Marcos Müller
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A gastança crônica e o duro aprendizado

Três anos de recessão no Brasil e de forte desemprego, devidos a erros exclusivamente nossos, construíram um arsenal de experiência

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2017 | 21h00

O escritor inglês Oscar Wilde disse uma vez que “experiência é o nome que damos a nossos erros”. Três anos de recessão no Brasil e de forte desemprego, devidos a erros exclusivamente nossos, construíram um arsenal de experiência. Se algum benefício terá proporcionado foi o de ter amolecido corações e mentes para entender melhor a natureza das coisas e assumir nova postura diante de verdades que o brasileiro se recusava a aceitar.

Uma dessas verdades é a necessidade de promover reformas, sem as quais o País estaria condenado à prostração e ao atraso. Durante muitos anos, o discurso do equilíbrio das contas públicas vinha sendo considerado por tanta gente no Brasil, principalmente pelas chamadas esquerdas, nada mais que pregação de ortodoxos neoliberais, destinada a preservar a renda dos mais ricos em prejuízo dos trabalhadores.

Agora se viu que o projeto que pretendeu empurrar o crescimento econômico baseado em intervenções na economia e no voluntarismo produziu um desastre atrás do outro. Não foi apenas a economia do Brasil que foi para o vinagre. Alguns Estados, como o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul, foram sucateados e já não conseguem pagar em dia nem salários nem aposentadorias.

A ameaça de que o Brasil caminha para o mesmo destino desses Estados parece ter empurrado os políticos à responsabilidade fiscal. Enfim, independentemente do destino que vier a ser dado às novas denúncias do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, equilíbrio nas contas públicas passou a ter importância. Falta saber quanta.

E isso a gente vai saber dentro de semanas, quando entrarem em pauta as discussões no Congresso sobre o projeto de reforma da Previdência Social. Todos os argumentos supostamente técnicos da oposição foram desmontados, inclusive o de que o projeto não foi suficientemente discutido. Nos anos mais recentes, o primeiro a defender a reforma da Previdência foi o então presidente Lula. Dilma, que lhe sucedeu, também colocou o tema em pauta, sob o argumento de que, se nada de importante se fizer para reverter o quadro falimentar do sistema, o próprio aposentado ficará sem sua renda. O resto é lenga-lenga.

O outro tema fortemente demonizado até recentemente é o das privatizações, que, ao longo do último debate eleitoral, a atual oposição chamou de privatarias. A principal razão pela qual a privatização ficou inevitável não é a premente necessidade de caixa do setor público, nem a busca de mais eficiência no serviço público, nem mesmo a necessidade de atacar o gigantismo do Estado. A principal razão é a necessidade de garantir imediatamente os investimentos com que o Estado quebrado não tem mais condições de arcar. Sem privatização e sem concessão de serviços públicos, como garantir a construção de novos portos, rodovias, ferrovias e serviços de telecomunicação?

Mas o brasileiro parece ter ficado mais propenso a mudar seu ponto de vista apenas porque entendeu que manter hidrelétricas no setor público é entregá-las para os amigos do Edison Lobão.

Mas não basta a experiência. O problema do aprendizado com a experiência são as recaídas. O ser humano está sempre desaprendendo. E tem uma estranha atração por desastres, especialmente na área econômica.

» A surpresa do IBC-Br

O Índice da Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que existe para antecipar o comportamento do PIB, apontou em julho avanço de 0,41% sobre o mês anterior. Ninguém esperava tanto. A projeção do Banco Central para o PIB de 2017 é de 0,5%. Este é mais um indicador de que a recessão ficou para trás. Trata-se de um número forte, que tende a puxar um efeito arrasto para os meses seguintes. Mesmo que haja uma desaceleração, daqui para a frente a tendência é de retomada firme do PIB.


 

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