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José Roberto Mendonça de Barros
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A economia teima em melhorar

O crescimento de 1% do PIB foi muito superior ao que os mais céticos esperavam

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 05h00

O caso Joesley Batista enfraqueceu bastante o governo Michel Temer. A necessidade de derrubar a denúncia de Rodrigo Janot gastou boa parte de seu capital político e deu proeminência ao chamado Centrão. Desde então, cenas cada vez mais explícitas de gangsterismo político vieram para as primeiras páginas dos jornais. Tudo indica que teremos ainda outra denúncia contra o presidente, de sorte que a fragilidade deverá continuar. 

Tem gente esfregando as mãos de contentamento. 

O enfraquecimento político do governo teve grande impacto na trajetória de recuperação da economia brasileira, que vinha firme até o início de maio. O crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre, divulgado no começo de junho, foi muito superior ao que os mais céticos esperavam, demonstrando que teríamos dias melhores neste ano.

Três foram os caminhos pelos quais a economia foi afetada: em primeiro lugar, as expectativas deixaram de melhorar (embora não tenham afundado), tanto de famílias como de empresas, como mostram claramente as séries coletadas por FGV, CNI e outras instituições. Como resultado, algumas despesas de consumo e certos projetos de investimento foram postergados.

Entretanto, a pior implicação do enfraquecimento do governo apareceu na inviabilização da meta fiscal de R$ 139 bilhões, elevada na semana passada para R$ 159 bilhões. Isso porque o relator do projeto do Refis, que está na Câmara dos Deputados desde o início do ano, por duas vezes desfigurou totalmente a proposta em benefício dos devedores de tributos (o que inclui, naturalmente, ele mesmo!!), gerando um impasse. Como consequência, ainda que um projeto construtivo venha a ser aprovado, não dará mais tempo de haver entrada de recursos neste ano. Na mesma direção, ocorreu o caso do Funrural. O Supremo Tribunal Federal decidiu que o encargo é constitucional e que o recolhimento dos últimos anos terá de ser feito. Na regulamentação dessa decisão, o enfraquecimento do Executivo frente à bancada ruralista levou a uma lei que também acabou por reduzir significativamente a receita esperada. Somente nesses dois itens, recursos de quase R$ 20 bilhões não vão se materializar. 

Completando a frustração de receita, além dos efeitos recessivos e regulatórios, houve uma perda que foi resultado de algo claramente positivo: a queda muito rápida e forte da inflação, o que reduz o crescimento das vendas nominais e, com isso, a arrecadação em relação ao que havia sido projetado. Foi Fernando Montero que me chamou a atenção para esse ponto.

Retirando-se o efeito político, dá para dizer que a gestão fiscal vinha bastante bem, numa condição de recessão. Talvez por isso os mercados não tenham reagido tanto com a nova meta. 

A despeito disso, a economia está resistindo bravamente e mais uma vez uma recuperação se delineia. De fato, uma bateria de dados recentes sugere certa retomada. O emprego formal cresceu nos últimos quatro meses, a taxa de desemprego caiu de 13,7%, no primeiro trimestre, para 13% no segundo. 

As exportações estão crescendo muito, e a MB hoje projeta um saldo comercial de US$ 71 bilhões. Agricultura e automóveis têm sido o grande destaque. No caso do mercado automobilístico, a melhora também ocorre no mercado interno: as vendas diárias no segundo trimestre cresceram 13% em relação ao início do ano.

Finalmente, o IBGE mostra que o setor de serviços e o comércio tiveram uma expansão relevante nos últimos meses. Tudo indica que o crescimento, depois do susto de maio, ainda vai surpreender positivamente. 

Os resultados desse imbróglio são ambivalentes: de um lado, a questão fiscal piorou, realçando mais do que nunca a imperiosa necessidade da reforma da Previdência e a colocação de limites nos privilégios das grandes corporações públicas, como alertou o professor Delfim Netto em artigo recente. De outro lado, o ambiente econômico na época da eleição deverá ser muito melhor do que este que vivemos hoje, o que deverá aumentar o espaço para uma candidatura reformista.

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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