Imagem Renato Cruz
Colunista
Renato Cruz
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A ética da transparência

Marshall McLuhan previu, em meados do século passado, muitas das coisas que acontecem hoje. O teórico da comunicação canadense morreu em 1980, quase uma década antes da web. Apesar disso, já falava no fim da privacidade.

Renato Cruz, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2014 | 02h04

"Todas as paredes vão cair", dizia McLuhan a Derrick de Kerckhove, seu assistente durante a década de 70. Posteriormente, de 1983 a 2008, Kerckhove dirigiu o Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia, na Universidade de Toronto.

Ainda não existia o mundo digital em que vivemos hoje, e McLuhan acreditava que a eletricidade acabaria com a privacidade. "Eu discordava dele e dizia que ainda éramos capazes de manter silêncio sobre as coisas", afirmou Kerckhove, em entrevista por telefone. "McLuhan dizia que não, que era como um tsunami: você pode nadar, mas não vai servir para nada."

Segundo Kerckhove, professor belga, o próprio Mark Zuckerberg, criador do Facebook, disse recentemente que a privacidade acabou, e pareceu surpreso com isso. "Eu não me surpreendi."

Uma das expressões da moda do setor de tecnologia é big data. Muito discutido, mas ainda pouco usado, o conceito significa combinar bancos de dados diversos, estruturados (como os cadastros de clientes em uma empresa) e não estruturados (como as publicações nas redes sociais), para tirar deles novos significados, saber sobre pessoas e empresas mais do que mostra um conjunto isolado de informações.

As redes digitais de telecomunicações e a big data acabaram por terminar o trabalho iniciado pela eletricidade, como havia identificado McLuhan. Nesse cenário, como os indivíduos podem proteger sua privacidade de governos e grandes empresas? "Não podem", respondeu Kerckhove, que participa, no dia 26 deste mês, do evento IT Forum/Black Hat Brasil, em São Paulo.

O professor propõe o que ele chama de ética da transparência. No lugar de tentar proteger sua privacidade com criptografia e senhas, que acabam quebradas cedo ou tarde, as pessoas deveriam passar a exigir dos governos e das empresas a mesma transparência a que suas vidas estão expostas.

"A ética da transparência é muito rigorosa", explicou. "As pessoas precisam mudar massivamente. Se nos tornamos transparentes, o que acontece com nossas responsabilidades fundamentais? Precisamos sentir orgulho de pagar os impostos, e não orgulho de não pagá-los. Nosso governo será limpo, porque precisará mostrar para todo mundo suas ações. Se queremos evitar a tirania, temos de votar em governos que aceitem transparência simétrica e igualitária."

Kerckhove não vê o fim da privacidade como ameaça. "É a solução para um problema que vai piorar antes de melhorar." Ou seja, é melhor se acostumar com o fato de estar sendo observado.

Tudo o que sabemos sobre:
Economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.