A Espanha volta ao foco

Na semana passada, os observadores dos quatro cantos do Planeta avisavam que a economia mundial estava à beira do precipício e que tudo ficaria bem se houvesse um desfecho positivo das eleições na Grécia. Porém, a vitória dos conservadores e, com ela, a possibilidade de que os canais de crédito oficial sejam reabertos não mudaram a percepção. O bêbado continua lá no alto, balançando miseravelmente o corpo sobre o vazio.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2012 | 03h03

Ficou, em alguma coisa, reduzida a possibilidade de que a Grécia saia da área do euro e, com isso, lance a economia mundial no pandemônio. Contudo, a agonia continua, agora com o agravamento de outro foco da crise, o da Espanha, duramente ameaçada de não obter financiamento para seu enorme rombo orçamentário.

Apesar do alívio que veio com o anúncio do resultado das eleições na Grécia, o investidor mostrou que não se atreve a canalizar seu dinheiro para a compra de títulos soberanos da Espanha. Ontem, o baixo interesse aumentou o rendimento (yield) desses papéis para acima dos 7% ao ano. Aumenta assim o risco de que a dívida fique insustentável. A esses níveis, o passivo da Espanha dobraria em menos de 10 anos, mesmo se não houvesse novos déficits orçamentários à procura de cobertura. No pregão de ontem, a Bolsa de Madri refletiu o aumento da aflição geral. Fechou com uma baixa de quase 3%.

Na semana passada, o presidente do governo, Mariano Rajoy, anunciou radiante a decisão tomada pelo comando do bloco europeu de repassar um pacote de pelo menos 100 bilhões de euros, destinado a reforçar o capital dos bancos espanhóis, cujos caixas vinham sendo assediados pelos correntistas. No entanto, o que foi vendido como solução definitiva para o rombo patrimonial dos bancos não tranquilizou ninguém. A única vantagem da operação (os juros mais baixos) não desarma a bomba principal. Ao contrário, aumenta seu potencial destrutivo. Se a situação financeira anterior da Espanha já era precária, pior ficará com o aumento da dívida.

Há também razões para acreditar que 100 bilhões de euros não serão suficientes para dar conta do recado. O tom de satisfação passado por Rajoy, por ter arrancado de Bruxelas a nova linha de crédito, parece ter acentuado a desconfiança dos mercados. Passou a impressão de que seu governo não avalia corretamente a gravidade da hora.

O alívio aparente obtido com a formação de um novo governo na Grécia e do respeito aos acordos, por sua vez, tem o lado ruim de apontar para o adiamento indefinido das soluções.

A Europa é uma Kombi velha que só pega no tranco. Mas, desta vez, o emperramento geral não está sendo utilizado para forçar a passagem para a saída política da crise. Os dirigentes se agitam na tarefa de apagar focos esparsos de incêndio, no entanto, não são capazes de estancar o vazamento do oleoduto que está estourado.

Ontem, por exemplo, em Los Cabos, México, onde se realiza mais uma cúpula do Grupo dos 20 (G-20), o presidente do Conselho Europeu, o belga Herman van Rompuy, repetiu que a União Europeia não vacilará em usar seu arsenal para debelar a crise. É o tipo de declaração que piora tudo. Mostra que as autoridades não sabem o que fazer. Se soubessem, por acaso já não teriam agido?

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