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A fazenda de boas idéias de Randon

Empresário lucra com maçãs e agora vai investir mais em vinho

Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

O empresário Raul Anselmo Randon toma pílulas para dormir. Aos 78 anos, o gaúcho não pega fácil no sono porque sua cabeça ainda ferve de novas idéias. A Randon, empresa que criou com o irmão, em 1949, não lhe traz insônia há tempos: ela é uma das maiores fabricantes mundiais de retroescavadeiras, reboques, caminhões especiais e autopeças, deve faturar R$ 3,5 bilhões neste ano e acaba de ter seu melhor semestre da história. Nos últimos anos, essa criatividade vai toda para uma fazenda produtora de maçãs, queijo parmesão, uvas, mudas de videiras, soja, porcos e biogás que o empresário mantém em Vacaria, cidade da região nordeste do Rio Grande do Sul.A agricultura entrou na vida do empresário no final da década de 70, numa pequena aventura, depois levada a sério com o irmão e um grupo de amigos. Por quase 30 anos, ele só plantou maçãs. Hoje a Rasip Agro Pastoril é uma das cinco maiores produtoras e exportadoras da fruta no País e fatura quase R$ 50 milhões. Os outros produtos apareceram de dez anos para cá, quando o empresário passou a dar mais atenção ao campo.Randon diz que não tem mais idade para transformar o negócio em uma potência do porte da empresa que leva seu sobrenome, mas também não pára de inventar projetos nada modestos e com tecnologia de ponta. O mais novo é o vinho.O empresário já produzia uvas e fabricava a bebida em parceria com a Miolo. Agora, ele vai aumentar exponencialmente a produção de frutas e construir uma vinícola na própria fazenda.''''No começo, eu só queria fazer um vinho para comemorar minhas bodas de ouro, mas a Miolo quis fazer mais garrafas e eu fui tomando gosto pela brincadeira'''', diz Randon, entre um gole de vinho e outro de café com leite em pó, na varanda de sua aconchegante casa de campo. ''''Em cinco anos, vai dar para fazer 1,6 milhão de litros por safra. O vinho vai virar um negócio de verdade.''''Trata-se de uma mudança importante de patamar. A primeira safra de uvas ocupava uma área de apenas três hectares e deu 27 mil garrafas no ano de 2002, todas saídas na vinícola da Miolo, em Bento Gonçalves. A plantação já subiu para os atuais 30 hectares, mas cobrirá uma área de 200 hectares até 2012.PONTO TURÍSTICOA mais nova empreitada, que inclui a compra de terras e construção da vinícola, vai consumir R$ 15 milhões. ''''A cantina também vai ser um ponto turístico para quem passa pela BR-116 (que liga o sul ao norte do País). Também vou vender meus queijos e as maçãs'''', diz Randon, que conhece a bebida mais na prática que na teoria.O vinho RAR (iniciais do empresário) não custa barato para os padrões nacionais (cerca de R$ 50 no site da Miolo), tem produção limitada a 50 mil litros e é feito com uvas merlot e cabernet sauvignon, cultivadas a mil metros de altitude na microrregião dos Campos de Cima da Serra, próxima à fazenda das maçãs.Nessa nova etapa, a intenção é usar outras variedades na produção. ''''Raul é um empresário inovador. Ele não quer aquilo que os outros já fazem. Na produção de vinhos, a grande inovação é plantar uva numa nova região brasileira, mas de grande potencial'''', diz Alexandre Hoffmann, chefe-geral da divisão de uvas e vinhos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). ''''Como o lugar é mais frio e a colheita acontece até 45 dias depois da de Bento Gonçalves, a uva acumula mais açúcar e dá mais corpo e mais cor ao vinho.''''Como todo empresário da Serra Gaúcha, região famosa pela gente contida nos gastos, Raul Randon não costuma fazer nada para perder dinheiro. Na fazenda, qualquer negócio tem de dar lucro e qualquer investimento é feito com recursos gerados pela própria produção. ''''Nós não podemos ficar só com maçãs. Para dar dinheiro, o negócio tem de ser grande. Maçã dá trabalho, é um negócio instável'''', diz Randon. Para gente criativa como ele, diversificar acaba virando passatempo. ''''Seu Raul tem idéias demais. Todo dia ele aparece na fazenda com uma nova'''', diz Andrelise Guarnieri, que trabalha no marketing da Rasip.A Rasip não tem o porte da Randon dos equipamentos pesados, mas até que avançou bem para algo que começou sem grandes pretensões. É uma empresa lucrativa, com ações negociadas na Bovespa desde 1998 e 500 funcionários - nas colheitas de maçã esse número sobe para 1.500. Randon (como pessoa física) ainda planta soja, vende mudas de videiras e cria porcos para a Perdigão. ''''Ele não se lança em aventuras. Seus projetos são muito focados no mercado e em tecnologia'''', diz Hoffmann, da Embrapa. Randon, um entusiasta das pesquisas, é parceiro da Embrapa há mais de 30 anos.EMOÇÃORandon tem uma ligação emocional com o campo. Os avós italianos, com quem morou aos dez anos de idade, faziam vinho nos fundos de casa. ''''A minha mãe sempre teve uma vaquinha no quintal'''', lembra. Desde pequenos, Raul e os três irmãos ajudavam a ordenhar e a alimentar os animais.O empresário tem origem humilde. Começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, na oficina do pai.Carismático e de hábitos simples, Randon circula pela sua propriedade de quase 700 hectares de botina, calça jeans e boina. Sua casa é espaçosa, mas em nada lembra os casarões das fazendas de café e cacau do Brasil do começo do século passado. É discreta, de tijolo à vista e construída não muito longe das casinhas de madeira dos empregados. A piscina aquecida, desenhada pelo próprio Randon, e a TV de plasma são os raros sinais de luxo do lugar.O único executivo da família que toca a Rasip é o genro de Randon. Duas vezes por semana, ele dá expediente na fazenda. Os filhos não gostam tanto do campo quanto o empresário. Se não tem compromisso social em Caxias do Sul - ele é praticamente uma celebridade na cidade gaúcha -, Randon fica na fazenda nos fins de semana com a mulher e (às vezes) os cinco filhos, netos e sobrinhos.Ali, ele mistura lazer e negócios. O empresário faz churrascos e joga baralho, acompanha a produção de queijos e de maçãs, faz reuniões com executivos, vê TV e até dorme. Pelo menos, é bem melhor que na cidade. ''''Só acordo com o barulho do trem, que passa aqui dentro da fazenda'''', brinca.

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