"A esquerda mudou", diz assessor de Palloci

Quando desembarcou em Brasília, em março passado, para assumir o cargo de secretário internacional do ministério da Fazenda, o economista Luiz Awazu Pereira da Silva estava, na verdade, retornando ao País depois de uma ausência ? na origem, forçada ? de 36 anos. Luiz Pereira deixou o País depois da decretação do AI 5, em dezembro de 1968, com seus pais, dois eminentes cientistas perseguidos pela ditadura militar. Miya Awazu e Luiz Hildebrando Pereira da Silva, ambos médicos - ela também antropóloga, ele autoridade mundial em medicina tropical -, haviam partido pela primeira vez depois do golpe de 1964, quando Luiz tinha 7 anos. Voltaram em 1967, mas tiveram que ir embora novamente no ano seguinte. Terminados os estudos, que incluíram o bacharelado em economia e ciências políticas, mestrado em filosofia e doutorado em economia na universidade de Paris, Luiz trabalhou para os equivalentes na França do IPEA-IBGE antes de ingressar na carreira do Banco Mundial, onde começou cuidando de modelização macroeconômica. Depois de sete anos em Washington, encarou o desafio de ajudar na transição do primeiro governo do presidente Nelson Mandela, na África do Sul. Em 1996, aceitou um convite do governo japonês e passou quatro anos ? os anos da crise financeira asiática - trabalhando nos equivalentes do BNDES e da Fazenda em Tóquio. De volta ao Banco Mundial e a Washington em 2000, Luiz assessorou os dois últimos economistas-chefes do BIRD, o inglês Nick Stern e o francês François Bourguignon, que é, como ele, um especialista no estudo dos problemas sociais, especialmente a pobreza ? uma opção pouco usual entre economistas.Simpatizante de primeira hora do Partido dos Trabalhadores e amigo do senador Aloizio Mercadante, Luiz Pereira começou a ajudar a futura administração petista antes mesmo da eleição. Foi Mercandante quem o apresentou ao ministro Antonio Palocci, depois que Otaviano Canuto deixou a secretaria internacional da Fazenda, no final do ano passado, para assumir a diretoria-executiva do Brasil no Banco Mundial. Na Fazenda, suas funções englobam a facilitação das políticas econômicas do governo na área externa ao relacionamento do País com as instituições financeiras internacionais, a começar pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Inetrnacional. "Estamos construindo um relacionamento diferente e moderno", disse ele. "Essas instituições também estão evoluindo para programas de apoio ? e não de imposição com condições - a políticas nacionais decididas por nós mesmos, seja no âmbito macro ou micro". No momento, as discussões estão voltadas aos mecanismos de prevenção de crises no FMI. "O objetivo é diferenciar países que têm, como nós, bons fundamentos mas que podem ficar sujeitos a uma turbulência externa", disse. "Estamos também contribuindo para que as instituições internacionais sejam mais inovadoras no financiamento de políticas de desenvolvimento, saindo do tradicional financiamento de projeto e evoluindo para um apoio mais amplo, programático, a um conjunto de ações e políticas plurianuais".Ele citou o crédito de US$ 572,2 milhões que o BIRD aprovou na quinta-feira passada para o Bolsa-Família como exemplos das inovações no relacionamento nas áreas de competitividade macro e microeconômica. "Meu objetivo é contribuir para uma melhor compreensão e avaliação das oportunidades que representam uma inserção bem pensada do Brasil no mundo globalizado", disse Luiz Pereira ao Estado, em sua primeira entrevista desde que assumiu o cargo. "Esse é um dos temas que a esquerda precisa trabalhar mais". Esquerdista assumido, o economista não ignora os riscos da globalização. "Vivi na Ásia as conseqüências nefastas de uma liberalização do setor financeiro feita às pressas, que em determinadas circunstâncias pode exacerbar crises cambiais e bancárias. Mas a experiência de vários países indica também que a inserção bem conduzida propicia uma base mais sólida para o crescimento sustentável de longo prazo, um intercâmbio