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A forasteira Direcional avança no Norte

A construtora mineira encarou a distância e o clima e hoje fatura com o boom da região

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

Manaus tem 1.802.525 habitantes. Os últimos três dígitos são de mineiros levados para lá pela Direcional Engenharia, construtora de Minas que fez do Norte do País seu principal mercado. Essa é uma tarefa complicadíssima numa cidade em que construtoras de fora não conseguem ir além do segundo empreendimento. Por isso, quem chega costuma se associar a companhias locais. A Direcional, de Ricardo Valadares, é a única forasteira na capital amazonense.

Mineiro de Bom Despacho, ele desembarcou pela primeira vez em Manaus em 1981. Foi a passeio. "Parecia a Ciudad del Este", lembra. Duas décadas depois, Valadares voltou à cidade, à convite da Superintendência da Zona Franca de Manaus, para apresentar sua proposta a um empreendimento imobiliário que nenhuma outra empresa aceitou tocar, assustadas com a burocracia. Valadares topou.

Ele conseguiu enxergar na região mais do que um clima ingrato, dificuldades logísticas e falta de mão de obra especializada: "construir em Manaus é como construir na África", costumam dizer os empresários locais para espantar os concorrentes. De junho a novembro faz 40 graus na sombra. Nos seis meses seguintes, chove sem parar. A principal rodovia, a BR-319,é praticamente intransitável. As balsas, meio de transporte para equipamentos e insumos usados na construção, ficam pelo caminho quando os rios secam. Esse combinado encarece as obras em até 30%, segundo o sindicato da construção civil local, o Sinduscon-AM.

Diante de tantos nós, o engenheiro decidiu se concentrar em fatos mais animadores. Naquela época, enquanto o PIB nacional encolhia, o da região já crescia 10% ao ano. "Era uma cidade totalmente diferente da que conheci. Me apaixonei", lembra.

Mas não basta gostar de Manaus para conseguir ganhar dinheiro na cidade. Valadares também não sabia se seria capaz de lucrar com os novos projetos - até ter a primeira conversa com executivos da Honda, multinacional com fábrica instalada na região desde a década de 70. "Com todos os empecilhos, descobri que eles mantinham na cidade uma das unidades mais eficientes do planeta, com mão de obra própria e bônus por produtividade. Na hora, eu quis ser uma Honda."

Hoje, das 7,1 mil unidades lançadas pela Direcional em oito Estados brasileiros, de janeiro a setembro, 74,6% estão no Norte. São 16 canteiros de obra no Amazonas, contra seis em Minas Gerais, berço da empresa. E há outro detalhe: um dos fortes da construtora mineira, desde sua fundação nos anos áureos do Banco Nacional de Habitação (BNH), é erguer imóveis para a população de baixa renda.

Zero a três. Poucas construtoras de grande porte têm se arriscado a construir para famílias com renda entre zero e três salários mínimos, faixa menos rentável do programa Minha Casa, Minha Vida. Aí está mais uma excentricidade da Direcional: 30% do faturamento vêm desse nicho de mercado. "Eu só queria saber como é que ele consegue ganhar dinheiro", brincou o executivo de uma grande incorporadora nacional. Valadares não conta tudo, mas dá uma pista.

Todos os 9 mil funcionários, de gerentes a peões, são contratados diretos da Direcional. Assim, a empresa corre menos riscos de sofrer com a falta de mão obra, justifica o empresário. A economia vem da agilidade da obra. Os prédios são construídos com fôrmas de alumínio - uma tecnologia que funciona como uma fôrma de bolo: as placas são encaixadas e depois preenchidas com concreto, permitindo a velocidade de construção de um pavimento por dia. Com alvenaria convencional, seriam necessários quatro dias a mais.

Nesse caso, os operários viram montadores, o que exige uma equipe menos qualificada e com salários menores. "Controlamos homem por homem", diz Valadares. À frente do treinamento desses funcionários e do comando das obras, estão mineiros da Direcional. Nesse fim de ano, a empresa vai oferecer apartamentos com mais de 30% de desconto para a equipe migrante, com a intenção de mantê-la na região.

"Construir para a baixa renda exige coragem", costuma dizer Valadares. "E um bom lobby com políticos locais", acrescenta um concorrente da Direcional em Manaus. Para colocar de pé esses empreendimentos, as construtoras e incorporadoras desenvolvem projetos em terrenos públicos e precisam de apoio da administração municipal para levar infraestrutura até os condomínios, geralmente localizados em regiões que ainda não foram urbanizadas.

Bons contatos e eficiência não teriam levado a Direcional a ser uma das líderes de vendas no Norte do País se a empresa não estivesse com o caixa reforçado. A construtora perdeu o "timing" para fazer a oferta inicial de ações (IPO) junto com as outras grandes empresas do setor, entre 2007 e 2008, mas recebeu naquele período um aporte de R$ 250 milhões, por 25% das ações, do fundo de private equity Tarpon. A construtora acabou sendo a última do segmento a negociar ações na Bolsa - o IPO foi em novembro do ano passado, com uma capitalização de mais R$250 milhões. Por que demorou tanto? "É que é difícil chegar dinheiro aqui em Minas, minha filha. Primeiro vai tudo para São Paulo", explica o presidente, com o sotaque carregado.

A condição de retardatária no mercado de capitais não impediu que a Direcional estivesse hoje entre as mais valiosas do setor, à frente de empresas imobiliárias que entraram na Bolsa muito antes dela. "A empresa consegue manter uma margem líquida interessante, mesmo trabalhando em segmentos difíceis como é a baixíssima renda e a região Norte", diz David Lawant, da corretora ItaúBBA. "O único problema ainda é a falta de liquidez das ações."

"Menino brilhante". Ricardo Valadares prefere o canteiro de obra às reuniões engravatadas com investidores. Já passou a função ao filho, conhecido na empresa como "Ricardinho" - sucessor do pai no comando. Aos 29 anos (na Direcional desde os 20), Ricardo é assunto garantido em qualquer conversa de Valadares sobre a empresa. "Não é porque é meu filho, não, mas é um menino brilhante", diz, para introduzir o episódio de que mais se orgulha de contar.

Quando se formou em engenharia, na década de 70, Valadares recebeu um prêmio por ter conquistado a melhor média da turma. Em 2004, na formatura do filho, na mesma universidade, entregou o "troféu" a Ricardinho. "Ele conseguiu se sair ainda melhor do que eu", diz, sem modéstia. "É brilhante."

Por enquanto, Ricardinho é subordinado ao pai e a mais um executivo contratado recentemente pela Direcional: Roberto Senna, vindo da Odebrecht depois de três décadas na companhia. Os dois costumam acompanhar Valadares nas viagens de quatro horas em jatinho executivo feitas a cada 15 dias a Manaus. As visitas frequentes à cidade garantiram ao mineiro uma homenagem: até o fim do ano, Valadares vai receber dos deputados locais o título de cidadão amazonense.

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