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A FERRARI assume seu lado FAMÍLIA

Com modelo hatchback, grife ícone dos carros esportivos tenta aumentar os lucros

Liz Alderman, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2011 | 00h00

A Ferrari amarela faz uma forte curva na estrada e dispara pela faixa de asfalto. Os pneus soltam fumaça. O V-8 ronca. O velocímetro chega a alcançar 140 km/h. O piloto reduz a velocidade e faz uma curva fechada. É isso que os amantes da Ferrari chamam de "sexo sobre rodas".

Na pequena cidade italiana de Maranello, as Ferraris correm velozes pela pista da empresa, conhecida como Circuito de Fiorano. Este é o centro do mundo da Ferrari, um local sedutor e misterioso que às vezes parece desafiar a lógica do setor automotivo convencional. É um local de motores barulhentos e curvas sinuosas onde os engenheiros não só ajustam os motores, mas também os afinam, como pianos, para produzirem aquele ruído libidinoso. E onde os executivos hoje estão tentando ser um pouco práticos - ou pelo menos o que se acredita ser prático neste mundo exclusivo.

Assim, prepare-se: a Ferrari está fabricando um hatchback (com três ou cinco portas). Mas não é um carro comum. Com uma parte dianteira como uma cobra e motor de 660 cavalos, seu preço inicial é de 260 mil .

Luca Cordero de Montezemolo, chairman da companhia, diz que o carro, conhecido como FF, é para aquele homem que sonha com uma Ferrari, mas precisa transportar um assento para bebês ou equipamentos esportivos nos fins de semana.

"A Ferrari costuma ser um carro que você mantém na garagem, tira para polir e exibir, e coloca de volta na garagem", disse o chairman Montezemolo, 63 anos, enquanto leva visitantes para um tour na sede da Ferrari. "Hoje as pessoas querem fazer mais com um carro", concluiu.

Variedade. Oferecer um hatchback - com o estilo Ferrari - faz parte da estratégia de sobrevivência, implementada por Montezemolo, de uma companhia cujo nome é sinônimo de poder, status e da própria Itália há mais de 60 anos. Começou quando Sergio Marchionne, diretor executivo da Fiat, que detém 85% da Ferrari, insistiu para a Ferrari, e a sua marca irmã, a Maserati, buscarem mais lucros e vendas por meio da oferta uma variedade mais ampla de carros.

Quando Marchionne elevou a participação da Fiat na Chrysler para 51%, ele também sugeriu uma eventual oferta pública inicial de ações da Ferrari, o que poderia impulsionar a empresa a uma maior lucratividade.

Mas a Ferrari é mais do que carros e lucros; seu argumento de venda é o prestígio - e o apelo sexual, cuidadosamente calibrados na economia do alto luxo.

Viajando de carro do aeroporto de Bolonha, você sabe dizer imediatamente quando chega no reino da Ferrari. Num instante, o que se vê são carros pequenos, atarracados, na maior parte modelos Fiat - percorrendo as estradas estreitas que serpenteiam pelo interior da região. Então, repentinamente, o ruído dos motores irrompe em meio aquele silêncio idílico, e uma leva de carros esportivos passa por você, voando pelas curvas numa explosão de cores.

Essas máquinas acabaram de sair da fábrica após um processo de nascimento que durou quatro meses, fruto de uma encomenda feita por cada uma das 200 revendedoras Ferrari no mundo. Depois que as carrocerias brilham com uma camada tripla de tinta, os trabalhadores instalam os painéis feitos sob encomenda, os assentos costurados à mão e as transmissões que permitem ao motorista mudar as marchas no estilo da Fórmula 1, com o toque de uma alavanca.

O segredo de qualquer Ferrari é o som do seu motor, cujo poder é representado por um cavalo empinando, um símbolo exibido num avião da 1a.Guerra Mundial pilotado por um italiano. Para intensificar a mágica do motor, Luca Cordero Montezemolo reúne-se com os executivos da alta direção numa fábrica secreta três anos antes de o modelo chegar aos showrooms. Ali eles escolhem o som do motor, de uma lista preparada de sons compostos com a ajuda de um músico. Um protótipo é criado em torno do som escolhido, e os homens reúnem-se novamente numa sala à prova de som, para julgar se a escolha foi boa. Se o motor alcança a nota fundamental certa, o carro é aprovado para produção.

Imagem. O primo mais pragmático do modelo Itália, o hatchback FF, começará a ser entregue para os clientes este mês. Embora constitua menos de 10% da produção total, para alguns fiéis da Ferrari o carro e seu traseiro curvo são um sinal de que a Ferrari está brincando com a sua imagem.

Luca Cordero Montezemolo prefere cultivar a exclusividade da Ferrari, limitando a produção e respeitando as listas de espera, de um ano, muito à maneira como uma casa de moda de luxo como a Hermès cria o desejo por uma bolsa. Para isso, a Ferrari vende apenas quatro modelos Ferrari, incluindo os FF, e fabrica cerca de 6.500 carros por ano, controlando o número vendido em cada país.

Para analistas, a Ferrari pode facilmente aumentar suas vendas, bastando produzir mais. A produção da Ferrari "é nada num mercado de 60 milhões de carros", disse Ferdinand Dudenhöffer, diretor do Centro de Pesquisa Automotiva na Alemanha. "Isto é moda", afirma Montezolo. "Não vendemos carros. Vendemos sonhos".

Quando quer sentir a brisa e deixar as coisas para trás, ele embarca numa Ferrari Califórnia conversível, azul e cinza, em vez da Ferrari vermelha. Ele e sua mulher têm agora um filho de oito meses, o sexto.

Para ele, a praticabilidade e o sex-appeal não são mutuamente exclusivos. O FF pode ser um hatchback, diz ele, mas com um motor de 660 cavalos que pode transportar uma família e toda a bagagem para um hotel na montanha em pouco tempo, "é um carro de corrida, não um sedã".

Até agora, seus instintos compensaram: todos os 800 FF a serem produzidos este ano foram vendidos em questão de semanas, apesar do seu preço inicial de 260 mil e um período de espera de pelo menos um ano. /TRADUÇÃO: TEREZINHA MARTINO

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