Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

‘A economia prateada já move R$ 1,6 tri por ano’, diz diretor superintendente do Sebrae-SP

Em entrevista ao 'Estadão', Wilson Poit fala sobre o potencial econômico do grupo de pessoas acima de 60 anos

Entrevista com

Wilson Poit, diretor superintendente do Sebrae-SP

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Apenas entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de brasileiros ingressaram no grupo de pessoas com 60 anos ou mais. A expectativa é que esse crescimento seja ainda mais acelerado nos próximos anos com o maior envelhecimento da população brasileira. Hoje esse grupo soma mais de 37 milhões de pessoas. Mas, apesar do crescimento, essa população não tem sido atendida de forma satisfatória, diz o diretor superintendente do Sebrae-SP, Wilson Poit.

Hoje, afirma ele, a chamada “economia prateada” já movimenta R$ 1,6 trilhão por ano. Mas o valor poderia ser muito maior. “Temos pesquisas que mostram que esse grupo de pessoas está descontente com os produtos e serviços destinados a elas.” No caso da moda, exemplifica ele, ou as roupas são jovens demais ou velhas demais. Não há um meio termo. “Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Veja a seguir, trechos da entrevista:

O que é economia prateada?

Estamos falando de um mercado muito grande que envolve a população com mais de 60 anos de idade e não quer mais ser chamada de idosa. Trata-se da longevidade ativa, um mercado enorme e que não é muito explorado no Brasil, apesar do envelhecimento da população. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que desde a década de 50 essa faixa etária vem crescendo de forma importante (só entre 2012 e 2021, 12,2 milhões de pessoas entraram para esse grupo). E esse movimento vai continuar em alta. Aquela pirâmide que, nos meus tempos, mostrava um país jovem mudou. Agora é um país que está envelhecendo com pessoas que vão viver mais tempo. A longevidade não é só ter mais saúde e mais atividade. Esse público também consome produtos e serviços ligados à saúde e outras coisas.

Esse público não está sendo atendido?

Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que essas pessoas – de um modo geral – têm poder aquisitivo um pouco maior. Pessoas com mais de 65 anos são 17% da fatia dos 5% mais ricos. E apenas 4% da grande fatia de 40% mais pobres. Temos estatísticas aqui no Sebrae que mostram que os mais velhos não estão satisfeitos com o mercado. Em São Paulo, vemos grandes shoppings para gatos, cachorros e pets em geral. Mas não há nenhum shopping center voltado para a economia prateada. Uma estatística da Hype60+ mostra que de cada 10 pessoas da economia prateada 6 estão descontentes com o mercado de moda. Ou elas acham as roupas jovens demais ou velha demais. Esse é um tipo de cliente que consome bem, tem autonomia de decisão e procura qualidade. Estamos falando de consumidores maduros, provedores de famílias, que definem um tipo de consumo e não gostam de ser tratados nem como millenials nem como idosos. É um mercado enorme para novos negócios e também para empresas já constituídas pensarem em produtos voltados para eles.

Não há iniciativa das empresas para atender esse mercado?

No Japão, onde tem muita gente com 100 anos ou perto de 100 anos, esse mercado é muito desenvolvido. Um exemplo prático é que há supermercados só para a economia prateada, com corredores mais largos e carrinhos com lupa. Precisamos de soluções para esses clientes. É preciso olhar as limitações desse público. Outra pesquisa da FGV mostra que 70% das empresas acham que os idosos não acompanham as transformações tecnológicas. No entanto, 90% desse pessoal tem smartphone e estão nas redes sociais. É uma oportunidade a ser explorada.

Qual o primeiro passo?

Acredito que é preciso pensar em programas de lazer, baseados em culturas, viagens e serviços para qualidade de vida. Esse pessoal é muito mais exigente quanto ao conforto na hora de comer, na hora de dormir, etc. São pontos de atenção para o setor empresarial, como alimentação fora de casa e turismo. Além das atividades físicas, é preciso pensar em serviços de acolhimento. Há o mercado de home care. Alguns fundos de investimentos compraram vários edifícios de flats em São Paulo para esse público específico, mas são poucas vagas. Hoje há pessoas que querem colocar o pai, a mãe ou querem morar num lugar com acesso à academia, tecnologia e fisioterapia, mas não conseguem vagas. Estão lotados. Acredito que também há espaço para negócios ligados à educação tecnológica desse grupo de pessoas. Às vezes eles têm um pouco mais de dificuldade para entender os aplicativos e acabam recorrendo aos netos. De novo, países como Japão e alguns da Europa são exemplos porque eles têm uma cultura voltada para esse público.

No Brasil, estamos distantes disso?

Notamos que as empresas no Brasil ainda têm uma cultura muito baseada no culto à juventude, seja no comercial de TV, na propaganda ou nas mídias sociais. Então o primeiro passo para qualquer empresa é olhar para esse público e descobrir o que pode oferecer para ele. Perguntar para essas pessoas, fazer pesquisa ou procurar pesquisas que estão sendo feitas sobre o assunto. É uma parcela da população que tem uma forte vontade de consumir. Guardou dinheiro e está aposentado. São pessoas que conquistaram coisas e querem desfrutar mais o momento. Lógico que o Brasil é um país de muita desigualdade. Estamos falando aqui daqueles que têm acesso e não são bem atendidos.

Além do Japão, que outros locais são exemplo na economia prateada?

Japão, França, uma pequena região da Costa Rica e Califórnia. Nesses países as empresas já têm um olhar mais profundo e percebem como atender as pessoas dessa faixa etária. Aqui temos um mercado que não conseguiu atender plenamente esse público e tem uma dificuldade em entender quem são essas pessoas e onde estão. São lacunas de mercado que podem virar oportunidades de negócios para satisfazer esse público.

O sr. disse que as empresas têm um culto à juventude...

Isso é bom também. Se vamos viver mais, os jovens têm de cuidar mais da saúde. Todos querem viver uma longevidade ativa. Mas é uma oportunidade a ser ocupada. Acabou aquela imagem de que esse público da economia prateada quer ficar em casa, aposentada e com pouca atividade. Isso está ultrapassado. Cada vez mais esse pessoal quer consumir produtos e serviços relacionados com os tempos atuais e querem se atualizar. Essas pessoas têm uma conexão com tecnologia, usam celular, computador e querem sair, querem ter uma vida social, querem ter lugar de encontro, querem se vestir bem. Podem consumir uma infinidade de produtos e serviços. Aqui no Sebrae estamos bem atentos a esse mercado. Temos vários cursos disponíveis e gratuitos para os 60+ que queiram virar empreendedores. Podem trabalhar em casa.

Qual o potencial desse mercado?

A economia prateada já movimenta no Brasil R$ 1,6 trilhão por ano. Esse mercado, por exemplo, está se duplicando. O Brasil está ficando mais velho. É um assunto que temos acompanhado bastante. Esse valor poderia ser muito maior porque há pessoas descontentes com os produtos oferecidos. Na retomada econômica, pós-covid, as empresas precisam e podem faturar mais.

Alguma empresa no Brasil já despertou para isso?

Já vi uma ou outra. Mas há até dificuldade para encontrar modelos para fazer fotos e propaganda. Tem gente muito bem de forma física. Muita gente correndo maratona.

Tudo o que sabemos sobre:
economiaSebrae

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.