMDB diz, e boa parte da base também gostaria disso, é que ele quer participar não só na aprovação das propostas. Mas na formulação.

O sr. acha que a base está alijada desse processo?

Ah, está. Todos os partidos da base estão. Tanto é que a reação que tem no Congresso hoje é de todo mundo. O PMDB verbaliza mais porque é o maior partido, tem as presidências da Câmara e do Senado. O presidente Lula tinha esse costume de conversar. Eu era governador quando ele era presidente. Lembro que, quando foi lançar o PAC 1, ele fez várias ligações para os governadores. Ligou para mim e mostrou: olha, vamos fazer isso, fazer aquilo. Ele já tinha decidido fazer. Mas compartilhava aquela ideia que estava nascendo. Falta isso hoje ao governo.

O sr. chegou a dizer no Senado que pensou em deixar o Brasil. É verdade?

Mas isso não sou só eu. Uma boa parte do empresariado brasileiro se pergunta muitas vezes: o que é que estou fazendo aqui? Pelo grau de dificuldade. Não é que não se goste. Não quero ir embora. Quando a gente fala isso, é um desabafo. Você vai nos Estados Unidos e vê como eles funcionam. Tudo é tão tranquilo, tão programado. Aqui é toda uma confusão.

O que o sr. considera confusão?

Agora mesmo, essa operação que tem aqui do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais). Tenho certeza de como essas coisas acontecem. Pega o fiscal. Ele interpreta a lei do jeito que ele quer. Mete uma multa no valor que ele quer. Bota a multa pesadíssima. O que resta para o empresariado? Ele tem de ir nas vias administrativas. Pode ser que o caso dessas empresas, e a gente não pode julgar antes, pode ter sido que alguém veio vender uma facilidade depois para resolver uma dificuldade que tinha sido criada lá atrás. 

O sr. falou do Carf, mas a Operação Lava Jato também envolve muitas empresas grandes com acusações de corrupção em contratos com a Petrobrás. Acha que existe uma cultura de corrupção no País envolvendo empresas e administrações públicas?

Na questão das obras, é um pouco diferente porque foi criado um clube, um cartel. Pelo que a gente lê, esse cartel era de oito ou nove empresas. Depois viraram dez, 15. E a medida que foi crescendo, foi fugindo de controle. 

O sr. acha que a reforma política, com a alteração do modelo de financiamento das campanhas, poderia mudar esse quadro?

Acho que sim. Eu resisti, durante algum tempo, à ideia de alguns colegas de Senado que acham que não deve ter dinheiro de empresas nas campanhas. Mas eu cedi a essa alternativa e hoje defendo que as empresas não devem participar. Precisam criar regras, obviamente, para ver como será feita a doação, até porque campanha sem dinheiro não se faz. Mas, à medida em que se proibir as empresas de colocar dinheiro, vai diminuir e muito a contribuição para as campanhas. Bom, se tiver menos dinheiro, vai se contratar menos e vai ter de se buscar soluções mais baratas. Se tiver pouco dinheiro, tenho certeza que as campanhas vão se adaptar a isso.

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