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A escalada dos preços das commodities

Início da vacinação em massa produz efeito colateral de valorização das commodities, recebido com bênção pelo Brasil

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2021 | 19h04

O início da vacinação em massa está produzindo efeito colateral mais importante do que a ameaça de transformação de gente em jacaré, como advertiu o presidente Bolsonaro. Está produzindo forte valorização das commodities, tanto das agrícolas como das metálicas.

De julho de 2020 até esta sexta-feira, por exemplo, a soja valorizou-se 53,4%; o milho, 33,9%; e o petróleo, 30,6%. Na tabela ao lado e nos gráficos ao pé desta Coluna, você tem outras indicações das proporções desse rali.

A mais importante das causas desse movimento tem a ver com o apontado acima. Trata-se da vacinação em massa, que traz a perspectiva de reativação da atividade da produção e do consumo. Neste ano, a China, grande consumidora de commodities, deve crescer perto de 8%; os Estados Unidos, 3%; e a União Europeia, 5%.

Há também certa quebra de produção de grãos em grandes produtores, em consequência da seca ou do atraso das semeaduras de primavera, caso da Argentina, do Paraguai, do Uruguai e, em certa medida, do Brasil.

São fatores que, por si sós, acionam mais demanda. Por uma questão de segurança alimentar, alguns países, como os da União Europeia, reforçaram seus estoques e, assim, passaram a pressionar as compras. Grandes atacadistas seguiram por aí. Juros próximos de zero ou até negativos derrubam os custos de estocagem e são fator adicional de mais armazenamento. 

A Argentina, grande produtora mundial de grãos, acaba de restringir suas exportações de milho, providência que, por si só, restringe a oferta e sugere que pode estender as restrições também às exportações de soja e de trigo. O objetivo da medida foi impedir o sumiço do produto para consumo interno. Se a escassez relativa continuar, é de esperar que grandes produtores também passem a segurar suas vendas.

Para o Brasil, grande produtor e exportador de matérias-primas, essa alta de preços das commodities, conjugada com o esperado aumento da produção e com cotações relativamente altas da moeda estrangeira, é recebida como bênção. Deverá ajudar a aumentar o PIB, a interiorização da riqueza e a obtenção de excelentes resultados da balança comercial, cujas receitas com exportações de commodities em 2020 superaram os 57% do total.

Mas, como já dizia o Pequeno Príncipe, quem quiser conhecer as borboletas tem de tolerar as lagartas. Trata-se do efeito colateral adverso, o do inevitável aumento de preços internos.

Nesta terça-feira, o IBGE deverá divulgar a inflação de dezembro (e do ano inteiro) e já se verá o impacto da escalada sobre o custo de vida. Não atingirá apenas os alimentos e a proteína animal, que depende de rações que têm forte participação de soja e de milho. Deve estender-se para os combustíveis e para inúmeros produtos industrializados cujas matérias-primas também sofreram o impacto.

Essa é fonte de pressão adicional sobre o Banco Central, que dia 20 terá de rever os juros básicos (Selic), estacionados desde agosto nos 2,0% ao ano.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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