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A era da inteligência artificial

Um dos principais usos dessa tecnologia é militar. E se essa arma se voltar contra nós?

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2016 | 05h00

Logo que surgiram, entre a Segunda Guerra Mundial e princípios dos anos 1950, os computadores ganharam o apelido de cérebros eletrônicos. Havia a expectativa concreta de que desenvolveriam a capacidade de pensar logo ali na esquina. Era só esperar que algum cientista, em algum lugar, fosse capaz de um estalo, de uma inovação. Mas isso não ocorreu. Computadores se tornaram essas máquinas que temos hoje, ferramentas para produtividade ágil e comunicação. Ou melhor: até agora. Estamos finalmente entrando na era da inteligência artificial. E ela traz duas ameaças.

Algumas pessoas estão preocupadas. Não são luditas, gente que antipatiza com tecnologia. Na semana passada, durante a conferência Recode, no Vale do Silício, um dos que manifestaram apreensão foi Bill Gates, fundador da Microsoft. Não está sozinho. Elon Musk, principal acionista da empresa de automóveis elétricos Tesla, é outro. Acompanha ambos um dos mais importantes astrofísicos do mundo, Stephen Hawking.

A primeira ameaça está para chegar e acontecerá rápido. É a “uberização” de várias profissões. Começou tímida, com os assistentes digitais que trazemos em nossos celulares e começam a chegar às casas. Hoje, tanto iPhones quanto Androids são capazes de checar o próximo compromisso na agenda, observar o trânsito e piscar a tela para o alerta: é melhor que você saia logo para não se atrasar. É parte do trabalho de uma secretária executiva.

Estes assistentes, que logo deixarão nossos celulares para ocupar um espaço proeminente em casas e escritórios, serão capazes de muito mais. Deseja viajar para Brasília na primeira ou segunda semana do mês, se encontrar com o deputado fulano e marcar um chope com aquele velho amigo? Uma ordem de voz e o computador faz tudo. Você apenas confirma a sua opção.

Todas essas funções – que exigem compatibilizar horários, listar possibilidades, agrupar e organizar dados, comparar com seus hábitos – poderão ser automatizadas muito em breve. E se tornarão ameaças para contadores, bibliotecários, caixas em comércio, gerentes de banco, agentes de viagem, operadores de Bolsa de Valores e, claro, até algumas funções jornalísticas. O que o Uber faz para o táxi ocorrerá mais e mais.

O maior problema está ainda a algumas décadas de distância. Bill Gates o chama de “super inteligência”. Elon Musk o vê como “a maior ameaça a nossa existência”. Para Stephen Hawking é “o maior feito da história da humanidade”. Em algum momento, a inteligência artificial será maior do que a humana. E, aí, não sabemos o que ocorrerá.

O cenário não é aquele típico da ficção científica, um humanoide perseguido pelo Blade Runner após ganhar consciência de si. Inteligência artificial é lógica, não tem emoção ou moral. Não se tornará consciente ou filosófica, mas pensará mais rápido e será capaz de raciocínios muito sofisticados. E poderá se reprogramar, mudar seus objetivos.

Um dos principais usos de inteligência artificial, por exemplo, já é militar. E se esta arma do futuro se voltar contra nós?

Nossos políticos – não apenas os brasileiros, também os de fora – mal conseguem encarar problemas complexos de hoje, como os da sustentabilidade. E, no entanto, já deveriam começar a lidar, ao lado de cientistas, com o debate sobre os impactos da inteligência artificial.

A questão do trabalho é iminente. É um problema concreto da década de 2020.

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