Aly Song|Reuters
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A economia mundial sem a China

O mundo pode ficar em sérias dificuldades sem o crescimento chinês no momento em que tenta se recuperar de grave crise

Stephen Roach*, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2016 | 05h00

A economia chinesa estaria prestes a implodir? Com uma dívida crescente e bolhas imobiliárias, com suas empresas estatais zumbis e bancos em apuros, a China cada vez mais é vista como o próximo desastre num mundo propenso a crises.

Estou convencido de que tais temores são exagerados e que a China tem a estratégia, os recursos e o compromisso no sentido de realizar uma formidável transformação estrutural em uma sociedade de consumo baseada em serviços, ao mesmo tempo evitando os ameaçadores ventos contrários cíclicos. Mas admito que esta é opinião minoritária.

Por exemplo, o secretário do Tesouro americano, Jacob J. Lew, continua a ter uma visão, desconcertante, de que os Estados Unidos “não podem ser o único motor da economia mundial”. E, na verdade, não são. Este ano, a economia chinesa está em vias de contribuir acima de quatro vezes mais do que a dos EUA para o crescimento global. Mas talvez Lew já esteja supondo o pior para a China quando faz sua avaliação.

E se os que duvidam da China estiverem certos? E se a economia chinesa realmente desmoronar, sua taxa de crescimento despencar para um dígito, ou ficar até negativa, como seria o caso de muitas economias em crise? Naturalmente, a China sofreria, mas também afetaria a já abalada economia global. Mas com toda essa preocupação no tocante à economia chinesa, vale a pena levar em consideração essa hipótese.

Em primeiro lugar, sem a China a economia mundial já estaria em recessão. A taxa de crescimento do país este ano deve alcançar 6,7% – índice mais alto do que muitos analistas esperavam. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia chinesa contribui com 17,3% para o Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Assim, um aumento de 6,7% do PIB real chinês se traduz em 1,2 ponto porcentual no crescimento mundial. Sem a China, essa contribuição teria de ser subtraída da estimativa, já revisada para baixo, de 3,1% feita pelo FMI para o PIB mundial de 2016, o que arrastaria esse crescimento para 1,9% – bem abaixo dos 2,5%, taxa limite comumente associada às recessões globais.

Claro que esse seria apenas o efeito direto de um mundo sem a China. Mas há também o elo com outras grandes economias. As chamadas economias baseadas em seus recursos naturais – como Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Rússia e Brasil – seriam fortemente atingidas. A China, cujo gigantesco crescimento demanda muita matéria-prima transformou essas economias, que juntas somam 9% do PIB mundial. Embora todas aleguem ter estruturas econômicas diversificadas que não dependem totalmente da demanda chinesa, os mercados monetários dizem o contrário: quando as expectativas de crescimento da China são revistas – para cima ou para baixo –, suas taxas de câmbio mudam paralelamente.

Cenário. O FMI projeta atualmente que essas cinco economias deverão sofrer contração a uma taxa combinada de 0,7% em 2016, refletindo as recessões na Rússia e no Brasil e um modesto crescimento nos outros três países. Desnecessário dizer que, na hipótese de uma implosão da economia chinesa, essa estimativa deve ser reduzida de modo significativo.

O mesmo ocorreria com os parceiros comerciais asiáticos da China – que dependem de exportações, com o mercado chinês sendo sua maior fonte de demanda externa. Não são somente as economias em desenvolvimento da Ásia, como Indonésia, Filipinas, e Tailândia, mas também economias mais importantes e desenvolvidas da região, caso de Japão, Coreia e Taiwan. No conjunto, essas economias asiáticas dependentes da China formam mais 11% do PIB mundial. Uma implosão da China facilmente reduzirá em pelo menos um ponto porcentual sua taxa de crescimento combinada.

Os EUA também constituem um bom exemplo, pois a China é o terceiro maior mercado exportador americano e o que mais cresce. No caso de uma implosão da economia chinesa, essa demanda cairia, reduzindo em cerca de 0,2 a 0,3 ponto porcentual o crescimento econômico já medíocre dos EUA, em torno de 1,6% este ano.

Finalmente, consideremos a Europa. O crescimento na Alemanha, o motor de uma economia continental que, do contrário estaria decrépita, continua muito dependente das exportações, que se deve cada vez mais à importância da China – hoje o terceiro maior mercado exportador da Alemanha, depois de União Europeia e EUA. No caso de uma implosão da China, o crescimento econômico da Alemanha cairá de modo significativo, arrastando todo o restante da Europa.

O interessante é que em sua perspectiva econômica mundial de outubro, recém-divulgada, o FMI consagra um capítulo inteiro ao que chama de análise dos “spillovers” – ou seja, avaliação dos impactos globais de uma desaceleração da China. Coerente com os argumentos acima, o FMI se concentra nos vínculos entre os exportadores de commodities, os exportadores asiáticos e o que chama de “economias avançadas sistêmicas” (Alemanha, Japão e EUA), que estariam mais expostas a uma recessão chinesa. Pelos seus cálculos, o impacto sobre a Ásia será o mais grave, seguido de perto pelas economias exportadoras de matéria-prima; as três economias desenvolvidas sentiriam metade do impacto sofrido pelos parceiros comerciais asiáticos, menos o Japão.

A pesquisa do FMI sugere que as repercussões globais de uma desaceleração da China ampliaria em 25% os efeitos diretos previstos na nossa hipótese da redução do crescimento do país. Isso significa que, se o crescimento econômico chinês evaporar, de acordo com nossa hipótese, a soma dos efeitos diretos (1,2 ponto do crescimento global, a repercussão indireta (mais 0,3 ponto porcentual) basicamente reduzirá à metade a atual estimativa de crescimento global em 2016, de 3,1% para 1,6%. Embora essa queda esteja bem longe da contração global recorde de 0,1% em 2009, não será muito diferente de duas outras profundas recessões mundiais, em 1975 (crescimento de 1%) e 1982 (0,7%).

Posso ser o único otimista com relação à China. Embora não esteja tão animado com as perspectivas da economia global, acho que o mundo enfrenta problemas muito mais importantes do que um possível grande colapso da China. Mas serei o primeiro a admitir que uma economia mundial pós-crise sem um crescimento chinês estaria em sérias dificuldades. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Stephen S. Roach é membro da Universidade de Yale e ex-presidente do conselho da Morgan Stanley Ásia

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