A empreitada brasileira na Líbia

Construtoras brasileiras disputam projetos no país africano que se abriu para o ocidente e passou a investir em infraestrutura

Melina Costa, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Entre as regiões mais encrencadas do mundo, a Líbia ocupa posição de destaque. O país está entre os mais corruptos e é liderado pelo mesmo homem, Muamar Kadafi, há mais de 40 anos. Excêntrico e caprichoso, o ditador já chegou a propor uma guerra santa contra a Suíça e expulsou da Líbia a organização da ONU para o auxílio de refugiados (isso tudo só do início do ano até agora). Aos rompantes de seu governante, ainda se soma um atraso de mais de dez anos da economia líbia. Acusado de apoiar o terrorismo, o país viveu sob um embargo que impedia a importação de produtos e a atuação de empresas estrangeiras. O entrave só foi derrubado em 2003 depois de um acordo internacional.

Pois é exatamente esse o ambiente escolhido por um grupo cada vez maior de construtoras brasileiras para fazer negócios. "A Líbia vive um momento histórico relevante", diz Daniel Villar, diretor-superintendente da Odebrecht na Líbia. "Com o fim do embargo, o país decidiu se modernizar e investir em infraestrutura." O dinheiro para financiar as obras não é, pelo menos por enquanto, um problema. Só um dos fundos soberanos da Líbia, para investimentos internos, tem U$800 bilhões. Com a maior parte de seu PIB proveniente do petróleo, o país investiu U$ 115 bilhões em infraestrutura entre 2003 e 2009, segundo estimativas.

A Odebrecht foi a primeira brasileira a se instalar na Líbia desde a reabertura do país. A empresa começou a trabalhar em 2007 em duas obras no valor total de U$ 1,4 bilhão: a construção de dois terminais do Aeroporto Internacional da capital, Trípoli, e a criação de um anel rodoviário. À companhia seguiram-se as concorrentes Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, que realizam obras de infraestrutura urbana no país (como saneamento e remodelação de cidades). Agora é a vez da OAS. A construtora aguarda aprovação do Ministério da Economia da Líbia para estabelecer uma subsidiária em Trípoli, o que é esperado até o fim do ano.

A Líbia é o destino mais recentes das construtoras brasileiras na África. A presença de empresas como Odebrecht e Andrade Gutierrez já é tradicional em países de colonização portuguesa, como Angola. A região árabe do norte do continente, porém, começou a ser explorada apenas recentemente.

Diplomacia. Por trás desse movimento está o processo de aproximação dos dois países promovida pelo governo Lula. O presidente brasileiro, que chama Kadafi de "amigo" e "irmão", visitou a Líbia no ano passado. A primeira missão de empresários brasileiros também ocorreu em 2009, quando 90 companhias dos mais diversos setores visitaram o país. No ano passado, os líbios também vieram ao Brasil para convidar as empresas locais a participar do seu processo de privatização. Entre 2003 e 2009, as exportações de produtos brasileiros para a Líbia aumentaram 289%, enquanto as importações brasileiras do país africano cresceram 3.111%. "As excelentes relações pessoais entre Lula e Kadafi e entre o ministro Celson Amorim e o ex-ministro da Infraestrutura da Líbia impulsionaram as relações dos dois países e ajudaram a abrir o caminho para que as empresas brasileiras passassem a operar na Líbia", afirma George Ney de Souza Fernandes, embaixador do Brasil na Líbia.

As peculiaridades do país têm exigido um esforço extra das empresas brasileiras. Por uma questão cultural, os líbios não costumam fazer trabalhos braçais. Portanto, milhares de operários precisam ser trazidos de países como Tailândia, Vietnã, Filipinas e Egito para trabalhar nos canteiros de obras do país. Esse amálgama de costumes cria algumas complexidades. A Odebrecht, por exemplo, serve dois tipos de almoço para seus operários: uma cozinha internacional e outra asiática.

Na área administrativa da construtora, há funcionários de 35 nacionalidades diferentes. "Nossa maior preocupação entre os expatriados é com os solteiros", diz Villar. Na Líbia, um país muçulmano, é proibida a venda de bebida alcoólica e as opções de lazer são escassas. "Falta cinema, shopping center e teatro." Para tentar contornar o problema, a empresa criou, há pouco mais de um ano, um clube com piscina, aulas de ginástica e ioga. Um personal trainer foi trazido do Brasil e a esposa de um dos expatriados organiza passeios nos finais de semana.

