A economia e seus altos e baixos
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A economia e seus altos e baixos

O principal impacto da inflação mais baixa é a relativa recuperação do poder aquisitivo do trabalhador, porque a alta de preços deixou de esmerilhar o salário, como antes

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2017 | 05h00

Vai ou não vai?

No momento, o desempenho da economia é uma mistura de fruta boa com fruta estragada. Ainda assim, o balanção geral dá sinais de estar mais para positivo do que para negativo. 

A melhor notícia, a mesma que encabeça a lista (curta) há alguns meses, é o excelente desempenho das contas externas. Em março, o País ostentou o melhor resultado para meses de março desde 2005.

Também em março, a conta de Transações Correntes, que é o resumo de tudo quanto o Brasil faturou e gastou em moeda estrangeira (menos entrada e saída de capitais), veio positiva em US$ 1,4 bilhão, graças ao show que as exportações do agronegócio vêm proporcionando.

A importância desse desempenho das contas externas, que vai se estendendo abril adentro, fica mais clara quando se compara crise com crise. Uma das principais características das crises que aconteceram nos anos 80 foi a persistente deterioração desse lado da economia, com crônica fuga de dólares. Na atual crise, isso não acontece. Além das polpudas reservas de US$ 370 bilhões, que faltavam lá atrás, têm sobrado dólares no fluxo diário. As cotações da moeda estrangeira têm permanecido relativamente estáveis.

Outro fator altamente positivo é o mergulho da inflação. O IPCA-15, que é a inflação de 30 dias medida da metade de um mês até a metade do mês seguinte, já havia mostrado que, medida em 12 meses, a média dos preços continua em queda, apontando para 4% e alguma coisa em abril. Também em abril, o IGP-M despencou 1,10%, o menor valor para qualquer mês desde o início da série em 1989, e fechou uma evolução em 12 meses de 3,37% .

O principal impacto da inflação mais baixa é a relativa recuperação do poder aquisitivo do trabalhador, porque a alta de preços deixou de esmerilhar o salário, como antes. Foi também o que mostrou a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (Pnad) Contínua, divulgada sexta-feira pelo IBGE. A outra consequência positiva é a abertura de amplo espaço para a continuidade da derrubada dos juros.

O lado ruim aparece de várias maneiras. A primeira delas, também mostrada pela Pnad Contínua, foi o aprofundamento do desemprego. Atingiu o recorde de 14,2 milhões de trabalhadores (13,7% da força de trabalho) no trimestre terminado em março (veja o gráfico). Em apenas um ano, perdeu-se 1,7 milhão de postos de trabalho. Todos sabemos que o emprego é o último setor a se recuperar nas crises. Mas as indicações são de que não parou de piorar.

Também continuam ruins as contas públicas, a mãe dos atuais problemas, responsável direta pela disparada da dívida, pela recessão profunda e pelo desemprego. O governo central apontou quinta-feira o maior rombo para o primeiro trimestre desde 1997. Na Previdência Social, o buraco, apenas em março, foi de R$ 13,1 bilhões. E ainda há quem diga que o setor é superavitário.

Não é que não tenha havido progressos. Em 12 meses, o déficit total do setor público como proporção do PIB vai sendo contido e deverá fechar o ano nos R$ 139 bilhões, a meta oficial.

Na sexta-feira, o Banco Central divulgou o resultado de todas as contas públicas (incluídas as dos Estados e municípios). O déficit continua em torno dos 2,3% do PIB. Mas não dá para deixar de notar os estragos do arrocho fiscal, especialmente no investimento.

Faltam informações para avaliar melhor o comportamento do PIB. As primeiras indicações são levemente positivas. Indicam que a recessão está no fim. Mas, tirando o comportamento do agronegócio e da mineração, o resto do setor produtivo tende a se recuperar muito lentamente.

Têm, é claro, as mazelas da política e as dificuldades para aprovar as reformas, mas esse é outro assunto.

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