À espera do Cade, clima é de ansiedade

Em relatórios para investidores, BRF estima que a fusão seja aprovada até julho, 'o limite do limite'

Raquel Landim, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

O clima é de ansiedade nos escritórios dos mais altos executivos da Brasil Foods. A união de Sadia e Perdigão completará um ano no dia 19 de maio. Até agora, pouco foi implementado, porque o processo está em análise pelo Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência.

Os últimos dez meses foram de intenso trabalho para altos executivos e a consultoria McKinsey. Eles fizeram um "mapa da fusão" e planejaram a nova empresa em detalhes. Mas o estudo termina no fim do mês e, a partir daí, só restará aguardar.

"Esperamos que não faça aniversário", disse o CEO da BRF, José Antonio do Prado Fay. "Estamos prontos para iniciar a integração de todas as equipes de forma definitiva e total", disse o co-presidente do conselho de administração, Nildemar Secches.

Nos relatórios para investidores, a BRF estima a conclusão da fusão em junho ou julho, que é avaliado na empresa como "o limite do limite". O tempo gasto pelo governo deixa os executivos ansiosos porque retarda a redução dos custos.

A indefinição sobre o futuro também traz insegurança para a equipe, e a BRF está perdendo funcionários importantes. O avanço da concorrência é outra preocupação.

"Ao longo do tempo estamos vendo outras empresas aproveitando o espaço para crescer", disse Luiz Fernando Furlan, também co-presidente do conselho de administração da BRF.

No fim do ano passado, o Marfrig comprou a Seara, a terceira marca do mercado de embutidos, e anunciou que vai perseguir o segundo lugar. Na carne bovina, o JBS comprou o Bertin e a americana Pilgrim"s Pride.

Complexidade. Segundo especialistas em concorrência, o caso Sadia - Perdigão é um dos mais complexos que já passou pelo Cade. São cerca de 60 categorias de produtos, que devem ser analisadas individualmente. As empresas já enviaram mais de 600 páginas de informação para as autoridades.

Nos bastidores, os comentários são que o desfecho pode ser complicado. As especulações de advogados e do mercado apontam para medidas de restrição, como vendas de fábricas ou até a saída das marcas Sadia ou Perdigão de algum produto específico.

Uma das bases da argumentação da empresa é a definição do que é o mercado relevante para análise de concorrência. Eles querem convencer o Cade que as pizzas da Sadia e da Perdigão não concorrem só com o produto congelado, mas também como a pizza feita em casa ou comprada na pizzaria.

Os executivos também estão incomodados porque consideram o Acordo de Reversibilidade da Operação (Apro) assumido com o Cade muito restritivo. O compromisso foi assinado às pressas, para salvar a Sadia da ruína financeira.

Desde então, o Cade já autorizou duas flexibilizações, permitindo às empresas unificar a compra de insumos e a venda no mercado externo. Ainda assim, isso é uma parte pequena das sinergias que a operação pode gerar.

"Se comparar com qualquer outro lugar do mundo, o prazo do processo é absolutamente normal ", disse Carlos Ragazzo, conselheiro do Cade e relator do caso.

O processo ainda não chegou às mãos de Ragazzo e está em análise técnica na Secretária de Acompanhamento Econômico (SAE), do Ministério da Fazenda, geralmente a fase mais demorada até a aprovação do negócio.

A concorrência também está ansiosa. "Nós ficamos pequenos de uma hora para outra", disse o presidente da Aurora, Mario Lanznaster. Ele explica, por exemplo, que é impossível competir em volume de propaganda com uma gigante como a Brasil Foods.

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