que facilita o aumento de produtividade e a difusão de inovações tecnológicas". Segundo ele, o difícil, do ponto de vista socio-político, é que perdas e ganhos não se dão simultaneamente. "A globalização ? eu prefiro o termo de inserção internacional? não é geralmente neutra do ponto de vista redistributivo no curto prazo", afirma. "É preciso ter consciência disso e organizar regimes de transição". Luiz Pereira usou uma gíria dos tempos que deixou o Brasil para descrever seu trabalho como membro da equipe de Palocci. "Muito legal", disse. "O ministro é para mim um exemplo para a esquerda moderna, além de ter uma grande sensibilidade humana". Ciente das disputas que dividem o governo e cuidadoso como seu chefe em suas declarações, o secretário completará sua mudança dos Estados Unidos para o Brasil em agosto, quando sua mulher, a francesa Patrícia, e os filhos Thomás, de 17 anos, e Sacha, de 13, chegarão a Brasília para ficar. Abaixo, os principais trechos da entrevista:Estado - O que mais pesou em sua decisão de voltar para o Brasil?Luis Pereira - Sou filho de exilados, mas sempre estive envolvido com o Brasil. E sempre tive uma enorme vontade de trabalhar diretamente para o meu país. Por isso, não hesitei em aceitar o convite do ministro Palocci. Acho que tudo o que vivi e as pessoas que encontrei pode ser útil ao nosso Governo. Vivi várias experiências de transição como economista e também militante. As transições são períodos nos quais muitas vezes percepção externa do país não é objetiva. A informação disponível para os analistas externos fica contaminada por preconceitos. Em 1993, muitos achavam que governo Mandela iria levar a Africa do Sul para a guerra civil, ou no mínimo causar uma grande crise economica optando por políticas macroeconomicas não-sustentáveis. Algo parecido com o que ocorreu aqui em 2002-2003. Nada disso aconteceu. O Ministro das Finanças Trevor Manuel comprometeu-se com um ajuste fiscal forte para corrigir exatamente o legado de irresponsabilidade fiscal do regime do Apartheid.O que mudou para permitir uma evolução posiiva, como na África do Sul? A esquerda mudou. Em geral, depois do período "heróico" dos anos 70-80, a esquerda moderna tem sido em todas as experiências de transição uma força responsável do ponto de vista macro e modernizadora/inovadora do ponto de vista micro. Isso foi a regra na França de Mitterrand, na Espanha de Felipe Gonzalez, na Africa do Sul como disse, e também na Itália, Alemanha, Reino-Unido, Coréia, etc. Estamos seguindo exatamente essa trajetória no Brasil. E estamos vendo que está dando certo, como deu certo em outros países. Depois de um período díficil de ajuste, estamos crescendo há 4 trimestres ? a taxas anualizadas acima de 3.5% -, com boas perspectivas para o final de 2004 e 2005 em termos de emprego, renda e um extraordinário fortalecimento de nossas contas externas. Em países em desenvolvimento, é talvez até mais importante demonstrar que uma transição política não é geradora de crise. Ao contrário, é o sinal de maturidade e estabilidade institucional que mais contribui para melhorar no longo prazo o nível do risco país.Depois de tantos anos longe do convívio diário, o Brasil que você encontrou era o que você esperava?Era, exatamente. Encontrei debates similares aos de toda transiçao, sobre grandes opções de política economica e social. O que me surpreendeu foi a modernidade e a sofisticação desse debate no Brasil. E isso está melhorando. Acho que estamos saindo de um debate conjuntural de curto prazo sobre ajustes no nosso "policy-mix" fiscal e monetário. Estamos incorporando na discussão a profunda mudança na compreensão que temos hoje dos processos socio-econômicos. Isto é fruto da reflexão acadêmica moderna em particular na economia. No passado, a esquerda formulou grandes idéias sobre os processos de desenvolvimento e o desenho de programas sociais. Veja os países europeus, o Japão, os países do antigo bloco soviético, Cuba, etc. onde os sistemas de proteção social, o investimento que se fez em educação e saúde, o papel do setor público foram essenciais para o aumento de produção e a estabilidade socio-política nesses países. O que permanece da herança das políticas econômicas da esquerda tradicional?