A Europa pede ajuda ao Brasil

As reuniões entre Brasil e União Europeia sempre têm sido inúteis. Esta que se realizou em Brasília não foi só inútil, foi engraçada (resisto bravamente à tentação de dizer "ridícula"). Sabem qual é a novidade? No fundo, a comunidade europeia veio pedir que o Brasil importe mais para ajudá-la a sair da crise. Sim, é isso mesmo. O Brasil deve importar mais e exportar menos para ajudar os 27 países da União Europeia, que estão às voltas com uma nova crise, mesmo sem terem saído do clima de recessão. Não é justo? Afinal, eles estão crescendo apenas 0,2% e nós 7%. É nossa obrigação ajudá-los.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, em artigo publicado no Estado na quinta-feira, invocou a "responsabilidade" do Brasil na nova conjuntura mundial. Temos de importar mais não só da Europa, mas dos EUA também. Não deixa de ser engraçado. Logo nós, com o peso do déficit das contas externas e um real supervalorizado diante do euro e do dólar. Acho que eles andam conversando muito com o pessoal do Itamaraty, que apregoa o nosso gigantismo em assuntos internacionais.

É essa a nova tese que ele e seu colega, o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, defenderem em Brasília. Para eles, a prioridade é conseguir estabilizar as contas. O crescimento, virá depois. Enquanto isso, Brasil, China e Índia deveriam ajudá-los. Vocês não acham que é o delírio? Ah! Eles também se queixam da alta dos preços das commodities, que exportamos. Querem fiscalizá-los.

Acordos? Que acordos? E os acordos comerciais, prometidos há mais de dez anos e que deveriam ter sido o tema principal da reunião? O Brasil tem pressa, reclamou Lula. "A pressa é a melhor maneira de fracassar. Estamos negociando", respondeu Van Rompuy. Como não ter pressa? Sabe ele por acaso que as primeiras negociações de cooperação com a União Europeia começaram há 15 anos? Sim, quando foi assinado um acordo quadripartite no contexto do Mercosul. Este colunista estava lá. Viu. Foi iniciativa do embaixador Jorio Dauster. A coluna registrou. As ditas "negociações comerciais"começaram há dez anos, no ano 2000! Os europeus se desinteressaram logo porque a genialidade da diplomacia brasileira acabou com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), lançada por Bush em 1990 e liquidada por este governo. Sem a ameaça da Alca, do imenso mercado dos países da América do Norte, por que se preocupar com o Brasil?

Os confrontos ideológicos do Brasil com os EUA só estimularam os europeus a nos esquecer. Lembraram de nós, agora, porque precisam do nosso mercado, crescendo a 10% ao ano.

Agora não vai. Mais curiosa é a declaração de Durão Barroso que, em julho de 2007, decidiu "o estabelecimento de uma parceria estratégica com o Brasil". Essa parceria foi declarada solenemente em Lisboa, com a presença de Lula. Na oportunidade, a coluna afirmou que eram só palavras, promessas que a UE não cumpriria, como não cumpriu.

Acordos, sim, com outros. Uma prova desse desinteresse é que nos três últimos anos em que passamos a ter uma "parceria estratégica", a Europa avança rapidamente em acordos bilaterais... na Ásia. Há oito meses, a Comissão Europeia e a Coreia do Sul assinaram um entendimento de liberalização praticamente total (99%) das tarifas mútuas de importação nos próximos cinco anos. Bruxelas estima que os ganhos para os dois países será de 36 bilhões. É o segundo maior acordo da história, depois do Nafta (EUA-Canadá-Mexico), em 1975, de US$ 1 trilhão. A União Europeia está tão entusiasmada. Pretende fazer acordos com a Índia e mais dez países que fazem parte da Associação das Nações do Sudeste Asiático. Com eles, tem pressa...

E o Brasil? Ora, eles não têm pressa. Somos o parceiro cordial, que se queixa muito mas aceita tudo.

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