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A festa da bolsa

Até agora, a forte alta do Ibovespa foi alimentada por investidores locais

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 04h00

Desde que o Ibovespa, principal índice do mercado acionário brasileiro, bateu marcas históricas acima dos 100 mil pontos, a dúvida é se esse otimismo é passageiro ou se as condições dos mercados doméstico e global já abrem espaço a um maior fluxo de recursos sustentado para a Bolsa.

Até o momento, a forte alta registrada pelo Ibovespa foi alimentada, sobretudo, por recursos de investidores locais, que começaram a apostar cedo - logo após a eleição do presidente Jair Bolsonaro - na aprovação da reforma da Previdência.

Os estrangeiros, mais céticos e esperando percalços na tramitação do projeto no Congresso, ficaram à margem do rali no Ibovespa, que acumula alta ao redor de 15% em 2019. Mas uma confluência de fatores deve dar um empurrão no apetite para risco pelos investidores globais, beneficiando ativos de mercados emergentes.

Segundo João Scandiuzzi, estrategista global do BTG Pactual Wealth Management, há, no momento, tanto fatores específicos de atração de capital externo por países emergentes, quanto de incentivo para a saída de capital das economias desenvolvidas em busca de maior retorno em ativos de risco, como ações.

Entre os fatores específicos de atração de recursos para países emergentes, ele cita políticas de estímulos ao crescimento da China ou, no caso do Brasil, avanço na tramitação da reforma da Previdência. Já entre os fatores que favorecem a saída de capitais de economias desenvolvidas, o mais importante, no momento, é a adoção de uma política monetária mais frouxa pelos bancos centrais mais importantes.

Nas últimas semanas, o temor de uma desaceleração mais forte da economia global, desencadeado pela escalada da tensão comercial entre Estados Unidos e China, levou muitos bancos centrais a cortar juros ou a sinalizar que vão injetar estímulo monetário adicional via redução de taxas ou compra de ativos. Nos EUA, os investidores apostam em três cortes de juros neste ano. Além disso, é crescente o número de países, em particular os da zona do euro, onde os juros se encontram em território negativo.

Até o último dia 20, por exemplo, 38,7% (o equivalente a US$ 9,29 trilhões) dos títulos públicos de países desenvolvidos eram negociados com taxas negativas, bem acima da parcela de 25,9% que operava com juros negativos em agosto de 2018 e próximo do pico de 39,9% registrado em junho de 2016.

“A principal implicação da dinâmica dos mercados globais de renda fixa é que os investidores precisam buscar alternativas mais rentáveis de investimento”, diz Scandiuzzi.

Os títulos emitidos por empresas de países desenvolvidos com classificação de risco de grau especulativo, papéis de renda fixa em moeda local de países emergentes e ações em bolsas de valores estão entre essas alternativas, em meio ao ambiente de maior liquidez global e de baixa rentabilidade.

Também a esperada redução da taxa Selic pelo Copom deve provocar uma mudança radical na tradicional postura do investidor brasileiro. Há desde apostas de redução dos juros básicos, atualmente em 6,50%, em 0,75 ponto porcentual até um corte de 1,5 ponto, levando a Selic para 5,0%.

“Historicamente, o investidor brasileiro sempre tratou os fundos DI como uma classe de ativos, e uma classe que merecia uma grande fatia de sua carteira de investimentos ao combinar retornos elevados, baixo risco e liquidez diária”, afirma Scandiuzzi. “Com os juros em patamares bem mais baixos e com perspectiva de queda adicional, implicando ganhos reais bem mais baixos que o padrão histórico, fundos DI tendem a ser vistos como instrumento para gestão de liquidez e não mais como uma classe de ativos onde o investidor busca rendimentos elevados.”

Há ainda outros fatores que favorecem maior espaço à migração para renda variável dos investidores brasileiros. Apesar dos sucessivos recordes de alta do Ibovespa neste ano, a alocação em ações pelos fundos de investimentos acompanhados pela Anbima, por exemplo, atingiu em abril a parcela de 10,8% do patrimônio total desses fundos, bem abaixo do patamar observado em dezembro de 2010, de 18,1%.

Os fatores técnicos podem até sinalizar um fluxo maior na Bolsa, mas ainda pairam riscos que podem estragar a festa, como a desaceleração da economia global se transformar em recessão ou se a reforma da Previdência passar bem mais aguada do que se espera e frustrar um crescimento maior do PIB.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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