É preciso ter orgulho dessa contribuição que, em boa parte, fez evoluir o pensamento das elites conservadoras nesses países. Essa generosidade, esse humanismo, é um traço distinto da esquerda que deve ser valorizado e relembrado. Mas é também necessário entender os limites dessas estratégias e por que elas perdem inexoravelmente seu dinamismo, seu potencial transformador e muitas vezes terminam mal. O grande progresso recente em economia vem da reflexão acadêmica sobre as questões de incentivos, informação, expectativas e instituições. Em outras palavras, quais serão os incentivos necessários para que os agentes individuais desempenhem certas funções positivas para a coletividade; como é que a informação disponível para cada agente economico afeta suas decisões; como é que o conjunto de instituições na sociedade cria condições para que haja previsibilidade e legitimidade nas decisões. Tudo isso deu vários prêmios Nobel, merecidamente, com o North, o Lucas, o Heckman, e o Stiglitz mais recentemente.Como isso influi hoje na formullação das políticas econômicas dos governo de esquerda? Não se pode fazer política econômica como antigamente, assim como fica difícil jogar futebol hoje do mesmo jeito que nossa grande seleção de 70 jogava. Essas contribuições dão respostas a muitas perguntas que a esquerda se faz sobre o porquê do fracasso de várias experiências de voluntarismo na area de políticas macro, industriais ou sociais. No passado, não entendíamos bem a microeconomia dos comportamentos sociais, nem nos preocupávamos muito com isso. Talvez não fizemos o esforço de estudar pacientemente o que se produzia de melhor nessa área acadêmica, como o próprio Marx fez com a literatura econômica da sua época por longos anos na biblioteca do British Museum. Tínhamos uma visão muito "macro-dirigista" da política economica, que atravessava todo o espectro político da esquerda até a direita e toda a filosofia do desenvolvimento, inclusive a do Banco Mundial. Bastava mandar fazer. Pois bem, uma economia de comando e controle em geral vai gerar agentes cuja produtividade vai baixar e onde a propensão para corrupção tende a aumentar. Além disso, se a economia é aberta, os agentes reagem aos desequilíbrios macro ou mesmo à possibilidade de turbulência: antecipam subida de preços, fogem com sua poupança para fora do país. Um governo de esquerda moderno tem que utilizar, na elaboração de suas políticas, o que se produz e pensa de melhor nas áreas macro e micro. Políticas que foram testadas empiricamente em várias circumstâncias e que deram certo. É exatamente o que está fazendo o Governo do Presidente Lula e em particular o nosso Ministro da Fazenda. Quais são essas políticas?Na área macro, é a determinação de preservar a estabilidade macro-institucional duramente conquistada. Sem isso não pode haver previsibilidade nas decisões de investir e o crescimento torna-se volátil e/ou insustentável. Nessa área não há muito o que inventar, sabe-se bem hoje o tipo de instrumentos a ser usado e sua arquitetura institucional: regime de cambio flexível com metas de inflação geridas por uma autoridade monetária responsável, e ortodoxia nas finanças públicas. Penso aliás, que responsabilidade fiscal deve ser uma bandeira assumida pela esquerda no mundo todo. É a esquerda que é zelosa da preservação da renda real dos mais pobres e que deve combater as aventuras e o casuismo dos lobbies particulares que nunca olham a economia com uma visão de equilíbrio geral ou seja, para o bem de todos. Do lado micro, é o desenho de incentivos para investidores e de políticas sociais modernas. Alerto para a riqueza e complexidade da nossa agenda de reformas micro, incentivando o empreendedorismo, a formalização nas relações trabalhistas e a micro-empresa. Do lado social, a modernidade vem na adoção de programas