Jeff Chiu/AP
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A fábula do unicórnio

Uma badalada startup de análises clínicas começou a despertar dúvidas sobre a viabilidade de seu negócio

The Economist

04 de novembro de 2015 | 05h00

“Primeiro acham que você é louca, depois atacam você, e aí, de repente, você muda o mundo”, disse recentemente Elizabeth Holmes, fundadora e CEO da Theranos. Se pretende mudar o mundo, Holmes terá de mudar a opinião das pessoas. Na última quinzena, ela foi alvo de uma série de reportagens negativas, motivadas pela suspeita de que a tecnologia de análises clínicas de sua empresa não faz tudo o que diz fazer.

A Theranos é um dos mais badalados unicórnios (startups de capital fechado que valem mais de US$ 1 bilhão) do Vale do Silício. A companhia pretende revolucionar o mercado de exames de sangue, que, só nos Estados Unidos, movimenta US$ 75 bilhões por ano. Uma recente injeção de US$ 400 milhões em investimentos elevou seu valor implícito para US$ 9 bilhões. No início de outubro, pouco antes de começarem a pipocar as manchetes ruins, Holmes, uma moça de 31 anos que talvez seja a mais jovem mulher a ficar bilionária às próprias custas, apareceu na capa da revista Inc.: vestia uma blusa polo preta, de gola rolê, ao lado da chamada: “A próxima Steve Jobs”.

Opiniões mudam rápido – às vezes nem dá tempo de fazer um furinho no dedo. À capa da Inc. sobreveio, algumas semanas depois, uma matéria publicada no Wall Street Journal, em que se dizia que a Theranos exagerava o alcance e a confiabilidade de sua tecnologia. O entusiasmo inicial com a empresa de Holmes estava relacionado com sua suposta capacidade de realizar grande variedade de exames laboratoriais com apenas algumas gotas de sangue, dispensando a coleta de amostras maiores com agulhas padrão. A companhia prometia também que seus exames seriam mais baratos e práticos e que dispensariam pedidos médicos. No entanto, o Wall Street Journal diz em sua reportagem que os exames da Theranos não são confiáveis, e revela também que a empresa realiza apenas alguns deles com seus próprios aparelhos, recorrendo à tecnologia de outras companhias para executar a maioria de suas análises laboratoriais.

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A Theranos traz uma questão central do Vale do Silício: startups com valor atrelado a fantasias sobre seu potencial
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Holmes disse que a matéria do jornal era “inverídica” e defendeu a confiabilidade dos exames da Theranos. Não foi o suficiente para arrefecer a onda de ceticismo. As desconfianças aumentaram em 27 de outubro, quando a Food and Drug Administration (FDA, agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos) divulgou relatórios sobre inspeções que conduziu na startup de Holmes, acusando a companhia de distribuir “um equipamento laboratorial que não foi submetido a aprovação prévia”. Havia ainda outras objeções, como a de que a empresa carecia de um sistema adequado para responder a reclamações. Em paralelo, a gigante do setor farmacêutico GlaxoSmithKline, para a qual a Theranos diz ter realizado exames, declarou que há dois anos não faz negócios com a startup.

É possível que a Theranos esteja apenas enfrentando mais reveses do que esperavam os observadores, e que, com o tempo, sua tecnologia se desenvolva o suficiente para justificar o valor fabuloso atualmente atribuído à empresa. Toda startup se depara com dificuldades, sobretudo em segmentos muito regulamentados, como o de saúde. Algumas executivas do setor de tecnologia questionam se um rapaz que estivesse tentando revolucionar um segmento de atividade seria alvo de tantas críticas quanto Holmes. Mas, se as alegações se mostrarem verdadeiras, é muito pouco provável que a avaliação da Theranos volte a alcançar os níveis imponentes vistos até agora.

Exceção. Sob vários aspectos, a Theranos é uma empresa incomum no setor de tecnologia. Constituída há doze anos, depois de Holmes abandonar os estudos na Universidade de Stanford, a companhia não levantou capital junto aos atores que costumam apostar em startups nas áreas de medicina e tecnologia. Entre os fundos de capital de risco mais importantes, só o Draper Fisher Jurvetson investiu na empresa; no que foi acompanhado, entre os nomes mais conhecidos, apenas por Larry Elison, um dos fundadores da gigante de TI Oracle. Vários de seus investidores são figuras menores, sem expertise conhecida no setor. Seu conselho de administração conta com a presença dos ex-secretários de Estado George Shultz e Henry Kissinger, mas dos oito assentos restantes, só dois são ocupados por indivíduos com formação na área de medicina. A idade média dos membros do conselho beira os 76 anos.

No entanto, as dúvidas em relação à Theranos traz à baila uma questão que se tornou central no setor de tecnologia: startups que prometem revolucionar determinadas atividades lucrativas e que passam a ter seu valor calculado menos com base na realidade do momento do que em fantasias sobre seu potencial. É tamanha a ansiedade dos investidores em adquirir uma participação em toda e qualquer startup promissora que aparece no pedaço, que acabam caindo na conversa fiada dos empreendedores – e os que fazem perguntas inconvenientes arriscam-se a serem excluídos da rodada de captação, sendo substituídos por indivíduos mais crédulos.

Isso ajuda a explicar a atual inflação dos valores atribuídos a empresas de tecnologia de capital fechado. Contam-se hoje 142 unicórnios, mais que o triplo do número existente em 2013. Muitas dessas startups vêm crescendo em ritmo acelerado. Mas, em termos de lucratividade, frequentemente ficam muito atrás das concorrentes que têm ações em bolsa, cujo lugar elas pretendem ocupar; e, em razão disso, vão queimando prodigamente seu capital. A Theranos, por exemplo, ao que tudo indica ainda não gerou receitas ou lucros significativos, mas é avaliada em pé de igualdade com o laboratório de análises clínicas Quest Diagnostics, que no ano passado teve faturamento de US$ 7,4 bilhões e lucros líquidos de quase US$ 600 milhões.

Muitos unicórnios escapam do escrutínio de analistas e investidores, pois não têm obrigação de divulgar números sobre seu desempenho nem relatórios a respeito do estágio de desenvolvimento de suas tecnologias. Como não precisam se preocupar com as flutuações nos preços de suas ações, os fundadores dessas empresas podem manter o foco no longo prazo, mas isso também lhes permite fazer pouco caso de olhares perquiridores. Mais cedo ou mais tarde, porém, o rebanho cada vez maior de criaturas fabulosas do Vale do Silício terá seu encontro com a realidade. Se as promessas não se concretizarem, o valor dessas startups despencará, seja na próxima rodada de captação de investimentos, seja quando finalmente resolverem abrir seu capital. Pode haver derramamento de sangue.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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