Wether Santana/Estadão
Wether Santana/Estadão
Imagem Laura Karpuska
Colunista
Laura Karpuska
Economista
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A escola é o lugar onde as crianças poderiam ter ajuda para criar um projeto de vida

Estudantes de escola pública passam pela sala de aula sem saber das possibilidades que existem à frente

Laura Karpuska*, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 04h00

Quando entrei na USP, trabalhava na Rua Libero Badaró, no centro histórico de São Paulo. Ia para a faculdade com o ônibus Cidade Universitária, 7411-10, que passava logo abaixo do Condomínio Prédio Conde de Prates, onde trabalhava. 

O ônibus era claramente universitário, não apenas no nome. Estudantes amontoados, sentados nos degraus, em pé, encostados uns nos outros e lendo fotocópias e livros amassados – eram os anos 2000. Em um desses finais de tarde, esperando a construção da linha amarela – que na época piorava o já ruim trânsito de São Paulo, fiquei na catraca. Não tendo como passar, fiquei ali, encostada, frente a frente com o cobrador. Era sempre ele, o mesmo cobrador. Lia alguma coisa quando ele me perguntou: a USP é cara? 

Tinha acabado de entrar na faculdade. Logo, não respondi com a arrogância típica de uma economista, que diria que nada é de graça, especialmente bens providos pelo governo que são pagos com dinheiro do povo. Respondi com a ingenuidade dos meus 19 anos: sim, a USP é de graça. 

A reação do cobrador foi de espanto. Ele me perguntou, então, como eu tinha entrado na USP. Respondi que tinha uma prova, chamada de Fuvest. Para o cobrador, era tudo novidade. Disse que falaria sobre isso com seus filhos. Perguntei havia quanto tempo ele era cobrador da linha. Não me lembro ao certo da resposta, mas eram anos, o que me espantou. 

Esta história pessoal não é uma exceção. Ela explicita um problema econômico e social: a desigualdade é multidimensional. É de renda, nutricional, de acesso e informacional, como no caso aqui. No Brasil, temos uma das piores mobilidades intergeracionais do mundo. Pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social mostra que a chance de os filhos repetirem o grau de escolaridade dos pais é o dobro no Brasil em relação aos EUA

Como sair desse ciclo danoso? Temos muitas opções. Todas passam pela melhora do ensino básico. Não apenas na sua qualidade, mas na criação de um ambiente de escola pública que possa suprir as carências que dificultam a expansão de perspectivas das crianças brasileiras. 

Estudantes de escola pública se formam não sabendo apenas menos matemática e português do que a média dos estudantes de escolas particulares. Crianças passam pela escola sem saber das possibilidades que existem à frente. A escola é o ambiente em que as crianças poderiam ter ajuda para criar um projeto de vida. Sem saber dessas possibilidades, como elas podem sonhar? 

*PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.