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''A economia não está descendo a ladeira''

Roberto Setubal: presidente do Itaú-Unibanco; presidente do maior banco brasileiro afirma que o País evitará a recessão em 2009 e vê indícios de que o pior já passou

Entrevista com

Leandro Modé e Ricardo Grinbaum, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Em meio ao terremoto que sacode o mercado financeiro mundial, o sistema bancário brasileiro tem exibido uma solidez que, segundo analistas, evitou que os efeitos da crise aqui fossem ainda mais drásticos. Essa situação privilegiada ante os concorrentes internacionais fez com que bancos brasileiros fossem alvo de rumores sobre potenciais aquisições em outros países nas últimas semanas. Nesse quesito, destaca-se o Itaú-Unibanco. Fruto da maior fusão bancária da história brasileira, a instituição é de longe a primeira do ranking no País, com R$ 632 bilhões em ativos. À frente do conglomerado está Roberto Setubal, que desmente negociações para expansão além das fronteiras nacionais. "A prioridade, neste momento, é fazer a integração do banco", disse em entrevista ao Estado. Cauteloso, ele não se arrisca a dizer que o pior da crise passou. Em compensação, diz não acreditar em recessão no Brasil este ano. "Vejo crescimento próximo de zero, que já é positivo dada a queda do último trimestre do ano passado." O governo prepara um pacote para reduzir o spread bancário. De quem é a responsabilidade pelos spreads altos?Essa agenda tem de ser pensada tecnicamente. O spread é alto por várias razões. Temos a taxa de juros, os compulsórios e a inadimplência mais elevados do mundo, além de altos impostos na intermediação financeira. Evidentemente, a decorrência disso tudo é termos o maior spread do mundo. Devemos, portanto, atacar cada um desses pontos. Há uma avaliação no governo de que a competição bancária é baixa no País. Caixa e Banco do Brasil têm sido forçados a reduzir os juros para, com isso, induzir o restante do mercado a fazer o mesmo. Essa é uma crítica injusta com o sistema financeiro. Se analisarmos os vários setores da economia, diria que o setor bancário é um dos que mais têm competição, se não for aquele onde a competição é maior. De qualquer forma, é possível ampliá-la criando condições mais adequadas, como mais transparência. O governo tem parcela significativa do crédito no Brasil, se levarmos em conta as instituições que controla. Justamente por isso, conhece as dificuldades. Portanto, reduzir o spread não é questão de vontade. Há uma questão técnica que precisa ser equacionada. Há essa disposição no governo de fazer Caixa e BB reduzirem o juro. Entendo a intenção do governo de manter uma oferta de crédito grande para reativar a economia. De outro lado, tenho certeza de que ninguém quer criar uma crise bancária, não vai fazer loucura. Muito menos os bancos privados. Em primeiro lugar, temos de zelar pelos recursos dos depositantes. Não devemos, de forma nenhuma, criar uma situação que fragilize essa condição. O que pensa sobre a remuneração da poupança?No Brasil, temos uma distorção que já vem de mais de 20 anos: a caderneta de poupança é isenta de impostos e tem um nível de juros básicos relativamente elevados para a economia mundial. Se queremos juros mais baixos, de alguma forma teremos de rever a remuneração da poupança. Há várias possibilidades. Temos de ficar muito atentos para evitar questionamentos jurídicos sobre a mudança. A forma que me parece mais adequada para enfrentar o problema neste primeiro momento seria introduzir o Imposto de Renda nas aplicações de poupança acima de um determinado valor, digamos R$ 100 mil, R$ 200 mil. Se pegarmos esse valor, provavelmente 99% dos poupadores continuarão isentos. Sempre se disse que, quando os juros caíssem no Brasil, os bancos iam ter problemas. Temos juros elevados há muitos anos. Sempre disse que, como em qualquer lugar do mundo, os bancos sobrevivem com qualquer nível de juros. O que muda é a dinâmica de resultados, a formação das receitas. Os bancos têm de ser flexíveis para se adaptar a isso. Vejo o Itaú-Unibanco preparado para juros menores. Qual o cenário do juro para o fim do ano?Pode chegar a 9% ou menos. No futuro, teremos de sentir como a economia reage, mas creio que está madura para um juro abaixo de 10%. Vocês veem recessão no Brasil?Não. Vejo neste ano um crescimento próximo de zero, que já é um número positivo dada a queda do último trimestre do ano passado. Podemos ter crescimento neste primeiro trimestre, o que seria uma surpresa positiva. Alguns indicadores estão reagindo bem, como o consumo de energia. A economia dá sinais de que encontrou um piso. Vários indicadores mostram que a economia não está descendo a ladeira. O pior já passou?É possível que sim. Não dá para fazer essa afirmação, mas já há indícios de que talvez tenhamos atingido o fundo do poço. E lá fora?