KEVORK DJANSEZIAN|REUTERS
KEVORK DJANSEZIAN|REUTERS

A era da ‘torporação’

Os lucros das grandes empresas de capital aberto bateram num muro de deflação e estagnação; esse fenômeno ocorre, em geral, a cada 10 anos

The Economist, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2015 | 03h00

A ideia de que os lucros crescem está enraizada no mundo corporativo. A remuneração dos executivos aumenta se eles conseguem ampliar o lucro por ação das empresas que comandam. Executivos que admitem que suas companhias correm o risco de encolher são vistos como covardes, merecedores de demissão imediata sem dó nem piedade. Os credores supõem que o fluxo de caixa das empresas crescerá, permitindo que elas paguem os empréstimos que contraíram.

Num ritual ridículo, os analistas de Wall Street iniciam quase todos os anos com a previsão coletiva de que o lucro por ação crescerá a taxas de dois dígitos. Embora essas expectativas geralmente não se confirmem, o desempenho nos últimos 30 anos foi formidável: média de 8% ao ano para as empresas americanas que compõem o índice S&P 500. Mesmo depois do tombo que a economia levou com a crise financeira de 2007-2008, os lucros não tardaram a se recuperar.

Talvez seja esse o motivo de a ficha ainda não ter caído: o mundo corporativo está entrando num período de estagnação. As vendas e os lucros das empresas do S&P 500 devem cair pelo segundo trimestre consecutivo; projeções indicam que o resultado nos três meses encerrados em setembro ficou entre 3% e 5% abaixo do obtido no mesmo período do ano passado. Recessões de lucros são raras, acontecendo uma vez, aproximadamente, a cada dez anos.

A justificativa panglossiana desta vez recorre a dois fatores extraordinários: a baixa dos preços de energia e a valorização do dólar. Este último faz com que, ao serem convertidos para a moeda americana, os rendimentos obtidos no exterior murchem.

Acontece que a letargia corporativa é muito mais profunda e generalizada que isso. Os lucros de metade das grandes empresas americanas de capital aberto estão em queda. Mesmo excluindo o impacto da energia barata e do dólar forte, o ritmo de crescimento dos lucros das companhias do S&P 500 é lento. Muitas líderes de mercado – Walmart, IBM, General Electric (GE) – enfrentam dificuldades para aumentar o faturamento ou mesmo impedir sua queda. Enquanto setores tradicionais, de hotéis a emissoras de TV, reclamam que as empresas de tecnologia estão roubando o seu almoço, o próprio segmento de tecnologia parece incapaz de fazer os lucros saírem do lugar, com companhias como a Alphabet (antes conhecida como Google) chegando à meia-idade. O torpor está por toda parte. No mundo inteiro, os lucros por ação, quando medidos em dólar, pararam de crescer. Em moeda local, o faturamento das empresas estacionou na Ásia, desacelerou na Europa e deve desabar no Brasil. Em 16 de outubro, a Nestlé, que é a segunda maior empresa europeia em valor de mercado, anunciou que não conseguirá atingir sua meta de vendas este ano.

Em âmbito nacional, o faturamento das empresas está intimamente relacionado com o crescimento do PIB nominal (que inclui a inflação). Assim, considerando que os países ricos enfrentam o fantasma da deflação e que o crescimento dos emergentes está em queda, não é de espantar que as empresas se vejam em dificuldades. Após duas décadas perdidas, as receitas por ação das companhias japonesas continuam em patamar semelhante ao observado nos anos 90.

Quanto às empresas ocidentais, suspeita-se agora que os métodos empregados para gerar lucros durante os anos dourados eram insustentáveis. A inquietação é ampliada pelo fato de que, segundo dois parâmetros, o nível em que os lucros se encontram é elevado. Os lucros por ação das empresas do S&P 500 estão 28% acima de sua média decenal. E, se entre os anos 70 e meados dos 90, os lucros das companhias americanas raras vezes passaram de 6% das riquezas produzidas pelo conjunto da economia do país, hoje eles representam quase 10% do PIB.

