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A França cansa a Europa

PARIS - A França começa a cansar a Europa. E, na Europa, mais precisamente, os fiscais de Bruxelas encarregados de verificar se os Estados membros respeitam as regras contidas no tratado fundador do Pacto de Estabilidade.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2014 | 02h11

Uma destas regras diz respeito à dimensão dos déficits públicos. Os países comprometeram-se a não deixar que estes déficits ultrapassem 3% do Produto Interno Bruto (PIB). No ano passado, o presidente da França, François Hollande, explicou aos "senhores" de Bruxelas que, antes de mais nada, ele precisava saldar a herança calamitosa das contas do seu predecessor, Nicolas Sarkozy, e que portanto merecia indulgência. Bruxelas concordou. A França obteve o direito de registrar um déficit igual a 3,6% do seu PIB em 2014. Por outro lado, em 2015, ela terá de cumprir o que se espera dela, ou seja, fazer com que seus déficits públicos voltem para 3% do PIB.

Bruxelas confiou em Paris. Todo mundo pôde dormir tranquilo.

Principalmente a França. Afinal, a palavra da França era de ouro, não havia por que se preocupar. Ela cumpriria suas promessas.

Hoje, porém, descobrimos uma verdade extraordinária: a palavra da França não é de ouro, mas de chumbo. Não vale nada. Os fiscais de Bruxelas pegaram suas calculadoras e revelaram a terrível verdade: em 2014, o déficit da França será de 4% do seu PIB. E em 2015, ainda será de 3,9%.

O que exaspera os comissários de Bruxelas é a desenvoltura de Paris.

São tomadas as devidas resoluções. Fazem-se juramentos, anúncios mirabolantes, e em seguida, tudo é esquecido. Outro exemplo dessas promessas mentirosas. Ao chegar ao poder, dois anos atrás, Hollande anunciou aos franceses que o desemprego começaria a baixar no fim de 2013, promessa regularmente reiterada. Mas no dia 31 de dezembro, tivemos de constatar que o desemprego, longe de diminuir, longe mesmo de se estabilizar, continuava aumentando. E como aumenta a um ritmo um pouco menos rápido em relação a um ano atrás, os ministros franceses explicaram o caso do seguinte modo: "Sem dúvida, o desemprego não diminui, o que diminui é a velocidade do aumento do desemprego, e isto não é tão ruim".

As pessoas se perguntam se explicações tão engenhosas, e neste caso inclusive estúpidas, conseguirão convencer os severos "guardiões do Templo Europeu". E particularmente a rigorosa Madame Merkel, pouco dotada de senso de humor.

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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