É uma situação bem diferente. A crise é muito grave. O que ocorreu no sistema financeiro dos países desenvolvidos foi de uma dimensão inesperada. Levará três, quatro anos para que o PIB de EUA, Europa e Japão retorne aos níveis anteriores. Independente disso, a economia brasileira pode retomar o crescimento em 2010 - 3% é um nível bastante razoável. O Citigroup e o Bank of America (BofA) vão sobreviver?Sobreviverão. Claramente, o governo americano está dando todo apoio para que sobrevivam. Pela dimensão que ambos têm no mundo, é importante que esse apoio continue sendo dado. Como vê a possibilidade de estatização desses bancos?O fato de o governo americano ter colocado capital dentro desses bancos não significa que a intenção seja administrá-los, que são instituições muito complexas. A intenção do governo é reequilibrar o sistema financeiro e se livrar desse problema. É muito mais apagar um incêndio. Isso resolve o problema? Há quem diga que pode virar um novo Japão (que demorou anos para resolver problemas e, por isso, enfrentou longa estagnação econômica). O governo caminha para um caminho e alguns analistas apontam para outros. Vimos, nesta semana, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) injetar mais recursos na economia. Finalmente, estamos vendo propostas e soluções à altura do problema. Podemos estar começando a ver o início do fim da crise financeira, o que significa que o governo conseguirá estabilizar o sistema financeiro. Com isso, podemos ter a expectativa de ver a retomada do crescimento econômico daqui a alguns anos. Como o sr. avalia uma estatização temporária dos bancos?Sou pragmático. Não defendo nem ataco. Se essa for a melhor solução, tem de fazer o que é melhor para o país.Se o Itaú-Unibanco operasse nos EUA, faria as mesmas operações que causaram esses problemas?Seria muito fácil dizer não e eu sairia bem na fotografia. Dadas as condições do mercado, faríamos alguma coisa. Provavelmente não na intensidade que alguns bancos fizeram. Certamente não teríamos sido agressivos no mercado. Mas, quando se está inserido em um mercado, você não vê os riscos. Então, é muito difícil dizer que sairíamos incólumes. Não é razoável dizer isso. É difícil ver o concorrente ganhar dinheiro com aquilo e não seguir o mesmo caminho.Não é só isso. Além das perdas diretas pelo envolvimento na questão do subprime, há as perdas indiretas. Todos os bancos perderam. Nenhum banco tem anunciado crescimento dos resultados. O Itaú-Unibanco seria menos atingido. Em que momento vocês perceberam que havia uma exuberância irracional lá fora?Olhando hoje, o mercado em geral, e o próprio Fed, percebia que havia algo errado. O Alan Greenspan (ex-presidente do Fed) falou alguns anos atrás em exuberância irracional. Mais recentemente, apontou para o "conundrum", um mistério relacionado aos spreads de longo prazo muito baixos. Tudo isso sinalizava que havia problemas. Ninguém sabia exatamente onde, mas havia indícios de que algo estava fora do lugar. Quando começaram a aparecer os problemas com mais gravidade, em 2007, as pessoas foram se dando conta do tamanho. A dimensão que tomou foi totalmente inesperada. Disse-se que o financiamento de veículos foi o subprime brasileiro. Não tem nada parecido aqui. No Brasil, vamos assistir a um aumento da inadimplência, mas nada como nos EUA. Estamos mais acostumados a flutuações. Vamos ver um ciclo novo de crescimento da inadimplência. Mas os bancos estão preparados para absorver essa onda. Até porque, no Brasil, não vejo a economia entrando em recessão profunda. Há um expressivo aumento da inadimplência entre as empresas pequenas e médias, atribuído, em grande medida, à falta de crédito. Não falta dinheiro. A demanda de crédito sobe quando o PIB está crescendo. Quando cai, ocorre o oposto. Além disso, com mais incerteza, os bancos ficam mais seletivos na concessão de crédito. De qualquer modo, quando olhamos o volume de crédito na economia, há um aumento. O próprio Itaú, no último trimestre (de 2008), aumentou em mais de 6% o volume de crédito ofertado. Neste primeiro trimestre, cresceram nossos empréstimos para pequenas empresas. E é uma época, sazonalmente, mais fraca. A ideia do governo de comprar participação em bancos pequenos e médios preocupa?A preocupação do governo é ter a possibilidade, caso algum banco tenha dificuldades insuperáveis, de absorvê-lo por um de seus bancos. O Itaú-Unibanco já é o maior banco do País. Qual a próxima meta?Integrar os dois bancos. E as especulações sobre o mexicano Banamex?Nossa prioridade, no momento, é fazer a integração do banco. É um mega esforço integrar duas empresas desse tamanho. Estamos muito focados. Essa etapa vem antes de qualquer outra coisa. Não fizemos a fusão para ter o banco maior, mas o mais forte, com mais capacidade até para fazer aquisições fora do Brasil. Não tem um monte de bancos baratos no mercado hoje?Banco barato, normalmente, é banco ruim. Queremos banco bom. Não vejo a possibilidade de tomarmos risco para comprar algo incerto. A crise é longa e as oportunidades não vão desaparecer rapidamente. O Itaú-Unibanco tem cerca de 100 mil funcionários. Muitos estão aflitos com a possibilidade de demissões. O que o sr. diz a eles?Não vamos fechar agências, vamos até continuar expandindo os negócios em algumas áreas. Pelo natural turnover (rotatividade) da organização, vamos ter condições de fazer as reduções inevitáveis de uma forma natural, no tempo e sem pressão. Evidentemente, isso vai exigir um esforço interno de transferência de funcionários de uma área para a outra, retreinamentos. Estamos dispostos a fazer isso. Quem é:Roberto SetubalÉ presidente executivo do Itaú-Unibanco, o maior banco brasileiro por ativos É formado em Engenharia pela Universidade de São Paulo e tem pós-graduação pela Universidade StanfordPresidiu o Banco Itaú entre 1994 e novembro passado. Foi treinado durante anos para exercer a função

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