''A emoção acabou. Agora, é só a tela fria''

Painéis substituem a antiga gritaria

Marianna Aragão, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2009 | 00h00

Mais da metade dos 68 anos do paulista Décio Pecequilo foi vivida nos barulhentos salões da bolsa de valores e de mercadorias e futuros brasileira. Em 1965, quando ainda nem existia a profissão de operador de pregão no País, Pecequilo começou a trabalhar na Bolsa Oficial de Valores de São Paulo. Nessa época, as negociações eram feitas em um balcão circular - a corbeille -, em torno do qual se reuniam os corretores. "Os corretores trabalhavam de chapéu, terno e gravata", lembra.Quatro anos depois, Pecequilo iniciava os trabalhos como operador de pregão, função criada dois anos antes, quando também surgiram as sociedades corretoras e a bolsa passou a se chamar Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa. Durante 36 anos, ele trabalhou comprando e vendendo papéis de empresas e contratos no mercado futuro. Deixou o trabalho "especializado e agitadíssimo", como ele mesmo define, há quatro anos, quando houve a desativação do pregão presencial na Bovespa. "Preferi ir para a mesa (de operações de uma corretora). Não tinha mais idade para ir para a BM&F."Nas quatro décadas de trabalho, acompanhou de perto o processo no qual a tecnologia substituiu a emoção do pregão. No início dos anos 70, os operadores faziam as ofertas e os papéis eram listados, com os lances máximo e mínimo, em enormes quadros-negros. No final da década, a modernização começa a dar seus primeiros passos na bolsa. A "lousa" foi substituída por vídeos e um painel magnético que divulgava as informações do pregão, fazendo surgir o sistema online de negociações.Agora, Pecequilo assiste de longe ao encerramento das negociações presenciais na BM&F, uma das últimas bolsas no mundo que ainda mantinha esse tipo de pregão. Ele acredita que a profissão do operador ainda é necessária ao melhor funcionamento do mercado. "O operador consegue sentir melhor o mercado, tem uma definição de preço mais pura, mais real", avalia. "Acho que tinha de se buscar uma forma de convivência das duas realidades: a eletrônica e a presencial."Com o fim do ambiente de negociação ao vivo, a bolsa brasileira passa por mais uma mudança. O salão, que já abrigou mais de 2 mil operadores, nas décadas de 80 e 90, será transformado em espaço de visitação pública, com previsão de abertura em 2010. Porém, em vez da algazarra dos corretores, a principal atração serão os painéis eletrônicos. "Essa será a imagem da bolsa moderna", afirma André Demarco, diretor de operações da BM&F/Bovespa.Para os profissionais que fizeram parte desse pedaço da história da bolsa, a modernização mudou a energia do pregão. "A emoção não existe mais. Agora, é só a tela ?fria?", diz o operador Leandro Pasquineli.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.