A estratégia de reação do Carrefour

Gigante francesa do varejo deve acelerar em 2015 o processo de diversificação de sua atuação no País com a abertura de lojas compactas, a reforma de hipermercados e o retorno ao e-commerce; movimento pode incluir aquisição de redes regionais de supermerca

FERNANDO SCHELLER E MÔNICA SCARAMUZZO, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2015 | 02h05

Depois de passar quatro anos colocando a casa em ordem por causa de um escândalo de má gestão descoberto na operação brasileira em 2010, o gigante francês Carrefour deverá promover este ano sua mais agressiva expansão no País em pelo menos uma década. Para 2015, a meta da varejista é acelerar a reforma de hipermercados e aberturas de lojas de vizinhança. O grupo também avalia fazer aquisições regionais para acelerar o processo de expansão, segundo apurou o 'Estado'.

A estratégia é diversificar as operações seguindo os passos de seu principal concorrente no Brasil, o Grupo Pão de Açúcar. Atualmente, cerca de 60% das receitas do Carrefour Brasil, que somaram R$ 37,9 bilhões em 2014, vêm da operação de atacarejo, o Atacadão, segundo fontes (a matriz não revela a divisão do faturamento por negócio). O restante das vendas está basicamente concentrado nos hipermercados, modelo considerado decadente por especialistas em varejo. "Este modelo está sendo revisto no mundo todo, e no Brasil não é diferente", afirma Gildas Aitamer, analista da consultoria alemã Planet Retail.

O objetivo do Carrefour no Brasil é ampliar a rede de supermercados compactos e lojas de proximidade, que ainda têm presença tímida na rede. Dentro deste plano de ação, o grupo francês ganhou um aliado de peso: o empresário Abilio Diniz, ex-dono do GPA, que se tornou sócio minoritário da operação brasileira em dezembro, com a compra de 10% de participação.

O empresário brasileiro comandou o processo de diversificação do Pão de Açúcar a partir do fim dos anos 90, com a entrada do Casino na sociedade. Junto com o novo sócio, criou um grupo multiformato, com atuação em alimentos, eletroeletrônicos e forte presença na internet. Em 2014, o GPA faturou R$ 65,5 bilhões, sendo R$ 34,7 bilhões com varejo alimentar e R$ 30,8 bilhões com as divisões Via Varejo (Casas Bahia e Ponto Frio) e da CNova, que reúne os negócios de e-commerce da companhia.

Mudanças. O processo de correção de ineficiências do Carrefour Brasil - iniciado após um prejuízo de R$ 1,2 bilhão com fraudes contábeis - ainda está em curso. Entre as melhorias já implementadas estão a modernização do sistema de tecnologia da informação, reformas de hipermercados, agilização do atendimento e a revisão do mix de mercadorias oferecido ao consumidor.

As mudanças já renderam frutos - tanto que as vendas do Carrefour cresceram mais do que a da concorrência. No quarto trimestre de 2014, o Carrefour registrou alta de 10% nas receitas em relação ao mesmo período do ano do anterior, enquanto o Pão de Açúcar avançou só 1%, diz Guilherme Assis, analista do Banco Brasil Plural. Um executivo de uma rede rival chega a elogiar o trabalho do Carrefour: "Houve claros avanços".

A partir deste ano, a ordem na rede é intensificar consideravelmente o trabalho já iniciado. Até agora, o Carrefour reformou 18 de seus 102 hipermercados. O Estado apurou que, até o fim de 2016, mais 42 lojas serão renovadas. Além disso, a empresa deve retomar no fim de 2015 a operação de e-commerce, encerrada em 2012. Outro plano é abrir o capital da filial brasileira quando o cenário econômico ficar mais favorável.

Embora tenha decidido investir em lojas compactas, a avaliação é de que essa transformação ainda é embrionária: até agora, a varejista abriu só quatro unidades de seu modelo de conveniência no Brasil. A rede Supeco, espécie de versão "mini" do Atacadão, resume-se a uma loja em Sorocaba (SP).

A intenção de retomar as compras de redes regionais, citada por fontes de mercado, é vista como uma forma de agilizar o cumprimento das metas de expansão. O Estado apurou que o Carrefour deverá se associar a redes regionais de peso, elevando sua participação aos poucos.

O desafio, segundo um executivo do setor consultado pela reportagem, é não repetir os erros do passado. Nos anos 90, o Carrefour entrou na onda de aquisições do setor - comprou as fluminenses Rainha e Continental e as mineiras Planaltão e Mineirão -, mas a estratégia não rendeu frutos. A empresa se desfez da maioria dos negócios. No entanto, lembram fontes, foi uma aquisição - a do Atacadão, em 2007 - que manteve a rede em pé nas dificuldades. O modelo do Atacadão, considerado vencedor no Brasil, deverá ser replicado em outros países. Deve ir parar até na matriz francesa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.