À espera do lucro

O pacote é um passo importante para melhorar o ambiente de negócios

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2016 | 05h00

O pacote de medidas microeconômicas lançado pelo governo na semana passada faz parte de um esforço para resolver um problema crucial para o Brasil voltar a crescer: a saúde das empresas brasileiras. A bagunça macroeconômica dos últimos anos – recessão, juros elevados, desvalorização acelerada do real frente ao dólar e a queda vertiginosa dos índices de confiança – afetou os resultados das empresas brasileiras e contribuiu para aumentar o endividamento delas. Essa situação teve um impacto direto no mercado de trabalho, com o fechamento de vagas formais e a alta do desemprego.

Os analistas aprovaram as medidas, entre elas a que permite a empresas abaterem dívidas previdenciárias, por exemplo, utilizando créditos tributários e prejuízos fiscais. Por outro lado, muitos ainda não creem que esse pacote de medidas terá um efeito significativo no curto prazo suficiente para fazer com que as empresas se tornem o motor da recuperação da economia em 2017.

Sem um horizonte macroeconômico estável, o cenário ainda será desafiador no mínimo para o aumento das vendas, melhora nos resultados e a capacidade de ampliar produção e crescer. Isso somente será possível se a inflação desacelerar de forma consistente para próximo da meta de 4,5% fixada pelo Banco Central, permitindo uma queda sustentável dos juros básicos (hoje em salgados 13,75%). Esse movimento já começou. A taxa Selic encerra este ano a 13,75%, meio ponto porcentual abaixo do que começou 2016. Assim, o pior já ficou para trás para as empresas brasileiras?

De um lado, a agência de classificação de risco Fitch Ratings diz que a perspectiva para as empresas brasileiras é negativa em 2017, com a recuperação do fluxo de caixa proveniente das operações somente acontecendo em 2018. Não à toa a previsão da Fitch de que, em 2017, rebaixamentos de classificação de risco das empresas brasileiras com nota na categoria “grau especulativo” vão superar as elevações na proporção de nove para um.

De outro, alguns analistas do mercado acionário preveem uma melhora para os resultados corporativos em 2017. Marco Saravalle, analista da XP Investimentos, diz que a queda da taxa Selic vai contribuir para reduzir as despesas financeiras das empresas, as quais ainda estão bastante endividadas. Ele cita uma empresa negociada em bolsa que calculou que cada ponto porcentual de redução dos juros básicos representaria um alívio na despesa financeira de R$ 200 milhões. As empresas com ações em bolsa acompanhadas pela XP Investimentos devem registrar crescimento médio nos lucros de 22% em 2017. Em 2016, esse número deve fechar com uma expansão ao redor de 2%.

Além disso, Saravalle diz que a recuperação da economia poderá ajudar os resultados das empresas via o que os analistas chamam de “alavancagem operacional”, ou seja, um aumento nas receitas pode se traduzir num crescimento ainda maior na geração de caixa e nos lucros. Mesmo uma recuperação bastante modesta do Produto Interno Bruto (PIB) pode ter um efeito muito maior nos lucros. Os analistas ouvidos pela Pesquisa Focus, do Banco Central, estimam um crescimento de 0,58% do PIB em 2017, após uma queda esperada de 3,48% neste ano.

E se o desempenho da economia frustrar mesmo essa estimativa de modesta expansão em 2017? Esse é o risco alertado pelos analistas do banco suíço Credit Suisse em relatório a clientes. Segundo eles, o consenso entre os analistas de mercado é que o lucro por ação das empresas que compõem o Índice Brasil 100 (IBX) cresça 21% no ano que vem, com o IBX passando de um patamar estimado em 1.640 pontos ao fim deste ano para 1.980 pontos em 2017. Em 2015, esse índice, cuja variação reflete os lucros das empresas, foi negativo em 105 pontos. Outro risco, além de o PIB ficar aquém do que se estima atualmente, é a inflação não ceder o suficiente para permitir cortes de juros mais agressivos pelo BC e, assim, aliviar as condições financeiras das empresas brasileiras. O pacote de medidas microeconômicas é um passo importante na direção certa para melhorar o ambiente de negócios no Brasil. Mas a volta dos lucros requer muito mais.

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