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José Roberto Mendonça de Barros
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A economia está parando

Nossa economia está parando. Tudo indica que vamos repetir a trajetória do ano passado, quando projeções mais otimistas deram lugar a uma forte decepção.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS,

07 de julho de 2013 | 02h05

Como todos sabem, a expectativa de um primeiro trimestre forte foi frustrada por um crescimento de apenas 0,6% em relação ao PIB do último trimestre de 2012. Alguns, mais otimistas, rolaram suas projeções de recuperação para o segundo trimestre. Entretanto, tudo indica que o número a ser divulgado será pouco maior do que o primeiro trimestre, talvez algo como 0,8%, o que levaria a uma projeção para o ano de apenas 2,1% como temos na MB. Os números do mercado estão convergindo para a mesma magnitude.

Na nossa percepção, e como já coloquei em colunas anteriores, a forte aceleração da inflação de alimentos é que começou a alterar a trajetória da economia. Com os preços da comida subindo a uma taxa anual entre 14% e 19%, colocou-se uma pressão forte sobre os orçamentos da imensa maioria das famílias brasileiras, o que acabou por diminuir o espaço para outras compras, reduzindo o consumo. Todos os dados do varejo disponíveis até agora mostram uma forte desaceleração nas vendas, que deve continuar, uma vez que o índice de confiança do consumidor, elaborado pela FGV, apresentou em junho uma variação anual negativa da ordem de 10%.

Ao mesmo tempo, a mesma pressão inflacionária levou o Banco Central a iniciar uma elevação das taxas de juros que, na nossa avaliação, deve ir para a faixa de 9,5% até o final do ano. Naturalmente, a alta de juros desestimula adicionalmente todos os componentes da demanda interna.

Também o setor externo tem mostrado uma forte piora no saldo comercial, com consequente ampliação do déficit em conta corrente. Esta situação, aliada à valorização do dólar lá fora, resultou numa depreciação da nossa moeda que, até o momento em que esta coluna está sendo escrita, andava na casa de R$ 2,25 por dólar.

Os movimentos de juros e câmbio resultam numa dupla pressão sobre a atividade. A brusca elevação dos juros de mercado resultou numa perda de capital para muitos poupadores e numa indução a uma menor expansão de crédito pelo sistema bancário, uma vez que os riscos se elevaram bastante. Neste momento, acredito que a capacidade dos bancos públicos de continuarem a tentar compensar a cautela do setor privado está limitada pela evidente pressão sobre seus balanços.

Ao mesmo tempo, a desvalorização do real piorou os balanços das empresas que tenham algum passivo externo. Também por aí, o risco de crédito se eleva, reforçando a observação acima. A desvalorização cambial também pressiona a inflação pelo repasse aos preços domésticos dos maiores custos de importação. Por exemplo, o índice de preços de commodities em reais calculados pelo Banco Central (ICB) elevou-se 5,3% em junho.

Estes dados sugerem que a atividade deverá continuar enfraquecendo. Por exemplo, o indicador de estoques calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) está subindo há quatro meses; o estoque médio de automóveis na rede de concessionárias já é de 53 dias, bem maior do que os 25/26 dias considerados normais. Adicionalmente, o número de recuperações judiciais calculado pela Serasa já é o maior desde 2007.

Sobre este pano de fundo, grandes acontecimentos políticos e sociais começaram a ocorrer, elevando as incertezas.

Embora ainda não esteja pronta uma análise mais acabada sobre esses eventos, creio que podemos listar algumas consequências:

- O partido no poder não tem mais o monopólio das ruas.

- Existe uma insatisfação forte e difusa em parte significativa da população.

- A tranquilidade da reeleição evaporou-se e a sucessão transformou-se numa história ainda por ser escrita.

- A resposta do governo tem sido desorganizada e bastante inconsistente, na política e na economia.

Na economia, ao lado de um discurso de restrição fiscal, continuamos vendo a continuidade de "velhos" projetos, como a entrega de R$ 15 bilhões para a Valec, parte do esforço de vender o projeto do trem-bala. Ao mesmo tempo, decide-se pela emissão de R$ 23 bilhões em títulos para a Caixa Econômica e o BNDES, para atingir vários fins, incluindo o de pagamento de dividendos que elevem o superávit primário do governo federal. A propósito, em várias entrevistas, o sr. Secretário do Tesouro Nacional insiste que todo batalhão está marchando errado e que apenas o seu passo é o correto. Incrível!

Este padrão de resposta sugere que a incerteza vai continuar elevada, que investimentos serão postergados, que os leilões de concessão terão menos brilho (talvez à exceção do petróleo) e que o crescimento do ano será ainda menor que o atualmente projetado. A volatilidade se manterá elevada e 2014 promete mais do mesmo.

P.S.: Começou a ser escrito na semana que passou o último capítulo da história do Grupo X. Qualquer que seja seu desfecho, é certo que assistimos ao fim de uma era, a dos grandes campeões nacionais. Não apenas, mas também por isto, terminou a era do "nunca antes nesse país" e a do "momento mágico". A realidade que se desdobra para nós é bem mais árdua.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS 

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