'A Eletrobrás terá de se adequar à sua nova receita'

Pacote de energia pode provocar mais instabilidade no sistema, o que amplia possibilidade de apagões, diz Gasparino

Entrevista com

FERNANDA NUNES / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2012 | 02h05

Marcelo Gasparino toma posse hoje como representante dos acionistas minoritários no Conselho de Administração da Eletrobrás. Ele foi aprovado para o cargo na polêmica assembleia geral do dia 3, a mesma na qual foi decidida a adesão da estatal ao pacote de redução da tarifa de energia, seguindo as condições previstas na Medida Provisória 579. O advogado substituirá José Luís Alquéres, que entregou o cargo para não acompanhar a posição da estatal na adesão ao pacote.

Sem poupar críticas às recentes medidas da presidente Dilma Rousseff para o setor, ele acredita que o pacote poderá gerar ainda mais instabilidade ao sistema interligado, o que, consequentemente, aumenta a possibilidade de novos apagões.

Embora o pacote do governo de redução da tarifa de energia não possa ser responsabilizado pela situação atual do sistema, ele ressalta que ocorrências como a de sábado chamam a atenção para a necessidade de investimentos. O capital intensivo é uma marca do setor, que passará a ter a geração de caixa como um desafio ainda maior a partir de 2013, quando passam a valer as novas condições dos contratos de concessão.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Que postura os minoritários poderão ter após a adesão da Eletrobrás ao pacote de energia do governo?

Não sou contrário a um incentivo do governo para antecipar a renovação das concessões. Sou contrário ao cálculo que não remunera o patrimônio não amortizado, o que faz com que concessionárias tenham receita insuficiente para pagar a operação e manutenção dos ativos. Apesar de o cálculo ter melhorado, não acredito que vá chegar a um valor que agrade os minoritários. As ações caíram tanto porque a MP alterou completamente a regra de remuneração da Eletrobrás.

Também houve erro de precificação das indenizações pelo mercado financeiro?

As ações caíram tanto porque a MP alterou completamente a regra de remuneração da Eletrobrás daqui para a frente. A própria Eletrobrás não estava precificando o valor que perderia na renovação das concessões. Todo mundo acabou errando. O mercado errou em expectativas, porque não esperava que as regras seriam tão drásticas.

O que esperar daqui para a frente?

Quem acabou pagando o preço foi quem sempre acreditou no mercado de capitais brasileiro. A Eletrobrás não é um papel para quem especula. É um papel para quem investe para ficar, porque tem pouca valorização. Na verdade, vale menos do que os de outras geradoras. O mercado já tinha a Eletrobrás como mais barata, por ser estatal. Mas ela sempre foi uma pagadora de dividendos.

A MP 579, ao reduzir a receita das elétricas, amplia as chances de apagões?

Os recentes apagões não estão diretamente relacionados à MP, mas o setor energético impõe capital intensivo. A MP desestimula a manutenção do investimento em um país que tem instabilidade regulatória. Os apagões evidenciam que, apesar de todos os cuidados, o sistema elétrico fica vulnerável a situações não gerenciáveis, como questões climáticas.

O seu poder de influência no Conselho é restrito...

Torço para que, em 2013, seja eleito o conselheiro dos (minoritários) preferencialistas. É muito difícil ter voz sozinho no Conselho e ter proposições prevalecendo. Quem sentar na cadeira de preferencialista em 2013 representará um terço do capital da companhia.

Como será a sua participação no Conselho de Administração?

O Conselho tem de fiscalizar a gestão dos diretores; olhar documentos, contratos e atos mais relevantes, que impactam questões estratégicas para a companhia; e tem de acompanhar o trabalho dos auditores. Com a redução da tarifa de energia, a Eletrobrás terá de enxugar o orçamento. Terá de ser lucrativa, por meio de um exercício de reestruturação societária muito grande. Terá de consolidar operações de transmissão, de geração e, talvez, tenha de alienar operações de distribuição por força de cumprimento de contrato com a Aneel. O pior momento da Eletrobrás, de longe, não passou.

O que significa consolidar operações?

A empresa não terá mais investimento (nos ativos indenizados, cujas concessões foram renovadas). Ela fará simplesmente operação e manutenção. É muito menor. É praticamente a terceirização de uma atividade.

Como funcionará a sua fiscalização?

A empresa será obrigada a fazer uma limpeza. Serei um voto pela adequação da empresa à receita. Se isso implicar redução de pessoal, serei um voto pela redução de pessoal. Se hoje temos quatro subsidiárias fazendo a mesma atividade em diferentes regiões do País, provavelmente teremos de diminuir.

O sr. é acionista da Eletrobrás? Não sou acionista da Eletrobrás porque no setor de energia já investia em outras empresas. Não acreditava que era na Eletrobrás que acertaria mais, porque no mercado existem empresas de energia com grau de excelência em gestão, como a CPFL. Na verdade, no setor elétrico, ninguém pode dizer que se arrepende em investir. É um investimento seguro, regulado, de um produto vital para todo mundo.

Mudará o perfil do minoritário da Eletrobrás após a MP?

Daqui para a frente, o papel despertará interesse, pois desvalorizou demais. Vai atrair o especulador, quem acredita que pode haver valorização do curto prazo. Vou continuar não tendo, até o momento que acreditar que a Eletrobrás é uma empresa bem gerida.

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