A estratégia empresarial brasileira nos EUA de Trump

Está aberta a “temporada” de transição no governo dos EUA. No Poder Executivo, mais de 4 mil cargos comissionados serão substituídos. No Legislativo, iniciam-se articulações para composição de comitês e comissões. Mais de 10% dos congressistas eleitos iniciarão seu primeiro mandato. Na Suprema Corte, paira a incerteza sobre quem substituirá o juiz Antonin Scalia, que faleceu no início do ano. Embora as promessas estridentes da campanha de Donald Trump tenham dado lugar a um discurso mais suave após as eleições, as prioridades do país refletirão o estilo polêmico de gestão desta administração.

Antonio Josino Meirelles Neto, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2016 | 05h00

Pelo menos 40 grandes multinacionais brasileiras têm operações nos EUA. São mais de US$ 117 bilhões em ativos expostos a esse ambiente de negócios, empregando pelo menos 72 mil pessoas em operações espalhadas em mais de 35 Estados e centenas de distritos eleitorais. Com cautela, é importante acompanhar algumas dinâmicas do novo governo que podem influenciar os negócios brasileiros no mercado americano.

O radicalismo de Trump sobre acordos comerciais pode estar se atenuando, mas ainda gera incertezas em empresas brasileiras que contam com a rede de acordos em vigor (e em negociação) dos EUA. No curto prazo, é provável a intensificação de medidas de defesa comercial (sobretudo contra a China), amparadas por legislações aprovadas pelo Congresso neste ano e também pela crescente influência de defensores desses mecanismos, como o senador Chuck Schumer (D-NY), agora líder da minoria democrata na Câmara.

Alavancar o investimento em infraestrutura é um ponto de convergência no Congresso. Apesar de a cadeia de infraestrutura nos EUA contar com a proteção de regras de conteúdo local Buy America, futuros investimentos nessa área devem atender à demanda de filiais brasileiras por melhores condições de logística rodoviária e ferroviária. Trump também promete reduzir o peso dos tributos sobre o setor produtivo, mas quer revisão das regulamentações sobre o setor financeiro em implantação desde 2009 pelo Dodd-Frank Act, regras que afetam empresas brasileiras cotadas na bolsa, por exemplo. Na EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA), Trump quer simplificar processos, mas tem apoio para desestruturar políticas de combate à mudança do clima, como o Clean Power Plan, que limita as emissões do setor de energia. O Brasil deve ficar atento aos mandatos da EPA sobre combustíveis renováveis, constantemente ameaçados pelo lobby do petróleo.

O cenário demanda engajamento do setor privado nas relações com Washington.

Primeiro, é importante reforçar o contato com as esferas da administração que definem a pauta de política comercial dos EUA. O posicionamento claro do setor empresarial sobre a relevância da parceria comercial e dos diálogos em curso, como o Diálogo Comercial Brasil-EUA, é fundamental para conquistar espaço nas agendas em construção da nova administração.

Segundo, expor ao Congresso a contribuição do comércio e dos investimentos bilaterais para geração de empregos nos EUA. Um terço dos Congressistas da Flórida – Estado com densa presença de empresas brasileiras e que tem o Brasil como principal parceiro comercial – é de “novatos”. O conhecimento sobre assuntos de interesse do Brasil por lideranças do Congresso – como o republicano Devin Nunes (R-Califórnia), membro do Brazil Caucus e, agora, da Equipe de Transição – beneficia a aproximação bilateral.

Terceiro, após uma campanha eleitoral que atacou acordos e o sistema multilateral de comércio, o setor privado brasileiro precisará engrossar o coro de think tanks e associações capazes de disseminar a realidade sobre o papel central do comércio internacional na prosperidade da economia dos EUA e de seus parceiros.

É hora de demonstrar constância nas relações com Washington. A chegada da nova administração demanda proatividade do setor privado na construção de uma visão de longo prazo sobre as relações com os EUA.

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