A estranha boa saúde da moeda europeia

O euro, a moeda comum europeia, é uma moeda animada. Ela sobe, sobe.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2011 | 00h00

Todos os países da Europa, com exceção da Alemanha, estão ofegantes.

Eles tossem, cospem sangue e, de vez em quando, sofrem uma síncope (Grécia, Portugal, Irlanda). Com esse quadro clínico, o euro devia degringolar. Mas não degringola. Ele está cada vez mais alegre, forte e animado. Melhor: ele ganha da maioria das outras moedas. Eis que ele vale US$ 1,44 ou até US$ 1,45. O fato é que, de janeiro para cá, ele se valorizou 8,5% ante o dólar.

Os europeus estão orgulhosos dessas façanhas. Ao mesmo tempo, eles sabem que esse triunfo é duvidoso. A saúde do euro é uma catástrofe para as exportações. Todos os produtos europeus são penalizados na exportação por essa moeda gloriosa. Somente a Alemanha não sofre, mas a Alemanha, ora, a Alemanha.

Pode-se ao menos dizer que essa desvantagem na exportação é compensada por uma baixa no custo dos produtos importados? Sim. Nestes tempos em que o petróleo chega às alturas, o euro forte reduz o custo do petróleo para a Europa.

Mas os especialistas são unânimes: os inconvenientes do euro forte estão longe de ser compensados pela redução na conta dos hidrocarbonetos.

Eis por que os teóricos da economia estão arrancando os cabelos. Eles já não compreendem mais nada. Este continente é cada vez mais um Velho Continente. Ele se esfalfa para subir uma ladeira. Mas sua moeda galopa à frente. Mais extraordinário ainda: esse embelezamento monetário ocorre no momento em que a União Europeia dá, a cada dia, novos sinais de esgotamento.

Primeiramente, no campo econômico. Mal a Europa decidiu salvar Portugal, que caminhava para o abismo, eis que lhe trazem um novo paciente de urgência: a Grécia, que no ano passado estaria morta se a Europa não a tivesse revivido, sofreu uma recaída. Ela poderá entrar em default. A menos que a Europa a entube novamente para ajudá-la a respirar.

E não é só a economia. Quando França e Inglaterra quiseram organizar uma coalizão para uma missão de socorro na Líbia, a maioria dos outros europeus permaneceu sentada, aplaudindo com sorriso amarelo e dizendo: "Mais tarde veremos". Quando a Itália ficou ensandecida com a chegada à ilha de Lampedusa de milhares de imigrantes tunisianos, o restante da Europa virou a cabeça. A França, ensandecida com a ideia de que esses imigrantes pudessem vir para a França, fechou a fronteira com a Itália no último domingo. Felizmente, o presidente francês Nicolas Sarkozy, que já engajou o país em duas guerras em dois meses (Líbia e Costa do Marfim) estava ocupado demais no domingo. Ele não encontrou um minuto do dia para bombardear Roma.

Dois outros sinais: a Finlândia, que pertence à União Europeia, votou no domingo e deu maioria a um partido "populista extremista", que viola de A a Z todos os princípios da União Europeia.

Pior ainda: a Hungria acaba de se dotar, sob o comando de seu primeiro-ministro, Viktor Orban, de uma nova Constituição que espezinha todas as regras do estado de direito: censura, xenofobia, fim da previdência social, etc, o que é teoricamente incompatível com a própria União Europeia. E o que Bruxelas vai fazer? Nada. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.