A Europa perdeu terreno

ANÁLISE: Gilles Lapouge

O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h05

Em visita a Estrasburgo, o papa Francisco disse que a Europa "envelheceu" e "perdeu seu vigor". Ela declina. Não se pode esconder nada desse Soberano Pontífice. Há dez anos todos percebem que a Europa, principalmente depois da invenção do euro, vem desfalecendo, perde terreno em relação a todos os outros continentes. O paralelo entre a Europa e os Estados Unidos mostra isso: nos dois trimestres passados, enquanto os Estados Unidos cresceram 4,6% e 3,9%, a zona do euro avançou apenas 0,1% e 0,2%. Algo assustador. E irrefutável.

No entanto, com o risco de ser considerado um amigo do paradoxo, e embora eu não seja minimamente indulgente em relação à União Europeia, tenho a impressão de que hoje a Europa tem motivos para esperar uma saída suave da crise.

De fato, podemos destacar três elementos inéditos. O primeiro é a desvalorização do euro, particularmente depois da reunião dos presidentes dos bancos centrais em agosto, em Jackson Hole, que facilitou, sob a batuta americana e graças ao acordo do Banco Central Europeu (BCE), uma desvalorização da moeda.

Lembremos que um dos numerosos inconvenientes do euro foi o fato de proibir a este ou àquele país uma desvalorização. A rigor, a Grécia, por exemplo, deveria ter desvalorizado sua moeda de 30% a 50%, há cinco anos. Como fazia parte da zona do euro, ela não pôde fazê-lo e esta foi sua tragédia. Hoje, entretanto, assistimos a uma desvalorização disfarçada, não de uma moeda nacional mais frágil do que as outras (as moedas nacionais deixaram de existir) e, sim, da "moeda comum". Uma desvalorização de cerca de 10%.

Segundo elemento favorável: a queda persistente dos preços do petróleo, que deverá consolidar o efeito da depreciação do euro e castigar as exportações. E não é tudo. O presidente do BCE, Mario Draghi, anteriormente de uma postura tão rígida, mudou de estratégia no dia em que declarou que é preciso salvar o euro, "custe o que custar", e designou como inimigo público "número 1" da Europa não a inflação, mas a deflação (como no Japão).

E, finalmente, o último elemento: a Comissão de Bruxelas, guardiã da ortodoxia orçamentária, mostra-se indulgente, e exige severa disciplina dos 28 países-membros, o que ameaça estrangular as economias mais enfraquecidas. Mas tudo deixa supor que, por trás dessa intransigência de fachada, destinada antes de mais nada a acalmar os "pruridos de austeridade" de madame Merkel, a comissão se mostrará flexível em relação aos países que violarem a regra "dourada" dos 3% de déficit. Estes são os elementos que deixam crer que, embora a posição da Europa continue difícil, devemos constatar que esse continente debilitado está decidido a mudar algumas regras para não permitir ser deixado excessivamente para trás pelas economias rivais. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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