A Espanha baqueia

Este final de abril, mês da primavera no Hemisfério Norte, decididamente, se revelou um desastre para a Espanha - e não foi apenas para seus melhores clubes de futebol, eliminados da Copa dos Campeões em seus próprios templos esportivos.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2012 | 03h04

Ontem, por exemplo, números oficiais revelaram um avanço na inflação anual, que foi de 1,8%, em fevereiro, para 2,0%, em março. Entre tantos dados negativos, este pode ter sido o menos preocupante.

Também ontem, o Instituto Nacional de Estatística (INE) do Ministério da Economia e Competitividade da Espanha revelou que o desemprego no país saltou de 22,85% da força de trabalho (dados do quarto trimestre de 2011) para 24,44% (no primeiro trimestre de 2012). São 5,6 milhões de pessoas de braços cruzados em 23,1 milhões que constituem a população ativa. A destruição de empregos cresce a 4% ao ano. Pior que isso é o futuro de mãos vazias. Nada menos que 52% dos jovens (com 25 anos ou menos) não encontram trabalho.

A agência de classificação de riscos Standard & Poor's, ainda ontem, rebaixou em dois degraus os títulos de dívida da Espanha, colocando-os, ainda, em perspectiva negativa. Ou seja, é provável que dentro de mais alguns meses o rebaixamento prossiga.

Até o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, condenou essa perda de posições da Espanha: "A decisão torna a situação que já era crítica ainda mais crítica". Mas tanto agências de rating como auditores não são pagos para botar panos quentes, mas para apontar problemas - ainda que agravem as coisas.

A percepção de que aumentou o risco de calote dessa dívida terá duas graves consequências imediatas. A primeira delas é a tendência à elevação dos juros a serem cobrados pelos tomadores de títulos da Espanha nos próximos meses. Juros mais altos, por sua vez, tendem a aumentar o déficit público, hoje é de 8,5% do PIB.

O segundo efeito é a deterioração patrimonial dos bancos espanhóis, que já enfrentam, em conjunto, 184 bilhões de euros em ativos podres, cerca de 60% dos quais pertencentes às carteiras imobiliárias. Cálculos não oficiais dos analistas apontam para a necessidade de capitalização das instituições financeiras espanholas de nada menos do que 100 bilhões de euros. Se o Tesouro espanhol tiver de intervir, serão mais despesas não previstas e uma pressão adicional para o crescimento do rombo orçamentário.

Toda a indignação das ruas se volta neste momento para as medidas de austeridade implantadas pelo primeiro-ministro Mariano Rajoy. Mas os problemas vêm lá de trás, das políticas descuidadas dos governos anteriores.

As análises conduzem para a conclusão de que a Espanha não é a Grécia e que as condições para a recuperação da economia são muito melhores. Além disso, os mecanismos de socorro já estão bem mais estruturados na Europa, em situação de circunscrever a crise. O problema é que o tempo dos mercados é diferente do tempo dos políticos. Qualquer fagulha pode detonar novo desastre. A propósito, desastrado é aquele que não conta com a proteção dos astros. E esse pode ser o caso da Espanha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.