Estratégias. Desde a década de 70, as empresas americanas vinham lançando mão de três importantes estratégias para impulsionar os lucros. Em primeiro lugar, as multinacionais ampliaram suas atividades no exterior, com os ganhos de suas subsidiárias respondendo por cerca de um terço do crescimento de longo prazo dos lucros. Agora, depois de 15 anos de forte expansão, as economias emergentes estão patinando. Em segundo lugar, entre 1977 e 2007, a atividade financeira foi um ponto de apoio crucial para os lucros, com o setor bancário crescendo em ritmo acelerado e empresas do setor industrial, como GE e General Motors montando enormes operações financeiras. As restrições regulatórias adotadas depois da crise financeira significam que essa aventura chegou ao fim.

Em terceiro lugar, nos anos subsequentes à crise de 2007-2008, as empresas comprimiram significativamente o porcentual dos lucros que distribuem como remuneração a seus executivos. No entanto, começam a surgir sinais de que os salários estão subindo. Em 14 de outubro, o Walmart anunciou que gastos mais elevados com salários e treinamento vão reduzir seu lucro em US$ 1,5 bilhão, ou pouco menos de 10%, em 2017. Uma semana depois, a cadeia de fast-food Chipotle, especializada em burritos tamanho família, responsabilizou os gastos com salários pela redução de suas margens. Se a fatia dos ganhos brutos pagos em salários voltasse ao nível médio observado nos anos 90, os lucros das empresas americanas seriam 20% menores.

Diante da perspectiva de estagnação, a solução – precária e provisória – é a recompra de ações, que tem movimentado US$ 600 bilhões ao ano nos EUA. É uma alternativa legítima para forrar o bolso dos investidores, mas também serve para impulsionar artificialmente os lucros por ação. A IBM torrou US$ 121 bilhões com recompras de ações na última década, o dobro do valor investido em pesquisa e desenvolvimento. No terceiro trimestre deste ano, as vendas da companhia tiveram queda de 14%, ou, excluindo variações cambiais e vendas de ativos, 1%. A Big Blue deveria ter investido mais no próprio negócio. O Walmart gastou US$ 60 bilhões com recompras de ações, mesmo tendo perdido muito espaço para a Amazon no comércio eletrônico.

Uma opção radical é se aliar ao torpor. O fundo de investimentos brasileiro 3G se especializou em comprar empresas maduras e cortar o que seus executivos dizem ser “gordura”. As vendas da Kraft, seu alvo mais recente, vêm caindo a uma taxa anual de 5%. O 3G está por trás da proposta de US$ 120 bilhões que a AB Inbev fez pela SABMiller. Os volumes da Inbev vêm recuando à taxa de 2%. Nos Estados Unidos, os segmentos de telecomunicações, TV a cabo e planos de saúde passam por consolidações. O objetivo é criar oligopólios soporíferos.

Para o setor privado como um todo, é possível que as margens de lucro encolham com a alta dos salários.

Seja como for, o fato é que a maioria das empresas terá de se haver com receitas estáticas. Em relação a vendas e ativos, os gastos de capital das empresas americanas pelo menos têm permanecido estáveis, e a transferência de plantas industriais para a China, assim como as mudanças tecnológicas, pode significar que a taxa de investimento “natural” de que as empresas necessitam tenha caído. Mas não há dúvida de que é preciso investir com liberalidade para fazer com que as grandes empresas voltem a crescer.

A despeito de sua obsessão com o crescimento, as grandes empresas de capital aberto parecem entorpecidas. Querem se expandir, mas ao mesmo tempo fazem questão de proteger o nível elevado de lucros, conter salários e investimentos, recomprar ações e manter em seus balanços muito mais dinheiro em caixa do que o necessário. Decisões que talvez façam sentido individualmente para cada empresa, provocam estagnação no conjunto da economia, o que, por sua vez, estanca o crescimento das companhias. Como as grandes empresas farão para reunir força de vontade suficiente para escapar dessa armadilha excruciante?

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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