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'A Europa precisa de uma reforma estrutural'

Para Prêmio Nobel, essas reformas tornam mais flexível a economia, atraindo investimentos internos e externos

Entrevista com

Michael Spence

FERNANDO DANTAS, ENVIADO ESPECIAL / DAVOS, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2015 | 02h05

A Europa precisa acrescentar reformas estruturais ao afrouxamento quantitativo, anunciado na quinta-feira, se quiser voltar a crescer, disse Michael Spence, Prêmio Nobel de Economia, em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, durante o Fórum Econômico Mundial.

Spence está confiante na recuperação dos Estados Unidos e prevê que a taxa de juros americana comece a subir em meados deste ano. Quanto ao Brasil, ele acha que a presidente Dilma Rousseff perdeu um pouco o equilíbrio entre as agendas de distribuição e crescimento, mas pode estar reajustando esse equilíbrio agora. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O novo programa de afrouxamento quantitativo na zona do euro vai resolver o problema da Europa?

Acho que o retorno da economia europeia ao crescimento sustentado e à criação de emprego será desafiante. O melhor cenário é provavelmente esse afrouxamento quantitativo do qual os alemães não gostam, que enfraquece o euro de certa forma - isso não é o que eles estão dizendo - e mantém a taxa de juros baixa e torna a vida um pouco mais fácil para as partes mais endividadas da zona do euro, principalmente em termos de dívida soberana. Agora, o lado ruim é que eles podem achar agora que podem administrar a dívida, que podem sempre contar com isso, o que não é uma boa ideia.

Por quê?

Há um monte de outras coisas que têm de acontecer. Eu vivo na Itália. Nós realmente temos de reconfigurar o sistema fiscal, a previdência está nos matando. Há pouco espaço fiscal, o investimento do setor público vai acabar sendo expulso. E nós temos de fazer reformas estruturais para tornar a economia mais flexível, ou não seremos capazes de atrair investimentos, tanto interno quanto externo.

Qual a saída para a região?

A visão alemã, com a qual eu tendo a simpatizar, é de usar o espaço fiscal com reformas estruturais. Se houver investimento público, há dois retornos. Um é que a gente tem o estímulo imediato, e podemos financiá-lo hoje a juros muito baixos. Em segundo lugar, temos o efeito de reforço do crescimento, pela elevação do retorno do investimento do setor privado. Mas em algumas partes da Europa, se você não tiver as reformas estruturais, você tem a parte do estímulo inicial e um aumento na dívida do setor público. Mas você não conseguirá o segundo efeito, ou ele será muito pequeno.

O sr. poderia dar um exemplo?

A China, na fase pós-revolução e pré-reformas, tinha níveis relativamente altos de investimento do setor público, mas o desempenho econômico era horrível. E então, com as reformas, eles mais ou menos abandonaram a economia centralmente planificada, permitiram que os mercados - não de um dia para o outro, mas de forma razoavelmente rápida - assumissem uma boa parte da alocação de recursos, e começaram o processo de abertura para a economia global. Eles tinham altos níveis de investimento do setor público, mas sem impacto no crescimento. Foi quando adicionaram as outras peças é que começaram a crescer a 9%. Acho que é similar na Europa. Nós deveríamos usar o espaço fiscal para investimento, mas o retorno desse investimento será muito maior se, simultaneamente, num monte de países que precisam disso, forem feitas reformas estruturais.

O sr. está confiante em relação à recuperação dos EUA?

Estou razoavelmente confiante, mesmo não achando que os EUA estejam crescendo com todo o seu potencial. Há desafios em conseguir combinar o lado de capital humano do mercado de trabalho com o da demanda, porque a demanda está se movendo rapidamente, como resultado da tecnologia e da globalização. E a demora em fechar essa defasagem vai nos desacelerar. Por outro lado, há aspectos bastante sólidos. A economia se desalavancou, os bancos estão recapitalizados, o consumidor está se sentindo um pouco mais confiante, o setor residencial não está nem de longe onde esteve, mas está razoavelmente estabilizado. Acho que há uma recuperação sólida.

Como o sr. vê a situação do Brasil, que cresce pouco?

O Brasil está recebendo alguns ventos contrários, mas tem grande potencial. O desempenho de crescimento mais recente tem sido desapontador. Eu não entendo completamente, o Brasil sempre consegue ser um mistério. O País cresceu a mais de 7% ao ano por 25 a 30 anos no pós-guerra e então parou. Não é incomum que um país na etapa de renda média desacelere, mas uma parada virtualmente total por 20 anos não é comum. Eu não tenho conhecimento suficiente para dizer quais são as razões. Meus amigos brasileiros e eu concordaríamos em algumas coisas. A primeira é que a taxa de investimento brasileira é muito baixa, e a do setor público também. Então acho recomendável alguma reconfiguração do espaço fiscal para aumentar o espaço do investimento público, além de remover impedimentos ao investimento do setor privado. E o País não deve se voltar demais para si mesmo.

Como assim?

O Brasil ocasionalmente, em vez de administrar os termos de troca, se fecha, isso geralmente é uma má ideia. Por outro lado, não há nada errado em tomar ações defensivas contra políticas monetárias dos países ricos muito incomuns - tem gente que é contra, mas acho essa posição uma loucura. Você tem de lidar com o mundo no qual vive. E acho que o Brasil ocasionalmente deixou o câmbio ficar muito valorizado, em função dessas políticas monetárias de outros países. Não é minha especialidade, mas acho que há mérito em manter continuidade em termos da competitividade do setor exportador, em vez de o câmbio ficar saltando de um nível para o outro em função de seja lá o que for que está movendo o mercado global de capitais. Outra coisa que é um pouco misteriosa é porque o custo do capital é tão elevado no Brasil.

Como o sr. vê o fim do superciclo de commodities e os efeitos em emergentes como o Brasil?

Os mercados de commodities de forma pouco sábia apostaram em taxas de crescimento da China que, considerando que é um país na transição de renda média, jamais se manteriam. Então acho que os mercados de commodities, e o de capitais em volta deles, ficaram com preços irrealistas, que agora caíram. Tendo dito isso, tudo é consertável por um governo que mantenha um equilíbrio razoável entre preocupações sociais e a agenda do crescimento.

Os governos brasileiros não vêm mantendo esse equilíbrio?

Acho que (os presidentes) Cardoso e Lula fizeram isso muito bem e Dilma perdeu um pouco o caminho e, provavelmente, está reequilibrando isso.

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