Apesar dos anos de isolamento, a indústria líbia de matéria-prima para a construção civil tem atendido, em grande parte, às necessidades do atual boom de investimentos. Os principais insumos do setor - aço, cimento e betume - são produzidos localmente. Materiais como cerâmica e vidro, assim como equipamentos, são importados da Europa, Ásia e países próximos, como Turquia e Emirados Árabes.

A maior complexidade de se operar na Líbia está no relacionamento com o governo. O caso da OAS, que atualmente negocia um contrato com o braço estatal para o financiamento de prédios públicos, é emblemático. O governo líbio dá preferência para acordos com empresas estrangeiras que façam sociedade com empresas locais. O modelo estabelece a participação de 35% de uma companhia líbia. A OAS, porém, prefere trabalhar sozinha. "Chegamos mais tarde que nossas concorrentes e vimos as dificuldades enfrentadas por elas", diz Evandro Daltro, um dos responsáveis pela instalação da OAS na Líbia. "As empresas locais contribuiriam pouco com a nossa operação. Faríamos 100% do trabalho e receberíamos só 65%."

Na atual queda de braço com o governo, a OAS pleiteia o estabelecimento de uma subsidiária na capital Trípoli controlada 100% pela brasileira. "Se realmente não for possível, podemos aceitar um sócio, mas depende do projeto e do sócio recomendado", diz Daltro.

Do ponto de vista político, a grande desvantagem de agir sozinho em um ambiente de negócios pouco maduro como o da Líbia é acabar perdendo um importante canal de comunicação com o governo local. "Ter um sócio atenua o risco da operação porque é alguém que conhece o ambiente burocrático e briga em nome do projeto em situações de emergência", diz um executivo do setor com experiência em operações internacionais. A OAS pretende driblar a ausência de um parceiro local com o trabalho de um "sponsor", uma espécie de lobista com prestígio e trânsito na Líbia que já está trabalhando na instalação da empresa, e de um diretor líbio que será contratado para trabalhar na operação.

Sui generis. O boom de investimentos criou uma situação sui generis. Depois do auge de assinaturas de contratos em 2007 e 2008, alguns acordos começaram a ser cancelados. Em alguns casos, as construtoras envolvidas - normalmente turcas, gregas e chinesas - não conseguiram viabilizar, operacionalmente, as obras. Em outros, não tiveram capacidade financeira para tocar os projetos. Houve situações até em que faltou sincronia entre as várias obras realizadas ao mesmo tempo. "No ano passado, um prédio recém-construído teve parte destruída para permitir a passagem de uma avenida nos arredores de Trípoli", diz Daltro. Recentemente, o governo líbio contratou uma consultoria americana para ajudar na organização dos contratos.

Enquanto o mercado se reestrutura, as empresas brasileiras precisam lidar com a competição - não só entre elas próprias, mas com as agressivas construtoras chinesas. "Quando chegamos na Líbia, nós concorríamos com empresas europeias. Agora as chinesas estão ganhando força", diz Villar, da Odebrecht. Hoje, algumas das maiores obras da Líbia estão sendo tocadas por chinesas. É o caso da construção, no valor de U$2,6 bilhões, de duas ferrovias que somam mais de mil quilômetros de extensão. A dona dos contratos é a China Railway Construction Corporation (CRCC). A grande vantagem das chinesas é o preço mais baixo da mão de obra, não exatamente dos operários nos canteiros, mas dos engenheiros, funcionários administrativos e executivos. "Já visitei um canteiro na Líbia em que o diretor da obra dormia em um beliche na mesma casa que os engenheiros", diz Daltro.

A experiência na região da África Subsaariana é uma amostra da ousadia chinesa. Para conquistar obras, as empresas chinesas fecham acordos em que o pagamento é feito em petróleo e outros recursos naturais. Além disso, também são mais agressivas no financiamento. "O Brasil tem regras mais rígidas. A concessão de financiamentos passa pelo Tesouro, pelo Tribunal de Contas, são exigidas garantias sólidas. Já os chineses são mais rápidos e bancam qualquer proposta", diz Welber Barral, secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

PONTOS-CHAVE

Países "amigos"

O presidente Lula visitou a

Líbia no ano passado para

participar da Cúpula da União Africana. Em seu discurso, ele chamou o líder líbio Muamar

Kadafi de "amigo e irmão".

Economia em expansão

5,2%

é o crescimento esperado para o PIB da Líbia em 2010. Para 2011, a estimativa é de 6,1%, de acordo com o FMI

Adaptação cultural

Na Líbia, o consumo de bebida alcoólica é proibido e há poucas opções de lazer. Para tornar a vida de seus expatriados um pouco mais fácil, a empresa criou um clube que oferece aulas de ginástica

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