A época da dedicação total ao trabalho

Categorias vivem 'jornada' alongada a ou intensa provocada por fatores como economia globalizada e facilidades da tecnologia

O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h09

Quem já não ouviu algum colega dizer que está trabalhando demais. A globalização da economia e o desenvolvimento tecnológico têm levado muitos profissionais a ficar conectados com o trabalho por muito tempo, seja dentro do escritório ou fora dele. E a consequência são 'jornadas' que não se restringem ao local de trabalho e podem ultrapassar dez horas diária, de acordo com profissionais ligados a carreiras.

O diretor da Hays, empresa de recrutamento de executivos, Rodrigo Vianna, diz que, de uma forma geral, todos estão trabalhando mais. Segundo Vianna, pela realidade do Brasil e do mercado global, não há mais fuso horário e isso faz o profissional ficar mais ligado a tudo o que está acontecendo. Você está fora do seu fuso, mas dentro da realidade de outro país", afirma.

Para ele, talvez essa seja uma característica que surgiu há muitos anos, com a globalização, e que vem se trazendo para o dia a dia do trabalho.

O presidente do conselho de emprego e relações do trabalho da Fecomércio, José Pastore, diz que não há pesquisa específica sobre o assunto, mas tem observações do mercado de trabalho, principalmente nos últimos 15 anos, em que as novas tecnologias, como iPad, smartphones e laptops, provocaram estiramento das jornadas, pois permitem trabalhar em condições muito atípicas, que não existiam antes.

"Tenho notado que esse prolongamento de jornada está muito ligado ao desenvolvimento tecnológico", afirma. Para ele, a tendência é de que essa 'nova' jornada, na qual você trabalha um pouco no escritório, um pouco em casa, um pouco no hotel e um pouco no trem deve continuar por muito tempo, pois está ligada à tecnologia. Entretanto, essa jornada, atinge uma minoria de trabalhadores.

O diretor de relações do Trabalho da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), Magnus Apostólico, acredita que haja uma jornada maior nos níveis técnicos (médio e superior) e gerencial em função do mundo globalizado e dos aparelhos que mantêm os trabalhadores conectados. "Uma decisão tomada no Japão quando aqui é madrugada nos pega às 6 horas da manhã."

Porém, Apostólico não acredita que essa jornada seja decorrente de uma demanda da mesa de trabalho, mas está ligada ao nível de responsabilidade e das facilidades de comunicação.

"A comunicação está chegando às pessoas de forma muito rápida, em qualquer lugar, em qualquer horário", diz ao ressaltar que hoje já não é mais a jornada do escritório, da fábrica e sim a que nós mesmos fazemos.

Para Vianna, o Brasil é um país economicamente muito forte, com muitas empresas investindo. Portanto, acredita ele, é normal que haja demanda maior no dia a dia de trabalho. Como consequência, segundo ele, os profissionais têm de se dedicar mais. Em contrapartida os salários estão, segundo diz, mais alavancados e a exigência das empresas é que o resultado apareça.

No entanto, Vianna lembra que hoje as organizações têm preocupação muito forte com a qualidade de vida que o resultado 'custe o que custar', não existe mais. De acordo com necessidade de fazer uma separação quando o assunto é jornada esticada. Segundo o executivo, no caso de uma fábrica, onde se trabalha por turno, é impossível prolongar o horário, já que o outro trabalhador que chegar terá de ocupar o posto.

Entretanto, quando se fala em executivos, dez ou 12 horas de dedicação já foram assimiladas . Ao mesmo tempo, a sócia da Search RH, Nelma Prado, afirma que tem observado preocupação entre os executivos de estar mais próximos da família.

Intensidade. Um outro fato chama a atenção dos especialistas: a intensidade do trabalho. Para Ana Claudia Moreira Cardoso, do Dieese, o trabalhador pode até ter jornada menor, mas se o ritmo for intenso, ao fim do dia a sensação de cansaço será a mesma. Segundo ela, são vários os motivos que levam o profissional a trabalhar intensamente, entre eles o medo do desemprego, e o fato de vivermos numa sociedade do trabalho. "As pessoas, de uma forma geral, gostam de dizer que trabalham muito", diz.

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