que facilitam e incentivam a integração produtiva dos indivíduos. É claro que as demandas sociais também vão progressivamente ser solucionadas com o maior crescimento do emprego e da renda. Mas estamos sobretudo melhorando as características incitativas do nosso gasto social, que passará a ser mais bem direcionado. Agora, em nenhum momento perdeu-se de vista que um dos nossos objetivos de política econômica, através do fortalecimento do crescimento sustentável, é a redução da pobreza e da desigualdade. Mas a modernidade nos programas sociais vem de privilegiar o fornecimento de oportunidades para famílias, trilhando caminhos abertos por outro Nobel, o Amartya Sen,- e não mais a antiga ótica puramente assistencialista. Mas percepção externa é que o crescimento da economia brasileira não atingirá seu potencial porque um pedaço do Governo está minando, sobretudo no lado micro e regulatório, a boa política macro.Discordo. Claro, temos problemas de longo prazo para aumentar nosso produto potencial, mas isso não se deve ao Governo. Precisamos investir mais, em capital físico e humano. Mas em geral o grau de coordenação no Governo é bom e está aumentado à luz dos nossos resultados. Estamos dando certo! É muito estranho achar que depois de todo esse esforço de ajuste, que está agora dando bons resultados, haveria retrocessos para outro tipo de política. O que está acontecendo é o fruto de um trabalho coletivo, mesmo se, às vezes, a comunicação não é perfeita. Em relação a capacidade gerencial do nosso governo, acho que não é nem mais nem menos problemática do que o que acontece em qualquer transição política. Mais uma vez, vi e vivi isso na França e na Africa do Sul. Qualquer sociedade que deseja melhorar a sua solidez institucional de longo prazo tem que aceitar esses pequenos custos, que, na verdade, são investimentos para que o conjunto de seus quadros tenham o mesmo grau de preparo e experiência. A verdadeira democracia é isso.Na área externa, o rumo da política econômica é claramente o da abertura e da integração. Mas as resistências internas, no próprio governo, estão evidentes. Como isso vai evoluir?Sou otimista. Acho que, na área externa, vivemosuma revolução cultural, fruto em parte dos benefícios de um regime cambial flexível. O Brasil obteve um crescimento exceptional de suas exportações recentemente. Mas o que acho importante é que isso está mudando a nossa cultura empreendedora para um reconhecimento do papel positivo da integração comercial. E também está fornecendo um quadro bem mais estável para as expectativas de mercado sobre a taxa de câmbio: a volatilidade diminiu sensivelmente e isso é bom para a percepção do investidor externo. Isso tudo não é mais "manchete", entrou na normalidade! Mas mesmo assim não estamos satisfeitos. O Governo está trabalhando em conjunto para melhorar a nossa inserção no mundo global, em várias áreas. Queremos aumentar nossa competitividade através de uma série de reformas para a diminuição dos custos para o investidor doméstico e externo, melhorando o marco regulatório, o que reduz incertezas. As ofertas melhoradas em serviços e investimentos que fizemos nas negociações com a União Européia refletem o empenho do governo em políticas que aumentem nossa eficiência e produtividade, com uma política industrial focada para a inovação tecnológica e a redução do custo de capital no país. Estamos trabalhando para encontrar boas parcerias bilaterais, que aumentem o nosso potencial exportador. O Presidente foi a China, onde há uma demanda forte por parcerias no financiamento de projetos que vão diminuir alguns dos nossos problemas logísticos. Mas queremos sobretudo aumentar o acesso do Brasil a outros mercados. E fazemos uma avaliação realista sobre a importância da Europa e dos Estados Unidos, os grandes mercados do mundo. Daí o nosso interesse das negociações comerciais multilaterais e bilaterais com a União Européia e na Alca.

Agencia Estado,

20 de junho de 2004 | 17h42

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