A escolha de Sofia
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A escolha de Sofia

Com o prazo para a aprovação ou não do projeto do Orçamento da União chegando ao fim e a situação fiscal delicada do Brasil, o governo Bolsonaro está prestes a fazer uma escolha difícil

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2021 | 20h10

O governo dos Estados Unidos vem dando show de política fiscal que grande número de países vêm tentando seguir. Mas essa reação à crise não está sendo possível apenas porque os Estados Unidos controlam a mais importante moeda de reserva do mundo. Está sendo viabilizada, principalmente, porque a situação fiscal do país é equilibrada.

É por isso que, depois de promulgar o pacote de US$ 1,9 trilhão, que despejou cerca de US$ 1 trilhão em auxílios diretamente  às famílias mais carentes, o governo Biden prepara para aprovar um superprograma de investimentos de US$ 2,3 trilhões destinado a cobrir despesas públicas com obras de infraestrutura e de expansão de instalações destinadas à produção de energia limpa.

Agora, vamos ao corte para outra cena. A economia brasileira não está prostrada apenas porque a política de enfrentamento à covid-19 é um desastre, porque a vacinação segue a passos de tartaruga e porque apareceram novas variantes do coronavírus. Está prostrada porque a situação fiscal é tão delicada que já não permite respostas adequadas do governo no enfrentamento dos problemas tanto antigos como novos da economia. Não há como optar por vastos programas de investimentos.

O governo de Jair Bolsonaro tem mais uma semana para fazer uma "escolha de Sofia": se sacrifica ainda mais a situação fiscal e, assim, resvala para o imponderável; ou se enfrenta o risco de uma desestruturação da sua base no Congresso, na medida em que o Centrão passou a exigir mais.

Em outras palavras, se o presidente sancionar o projeto do Orçamento da União como está, estará correndo o risco de incorrer em crime de responsabilidade. Se se recusar a executar as pedaladas embutidas no projeto, estará comprometendo ainda mais a já precária capacidade de governar.

Duas são as áreas da economia brasileira mais sujeitas à  deterioração que se seguiria a um aprofundamento da crise fiscal: a da atividade econômica (evolução do PIB) e a da inflação. Enquanto nas principais economias o momento é de recuperação do consumo, da produção e do emprego, aqui no Brasil o grande “V” do ministro Paulo Guedes passa por nova ameaça de nanismo. A inflação, por sua vez, não está sendo empurrada para cima apenas pela alta das commodities, mas, também, pelo desmanche da confiança.

Sim, há o guardião da moeda, o Banco Central, que está preparado para o contra-ataque. No entanto, o risco maior agora é o de que a desestruturação das contas públicas conduza à dominância fiscal, situação que tira força da política monetária (política de juros) e trava a ação do Banco Central. Ou seja, será então a política fiscal que tenderá a definir o grau de eficácia da política de juros.

Apesar do ainda parrudo estoque de reservas internacionais, de US$ 347 bilhões em março (veja gráfico), pode ser fatal uma corrida ao dólar que pudesse ser provocada pela percepção de que a dívida terá ficado insustentável.


CONFIRA

» Queda da confiança

O gráfico mostra que a confiança do empresário industrial, calculada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI)sofreu a quarta queda consecutiva no mês de abril. Esse índice é dividido por uma linha divisória que define dois campos: acima e abaixo dos 50 pontos. Acima dos 50 pontos há confiança. Abaixo, fica caracterizada a falta de confiança.

Em abril, o índice ficou nos 53,7 pontos, bem mais próximo da linha divisória. Mostra que o empresário industrial está perdendo fé na política econômica do governo

  *CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA 

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