A economia em 2010

Com a economia desacelerando, a inflação em saltos que assustam, os juros em alta, o preço do petróleo disparando, a crise de crédito nos EUA e na Europa seguindo em frente e as contas externas piorando em ritmo acelerado, os prognósticos para a economia brasileira não têm mais o otimismo e o ânimo do ano passado. Na semana passada alguns indicadores divulgados decepcionaram, ligaram o alerta e levaram empresas, bancos, pesquisadores e economistas a mudarem suas previsões, nelas incorporando cenários mais sombrios para o futuro.Dois anos nos separam das próximas eleições majoritárias, mas já há quem aposte que o presidente Lula enfrentará, em 2010, um quadro eleitoral mais hostil para fazer seu sucessor, bem diferente do céu de brigadeiro que lhe garantiu o segundo mandato em 2006. Se em 2006 as denúncias de corrupção atrapalharam Lula e o PT, em 2010 o entrave maior poderá ser o desempenho da economia, o carro-chefe que tem sustentado sua popularidade em alta. De tão corriqueira neste governo, a corrupção virou mesmice e, infelizmente, tem anestesiado o eleitor, cada vez mais incrédulo nas lideranças políticas.Mas, se o ciclo de sorte que favoreceu Lula nos últimos cinco anos caminhar para o fim e o cenário econômico mudar, ele pode enfrentar dificuldades políticas, acreditam esses analistas. Nesse caso Lula vai apostar todas as fichas no Bolsa-Família, ampliar o cadastro de beneficiados e elevar o valor do benefício. Aliás, o que tem defendido com insistência. Só que o sucesso eleitoral do Bolsa-Família depende do êxito em controlar a inflação, mantê-la bem baixinha, do contrário o dinheiro do benefício será devorado pelos preços.Mas será que procedem os prognósticos desses analistas? O que na economia hoje arrisca atrapalhar o futuro? Por partes: Inflação - Com o IPCA (que mede a meta de inflação) chegando a 2,88% até maio e 5,58% nos últimos 12 meses, há quem acredite que pode romper o teto da meta (6,5%) em dezembro. O que não é difícil se for confirmada a previsão do ministro Guido Mantega de que o índice só começa a cair no final do ano. Na verdade, a inflação já furou o cerco dos alimentos e se espalha, alcançando fertilizantes, petroquímicos, embalagens e outros produtos influenciados ou não pela disparada no preço do petróleo. Os combustíveis, que ficaram dois anos congelados até o mês passado, terão de ser reajustados, se não neste ano, no início de 2009. E a população mais pobre - base eleitoral de Lula - é quem mais sofre: para ela a inflação já chegou a 3,32% até maio, acima dos 2,88% do IPCA. Se, como diz, Lula está realmente preocupado com a alta de preços, aproveite o aumento da arrecadação de impostos e eleve o superávit primário para 5%, como sugeriu o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Juros - O Banco Central (BC) elevou a taxa Selic para 12,25% na semana passada, surpreendeu-se com o salto da inflação e vai repetir a dose na próxima reunião do Copom. Se não for suficiente para fazer a inflação recuar, a taxa será elevada sucessivamente. Com isso a dívida pública cresce, a demanda se retrai e compromete o crescimento da economia. PIB - As previsões foram revistas para baixo neste item. Divulgada na terça-feira, a taxa de crescimento do PIB do primeiro trimestre, de 5,8%, foi fortemente influenciada pela expansão de 4,5% do consumo dos governos, na comparação com o trimestre anterior. O consumo das famílias avançou apenas 0,3%, o que mostra desaceleração da demanda privada, que pode piorar com juros mais altos. Contas externas - Embora o BC afirme que "o balanço de pagamentos não apresenta risco iminente no cenário inflacionário", é preocupante a rapidez do agravamento do déficit externo. Segundo o IBGE, se no primeiro trimestre de 2007 o País precisava de R$ 915 milhões para financiar seu déficit, em 2008 a cifra saltou para R$ 21 bilhões. Com o real valorizado a situação tende a piorar. Crise externa - Na ata da reunião do Copom, o BC mostra pessimismo e sugere que a crise externa está longe do fim: "a economia americana entrou em período de estagnação" e "persistem as dúvidas sobre o sistema bancário nos EUA e na Europa". Até agora o Brasil conseguiu passar bem pela crise externa. Até quando? Sucessão no BC - Por último há o complicador da substituição de Henrique Meirelles no BC, com o PT querendo indicar alguém sem nenhuma experiência para enfrentar as raposas do mercado. *Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-RJ. E-mail: sucaldas@terra.com.br

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