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A ''generosidade'' chinesa

A China é um país assombroso, basta ela ver um país europeu se afogando para abrir sua carteira e oferecer ajuda. Foi o que ela acabou de fazer a Portugal. Segundo o Jornal de Negócios, o ministro chinês das Finanças teria assegurado a seu homólogo em Lisboa, Teixeira dos Santos, que a China "estará presente nas operações de emissões da dívida pública".

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2010 | 00h00

A China estaria disposta a comprar 5 bilhões da dívida soberana portuguesa. Esse dinheiro vem a calhar. Após a Grécia, que quase capotou, após a Irlanda, salva na última hora pela União Europeia, Portugal é o próximo "elo fraco".

Os especuladores, atraídos pelos odores de falência, começavam a rodopiar em torno de Portugal.

O mercado já impôs taxas de juros proibitivas a Portugal, acima de 6,5%, para seus empréstimos por dez anos.

A China já havia feito algo semelhante, na última primavera europeia, saindo em ajuda da Grécia. Naquela ocasião, ela adquiriu participações nos portos da Grécia e prometeu que "estaria presente tão logo a Grécia, então à beira da falência, recomeçasse a captar dinheiro nos mercados".

Como assim? Então a China, montada em suas reservas monumentais de divisas ( 2,015 trilhões, as maiores reservas do mundo) faz a feira na União Europeia, comprando uma Grécia aqui, um Portugal ali?

Essa visão de uma China que teria começado a conquista financeira de uma Europa exaurida é exagerada. Afinal, 5 bilhões não é muita coisa.

Basta lembrar que os Fundo de Estabilização Europeu, que a União Europeia criou recentemente para ajudar os países em dificuldade, tem capacidade para emprestar até 440 bilhões.

De mais a mais, os 5 bilhões emprestados pela China a Portugal não tirarão esse país da tormenta: a partir de janeiro, Portugal deverá voltar ao mercado. Em 2011, Portugal deverá captar 38,5 bilhões, 28 bilhões dos quais só para reembolsar seus credores.

Então, quais sãos as verdadeiras razões para a generosidade chinesa? Os chineses dizem que é preciso ver nesse gesto a prova de seu "bom coração".

O site oficial chinês Century Weekly traz como título de seu editorial: "Euro pengyou", o que quer dizer "o amigo do euro". Isso não é verdade, claro.

A China, como todos os países, pensa sempre, antes de tudo, em seu próprio interesse.

Eis algumas razões prováveis. Os enormes haveres de que a China dispõe são denominados principalmente em dólares. Desde a crise financeira global, Pequim tomou a decisão de diversificar suas reservas.

Duas moedas se beneficiaram dessa nova prática: o iene japonês e, sobretudo, o euro. Por que o euro? Os chineses não gostariam que a Europa afundasse, a deixando só em face dos Estados Unidos.

Os laços entre a China e a Europa são intensos. A União Europeia é a principal parceira comercial da China. E a China é a segunda maior parceria comercial da Europa, após os Estados Unidos.

Ora, para comercializar com um país (ou um continente), é melhor que esse país (ou esse continente) não esteja arruinado. Portanto, a China não quer que a Europa seja exaurida pelas fraquezas ou os desastres do euro.

Podem-se propor outras duas explicações: a primeira é diplomática. A China é constantemente recriminada pelos europeus por questões relativas aos direitos humanos (colonização do Tibete, prisão do chinês agraciado com o Prêmio Nobel da Paz etc.). Essas recriminações exasperam os chineses.

Ora, quanto mais a Europa for dependente da China no plano econômico, mais os chefes de Estado europeus hesitarão em "dar lições de moral" sobre direitos humanos a Pequim.

A outra é que a China é um país que no passado foi submetido aos apetites colonialistas da Europa.

No fim do século 19, as potências europeias (França, Inglaterra, Alemanha) distribuíam entre si pedaços da China. Essa lembrança é humilhante, insuportável, para os chineses.

Ora, hoje é o antigo país "dominado" que sai em ajuda dos antigos países "dominadores".

As pessoas muitas vezes esquecem de levar em conta, na luta política, o papel que jogam o brio e a altivez de uma nação. /

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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