Gabriela Biló/ Estadão
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Pedro Fernando Nery
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A galinha do presidente

Bolsonaro contratou mais estresse em 2022 ao defender reajuste salarial para os policiais

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2021 | 04h00

A literatura que investiga a relação entre dinheiro e felicidade é repleta de achados que mostram que, mais importante para o bem-estar que o valor absoluto que alguém ganha, é o valor relativo – isto é, como este número se compara com o de conhecidos. Recentemente, pesquisadores das universidades de Boston e Rice publicaram o resultado de experimentos mostrando que indivíduos tendem a comparar seu salário com o salário máximo de um outro grupo – uma informação mais saliente que temos facilidade de guardar (Putnam-Farr e Morewedge, 2020).

Depois de um período surpreendentemente longo sem reajustes salariais e com inflação alta, foi o dado o start nas campanhas salariais dos servidores públicos. O governo vinha conseguindo mudar a composição do Orçamento, aumentando por exemplo a fatia das transferências de renda e reduzindo a parcela com servidores. Este novo equilíbrio foi perturbado pelo presidente da República.

Bolsonaro prometeu reajuste salarial para os policiais federais. Apenas para eles, pela falta de dinheiro. Corporações de auditores da Receita e juízes já mostraram insatisfação publicamente. Prints com os supostos valores máximos que seriam recebidos por delegados e peritos da PF passaram a circular. Servidores se compararam. 

Bolsonaro puxou uma pena, mas pode trazer uma galinha. Delegados da PF poderiam ganhar o mesmo que juízes e procuradores, mas esses acham a equiparação injusta porque se aposentam bem depois: tendem agora a pressionar pelo aumento do teto remuneratório. O aumento para peritos também frustra carreiras técnicas que se consideram parecidas, como as do Legislativo, TCU e as do ciclo de gestão – rótulo que arrasta os gestores, os analistas do Banco Central, da Secretaria de Planejamento, da Secretaria de Comércio Exterior, os pesquisadores do Ipea, os auditores do Tesouro e da CGU. 

Mas estes são referências para os especialistas em regulação, mobilizados na ANA, Anac, Anatel, Aneel, Ancine, ANP, ANS, Antaq, ANTT, Anvisa. Que são referência dos analistas das agências, e também dos servidores da novel agência da mineração (ANM) e do DNIT – que buscam equiparação. São muitas penas.

Para piorar, a PF é a baliza da remuneração da Polícia Civil do DF (igualmente custeada pela União), que é baliza da PM do DF, que é baliza das demais polícias, que em nível local também são farol de outras carreiras (como agentes de trânsito).    

Bolsonaro parece ignorar essa delicada dinâmica. Contratou mais estresse para 2022.

DOUTOR EM ECONOMIA*

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