A fraqueza da força de trabalho

Tanto em 2007 quanto no início deste ano, concedi muitas entrevistas a jornais, rádios e televisões, em que salientei a carência de profissionais qualificados no Brasil, mostrando, na época, ser essa a principal dificuldade para um desenvolvimento pelo menos plausível do País. Embora o momento agora seja outro, insisto na mesma advertência. Basta o Produto Interno Bruto (PIB) exibir crescimento superior a 4% para que o Brasil se depare com um dos seus principais gargalos: a ausência de força de trabalho para sustentar o avanço da economia brasileira.O Brasil veio caminhando, nos anos de 2006, 2007 e início de 2008, sob um ritmo de desenvolvimento que seria em breve obstruído não por crise financeira mundial nem por ausência de infra-estrutura, mas sim pela incapacidade de alocar, na celeridade requerida, profissionais capacitados para gerar o crescimento econômico do País.Nesses anos recentes, o Brasil assistiu à corrida de muitas empresas buscando engenheiros e profissionais especializados em tecnologia da informação. De 2005 para cá, não foram poucos os engenheiros - principalmente da construção civil - que viram seus salários dobrarem de valor. Muitos especialistas em tecnologia da informação, da mesma forma, tiveram suas remunerações mais elevadas nesse período.É fato que várias outras profissões também foram valorizadas recentemente e, sublinho, todas são importantes para o desenvolvimento econômico. Porém nenhum país cresce desprovido da engenharia e da tecnologia da informação. E o Brasil não tem profissionais preparados, em número suficiente, para suportar desempenhos econômicos elevados. O País teve um período longo de estagnação e não se preparou em termos de força de trabalho para um rápido crescimento. Foi pego de surpresa. Estava, como ainda está, despreparado para um desenvolvimento econômico realmente sustentável.Apenas para ter uma idéia da debilidade da força de trabalho, o Brasil forma cerca de 23 mil engenheiros por ano, enquanto a Coréia do Sul, que conta com menos da metade da população brasileira, forma 80 mil. E na Índia, aproximadamente 150 mil engenheiros são formados anualmente. Estudos revelam que o Brasil tem 6 engenheiros para cada mil pessoas economicamente ativas, enquanto o Japão e os EUA contam com 25 engenheiros para cada mil pessoas economicamente ativas.Profissionais da área de tecnologia da informação também são escassos no País, mesmo sendo o maior empregador da América Latina nesse campo de trabalho. Do total de vagas no setor, cerca de 48% são ocupadas no Brasil, representando aproximadamente 900 mil empregos. Entretanto, nesse curto período de crescimento econômico, ficaram em aberto, por ano no Brasil, nessa área, 40 mil vagas em todos os níveis de especialização. Motivo: falta de gente qualificada.Mas se generalizarmos, verificando as demais profissões, o cenário permanece caótico. No ano de 2005, o índice de profissionais colocados nas vagas oferecidas pelos empregadores foi cerca de 52%; em 2006, aproximadamente 50%; e 2007 em nada difere dos dois anos anteriores. Em mais de 70% dos casos em que a vaga não foi preenchida o que ocorreu foi a falta de qualificação do candidato.Com certeza o Brasil não repetirá, no próximo ano, o desempenho econômico desse curto período recente. A crise financeira mundial está frustrando o crescimento do País. Crescimento esse que, mais cedo ou mais tarde, seria impelido a se esvair em razão do gargalo de uma sociedade que não se prepara para o médio e o longo prazos, não se preocupando suficientemente com a educação e a formação profissional da população.Tudo leva a crer que em 2009 o Brasil vai demandar menos engenheiros, menos profissionais da área de tecnologia da informação e menos trabalhadores qualificados para outros setores técnicos. Mas esse será o momento em que urge investir no preparo técnico do País, voltando os olhos para a educação e para a qualificação dos profissionais. Só assim poderá, no futuro, crescer constantemente a taxas expressivas do PIB. Por enquanto, do jeito que o Brasil está, o crescimento econômico ou é barrado por crises financeiras globais ou é impedido de acontecer pela própria fraqueza de sua força de trabalho. *Sérgio Amad Costa é professor de recursos humanos e relações trabalhistas da FGV-SP

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