ALEX SILVA|ESTADÃO
ALEX SILVA|ESTADÃO

À espera dos carros de luxo da Mercedes

Rodeada por canaviais e com grande parte de sua economia dependente da Usina Iracema, maior empregadora e maior geradora de impostos do município, Iracemápolis, no interior de São Paulo, está a três meses da inauguração da fábrica de carros de luxo da Mercedes-Benz, programada para março.

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2015 | 20h58

A expectativa é que a montadora mude a economia da cidade de 24 mil habitantes, com a chegada de empresas fornecedoras de peças e serviços e até de um hotel de bandeira internacional, empreendimento inexistente na cidade. O orçamento local, que este ano deve girar em torno de R$ 54 milhões, deve dobrar até 2018, “só com a fábrica da Mercedes”, prevê o prefeito Valmir Gonçalves de Almeida (PSD).

A busca por uma vaga na montadora movimenta moradores que querem escapar da sina de pais e avós de trabalhar com a cana. A empresa deve iniciar operações com 500 a 600 funcionários, mas planeja gerar mil vagas quando operar com capacidade produtiva de 20 mil carros por ano.

O Senai, que funciona em instalações provisórias, já formou 540 alunos num curso para montador de sistemas automotivos. Novas turmas serão criadas no próximo ano, quando será aberta uma unidade própria do Senai na cidade. Hoje, a coordenação do curso técnico é da filial de Limeira.

“Meu pai puxava cana para a usina”, conta Luis Henrique Dellariva, de 41 anos. Casado e pai de três filhos, está desempregado há quatro meses, após dois anos de trabalho numa fábrica de capacetes. A família se vira com o salário da esposa, funcionária de um escritório de advocacia. Trabalhar na Mercedes “é uma chance de subir na vida, por ser uma grande multinacional”, diz Dellariva. “O salário é bom e ainda tem os benefícios”, diz ele, que no último emprego recebia R$ 1,3 mil por mês. A Mercedes deve pagar cerca de R$ 1,7 mil.

O casal Lidervando Araújo Silva e Denivalda Dias Neri, ambos de 32 anos e desempregados, veem na multinacional “uma possibilidade de crescer e se desenvolver profissionalmente”, diz Silva. Ele foi operador de logística por sete anos e, enquanto aguarda uma vaga, faz bicos de cabeleireiro. Ela trabalhava numa autopeça.

Dar continuidade aos estudos e cursar uma faculdade é o sonho de Paulo Roberto Cardoso, de 31 anos. Ele perdeu o emprego em uma metalúrgica de Limeira em maio, “por causa da crise”. Por enquanto, se vira com bicos de pedreiro e personal trainer para ajudar a cuidar do pai, que está doente.

Aulas de alemão. “Sempre quis montar um carro e faço muitas pesquisas na internet sobre o tema”, conta Leandro Martinelli, de 30 anos, portador de necessidades especiais. “Tentei uma vaga na Hyundai, em Piracicaba, mas não consegui”. Atualmente ele trabalha como repositor de estoques em um supermercado e mudou o horário de expediente para poder fazer o curso de montador e se habilitar a uma vaga na Mercedes.

A montadora já contratou cerca de 200 funcionários. Entre eles está Ivete Aparecida de Almeida Campos, de 52 anos, cujo pai trabalhou na usina local por 20 anos. “Quero buscar novos cursos para crescer na empresa”, diz ela, contratada como inspetora de qualidade em setembro, depois de trabalhar por dez anos no comércio. Ela tem segundo grau e se inscreveu em um curso de inglês para o próximo ano. “Depois quero estudar alemão”.

Empregos. Ao contrário de quase todo o País, Iracemápolis registra, até novembro, saldo positivo de 407 postos de trabalho, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). No ano passado, em igual período, o estoque era de 30 postos negativos.

“A base da economia local é a usina de açúcar e álcool”, confirma o presidente da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Iracemápolis, Carlos José Fedato. A Usina Iracema, pertencente ao Grupo São Martinho, criada há mais de 70 anos, emprega 2 mil funcionários.

A própria área onde está a fábrica da Mercedes era um canavial. Com investimento de R$ 500 milhões, o grupo ergueu uma fábrica compacta e moderna, a terceira da marca alemã no País, que já produz caminhões e ônibus em São Bernardo do Campo (SP) e Juiz de Fora (MG). As obras estão em fase de acabamento na parte externa.

A fábrica iniciará operações com a produção do sedã Classe C (que custa a partir de R$ 143 mil) e, no segundo semestre, deve entrar em linha o utilitário GLA (hoje vendido a partir de R$ 129 mil).

Na cidade, os moradores conhecem apenas dois proprietários de modelos importados da Mercedes, um deles o empresário Paulo César Demarchi. Dono da fabricante de peças plásticas Iraplast, ele tenta obter contratos com a montadora. “Como filho de Iracemápolis, gostaria muito de fornecer para eles.”

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