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A falsa lição de Trump

Mais proteção provocará choque de ineficiência em indústria estagnada no Brasil

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2017 | 08h04

Em 2015, segundo dados do Banco Mundial, o Brasil, com corrente de comércio (exportações mais importações) equivalente a 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB), era o quarto país mais fechado do mundo, entre aqueles em que foi possível obter o dado, perdendo apenas para Argentina e Nigéria, com 20%, e para o conflagrado Sudão, com 11,9%.

De 1980 até hoje, a produtividade brasileira do trabalho cresceu a uma média de apenas 0,6% ao ano. É um ritmo pior do que o da produtividade dos Estados Unidos, que significa na maior parte dos casos a fronteira da eficiência, que teoricamente um país em desenvolvimento como o Brasil quer alcançar. Quer dizer, em vez de convergir, estamos nos afastando.

Qual a relação entre as duas constatações acima, sobre a corrente de comércio e a produtividade? Para muitos economistas, as duas têm tudo a ver uma com a outra.

Um grau maior de abertura ao comércio internacional aumenta a eficiência produtiva de um país principalmente por dois canais. O primeiro é a pressão competitiva exercida tanto no mercado doméstico pelos produtos importados, como sobre as exportações que tentam ganhar fatias maiores no comércio internacional. As empresas nacionais não podem se acomodar na muralha do protecionismo, e são obrigadas a buscar formas mais baratas e inovadoras de produzir.

O segundo canal é o acesso dos fabricantes nacionais aos melhores e mais baratos insumos e bens de capital disponíveis no mercado global, que permitem que se produza com menor custo bens de maior qualidade.

Agora, porém, o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, iniciou uma estridente política protecionista, com o objetivo declarado de fortalecer a economia americana. Já se ouvem, no Brasil e em outros países em desenvolvimento com viés protecionista, comentários de que Trump, em que pese sua reprovável postura anti-imigrante e hostil a diversas minorias, tem razão em defender o “interesse nacional” no caso das medidas para fechar o mercado americano.

Essas vozes vão aumentar de tom caso, como é possível, nada de muito errado ocorra nos Estados Unidos a curto e médio prazos com o protecionismo de Trump. A economia americana está decolando e a proteção, que é inflacionária, pode até ajudar o país a sair definitivamente da zona de risco de deflação (do tipo japonês, que freia sistematicamente a atividade econômica).

Além disso, como já observado, os Estados Unidos estão na fronteira da produtividade em inúmeros setores. A proteção, como no caso brasileiro, pode no longo prazo reduzir a eficiência dos segmentos que mais dela se beneficiarão, mas é possível que esse efeito demore a fazer cócegas na fabulosa máquina produtiva americana.

No caso brasileiro, adicionar mais proteção num país emergente já muito fechado, e com políticas protecionistas como as de conteúdo nacional, é uma má ideia que terá impactos mais fortes e mais rápidos. O principal será o de provocar mais um choque de ineficiência numa indústria que está estagnada num nível de produtividade muitíssimo inferior ao das nações que se destacam no comércio global.

Adicionalmente, como observa a economista Sandra Rios, do Cindes, um “think tank” de comércio internacional, há o risco de se criar pressões inflacionárias no momento em que o Banco Central, com muito esforço, vem conseguindo trazer o IPCA para a meta de 4,5%.

Sandra reage com cautela à ideia de que o protecionismo de Trump pode abrir oportunidades ao Brasil no jogo de xadrez do comércio global.

“Para o mundo como um todo será ruim, e para nós especificamente só terá um lado bom se agirmos efetivamente para aproveitar as oportunidades”, ela diz. A agenda é clara. Há o acordo entre o Mercosul e a União Europeia e o do Brasil com o México, país que vem sendo escorraçado por Trump. O fundamental é entender que abrir é do interesse nacional.

 

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