A fórmula do lucro da popular MRV

Com estilo austero e planejado de gastos, construtora se tornou a segunda maior do setor em valor de mercado

Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

23 de junho de 2008 | 00h00

Duas vezes por semana, o engenheiro Rubens Menin, 52 anos, visita alguns dos 170 canteiros de obras da sua empresa, a MRV Engenharia, espalhados em 60 cidades do País. Quando está no seu escritório, em Belo Horizonte, acompanha a construção pelo computador. Com ajuda de um sistema, ele consegue dizer o quanto cada obra gasta diariamente com cimento, aço, telhas, azulejos, cerâmica e por aí vai. Se o consumo de alguns dos materiais fica acima do planejado, o sistema acusa na hora. "Quem não mede, não gerencia", costuma repetir Menin, quase como um mantra.Graças a esse estilo de gastos austero e planejado, a MRV, especializada em imóveis populares, tornou-se a segunda maior empresa imobiliária em valor de mercado, atrás apenas da Cyrela - ela vale cerca de R$ 5 bilhões na Bovespa. A construtora, uma das últimas a estrear no pregão, já entrou para o IBrX, o índice das 100 ações mais valorizadas da Bolsa. Acaba de receber ainda o rating brAA- pela Standard & Poor?s, nota que só havia sido dada à Cyrela até então no mercado imobiliário brasileiro.A nota foi atribuída à futura emissão de debêntures da MRV de até R$ 1,3 bilhão, anunciada no começo do mês. E, ao contrário da maioria das empresas do ramo que abriu capital no ano passado, a construtora ainda tem dinheiro em caixa - cerca de R$ 300 milhões. O novo capital vai financiar o plano agressivo de crescimento da companhia daqui para a frente. Seu objetivo é lançar 40 mil unidades apenas em 2009, volume que ela levou toda a sua história (28 anos) para alcançar. "A MRV criou três padrões básicos de construção, que usa poucos fornecedores. Com isso , ganhou escala e uma agilidade de construção muito acima da média do mercado", diz Eduardo Chehab, analista da Standard & Poor?s. Antes de abrir o capital, a MRV foi assediada por algumas das maiores construtoras do País. Com uma delas, o negócio ficou perto de ser fechado. Agora, o jogo inverteu. A MRV está mais para compradora do que para vendedora, embora Menin não acredite que seu crescimento será feito por aquisições. Seu faturamento deve ultrapassar R$ 1 bilhão neste ano, segundo cálculos de analistas."A habitação popular tem tecnologia muito própria. Entre as empresas que estão pedindo para serem compradas, eu não vejo nenhuma que agregue isso", diz o empresário, um dos novos bilionários da bolsa brasileira. "Fazer uma associação com outra grande está fora de questão agora. Não queremos mais ter uma empresa de A a Z. A idéia hoje é mergulhar cada vez mais na base da pirâmide." A MRV caiu nas graças do mercado porque tem se mostrado uma das empresas mais lucrativas do setor imobiliário. Nesse quesito, perde para poucas, como JHSF e Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário, voltadas principalmente para o público de alta renda. Suas margens foram superiores às da Tenda e Rodobens, duas das suas principais concorrentes. "No Brasil, as margens da construção popular são tradicionalmente mais apertadas", diz o coordenador do núcleo de real state da Poli/USP, João Rocha Lima Júnior. "A MRV chama a atenção de qualquer maneira. No setor como um todo, os sistemas de gerenciamento são, em geral, muito frágeis. Os maiores problemas são perda de produtividade e desperdício", completa.Essa cultura é uma herança dos tempos de crise. Em 1982, a empresa que Menin criou com seus dois primos foi a única voltada para a baixa renda que sobreviveu no mercado de Belo Horizonte. "Havia 16 empresas no ramo. Hoje, a MRV existe em função disso", relembra o empresário. Quatro anos mais tarde, a construtora se capitalizaria com o Plano Cruzado. Foi quando ela lançou a carteira própria de financiamento, que durou até 1994. Hoje, boa parte dos imóveis é financiada pela Caixa Econômica Federal, o que deixa a companhia menos endividada, mas também mais vulnerável às mudanças econômicas do País.DISCURSONo road show, período de apresentação da empresa que precede a abertura de capital, a filosofia de custos era o tema principal do discurso de Menin. Ele conta que foi difícil convencer as centenas de investidores que era possível ter lucro vendendo para o povão. Até aqui, a MRV não decepcionou o mercado. Suas ações sofreram em alguns momentos, mas chegaram a se valorizar até 40% em outros.Os funcionários que aderem a essa cultura ganham com isso. Hoje, 123 empregados têm ações da companhia. Cerca de R$ 500 milhões (11% da empresa) já estão nas mãos deles.

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